“A Vale continua a ver os índios como um entrave e um incômodo”

Publicado em 03/08/2018 por Agência Pública

Antropólogo, doutor e mestre pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cesar Gordon pesquisa os índios Xikrin desde 1998. Um de seus livros mais famosos, premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Economia selvagem: ritual e mercadoria entre os índios Xikrin-Mebengokre) aborda as relações entre esse povo e a sociedade não indígena e suas consequências - uma delas, o pagamento de compensações financeiras aos indígenas pela Vale, que explora 14 empreendimentos minerários no entorno da TI Xikrin do Cateté. “A Vale despende muitos recursos com os Xikrin, porém esses recursos são mal aplicados, poderiam ser investidos de maneira muito mais inteligente e responsável, realmente pensando na qualidade de vida e no melhor futuro dos índios”, critica, salientando atitude predatória e imediatista da mineradora nessa relação.

Mesmo sem ter ido recentemente às aldeias, Gordon mantém contato com os indígenas e acompanha suas manifestações sobre o projeto Salobo, que motivou recentemente abertura de Ação Civil Pública na Justiça Federal. “Os Xikrin estão muito cientes desses problemas e têm se organizado, se mobilizado e lutado bastante para garantir melhores condições de vida, diante de forças políticas e econômicas muito maiores que eles”, salienta. Leia a entrevista, feita por e-mail.

Como avalia os impactos desses projetos da Vale sobre os Xikrin?

No caso da exploração de níquel pela operação Onça Puma, o resultado foi a contaminação do rio Cateté, já fartamente documentada e comprovada, causando notórios prejuízos à saúde indígena, tal como denunciado pelo médico João Paulo Vieira Filho. Isso ensejou, a propósito, ação do Ministério Público Federal do Pará, que chegou a determinar a paralisação das atividades de mineração. Não sei como a Vale pretende equacionar o problema urgente da recuperação do rio Cateté e sua despoluição. Não gostaria de ser leviano, mas muito provavelmente a companhia tomará medidas apenas paliativas. Tudo isso, evidentemente, aflige demais os índios. O rio Cateté tem uma importância fundamental para eles, tanto do ponto de vista da subsistência quando do ponto de vista cultural. A poluição e eventual destruição do rio são um crime gravíssimo contra essa população indígena e contra o meio ambiente.

Leia a entrevista completa no site da Agência Pública