Um acordo bilateral Brasil-China faz sentido para o agro?, por Agroanalysis/FGV

Publicado em 07/01/2020 por Agroanalysis

A balança comercial do agronegócio brasileiro com a China é superavitária. 
No acumulado no ano, o saldo da balança comercial do setor foi de US$ 21,5 bilhões. Desse total, as atividades agropecuárias respondem por 86,9% (US$ 18,7 bilhões) e a agroindústria, por 13,1% (US$ 2,8 bilhões).
Todavia, a balança comercial do setor com os chineses já foi maior. Ao longo de 2019, o saldo comercial contraiu 16,9%. Essa retração foi liderada pelas atividades agropecuárias (-22,1%) – evidentemente, uma consequência da redução dos embarques de soja –, uma vez que houve forte expansão (47,3%) da balança comercial do lado da agroindústria.
ACORDO COM A CHINA
É de amplo conhecimento que a China é o principal parceiro comercial do agronegócio brasileiro. Por exemplo, em 2019 (até outubro), os chineses responderam por 30,8% (US$ 26,1 bilhões) do valor total exportado pelo setor. Além de ser o principal destino das exportações do agronegócio nacional, a China também é o país do qual o setor mais importa – até outubro de 2019, essas compras totalizaram US$ 4,6 bilhões (16,3% do total importado). Diante disso, se a China já é o principal parceiro comercial do agronegócio brasileiro, vale a pena para o setor celebrar um acordo de livre-comércio com esse país? Quais poderiam ser as vantagens de assinar um documento como esse com um país que já é um grande aliado comercial?
Embora ainda seja uma notícia incipiente, o fato de o Brasil vir a celebrar um acordo bilateral com a China pode trazer vantagens para o agronegócio nacional, por mais que tal país já seja o principal parceiro comercial do setor. Dentre essas vantagens, merecem destaque:
• Os produtos brasileiros podem chegar de forma ainda mais competitiva ao mercado chinês;
• Com maior facilidade para acessar o mercado chinês, novos produtos do agronegócio nacional poderão ser adquiridos pelos chineses, aumentando a diversi?cação da pauta de exportações do setor junto a esse país;
• É fato que os produtos chineses também chegarão mais baratos ao Brasil. No entanto, considerando que o agronegócio nacional importa, essencialmente, insumos de produção e matérias-primas, o produto ?nal brasileiro pode ?car ainda mais competitivo.
EXPORTAÇÕES PARA A CHINA: NÃO SÃO APENAS DE SOJA
Como já destacado, a China é o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro. Além da soja, que, em 2019, respondeu por 69,6% do valor total exportado para os chineses, também merecem destaque os embarques de carnes (11,9%) e papel e celulose (11,4%). Vale ressaltar que, até outubro deste ano, as exportações para a China registraram uma contração de 13,6%. Os problemas decorrentes da peste suína africana certamente têm papel central para explicar essa contração, pois as exportações de soja acumularam uma queda de 23,8%, enquanto os embarques de carne cresceram 40,5% no mesmo período.
Conforme pode ser visto, a pauta exportadora do agronegócio brasileiro para a China é bastante concentrada. Porém, apesar disso, é importante notar que a economia chinesa compra diversos outros produtos: na realidade, ela está entre os dez principais destinos de vários segmentos do agronegócio, tais como produtos ?orestais, alimentos de origem animal, produtos têxteis, borracha, soja, pescados, produtos apícolas e plantas vivas. Diante disso, o acordo bilateral poderá intensi?car as vendas dos produtos desses setores, fazendo com que a pauta exportadora ?que mais diversi?cada.
CHINA: A PRINCIPAL ORIGEM DAS IMPORTAÇÕES DO AGRONEGÓCIO
Além de ser o maior comprador dos produtos do agronegócio brasileiro no mercado internacional, a China também é o país que mais vende bens para o setor. Entre esses produtos, destacam-se insumos de produção (33,1% do valor total importado pelo agronegócio em 2019), produtos têxteis (43,8%) e borracha (8,9%).
As compras do agronegócio na China têm aumentado. Por exemplo, em 2019, esse aumento foi de 6,3%, puxado pela expansão das importações de insumos agropecuários (22,5%), borracha (16,1%) e produtos ?orestais (31,4%). Juntos, esses três setores responderam por 46,9% do valor importado da China pelo agronegócio no ano. Na realidade, vale ressaltar, ainda, que as importações só não cresceram ainda mais neste ano devido à contração (-4,8%) das compras de produtos têxteis.
Apesar de a China ser o maior vendedor de produtos para o agronegócio brasileiro, assim como no caso das exportações, a pauta de importação é bastante concentrada. Em 2019, apenas três setores do agronegócio (insumos agropecuários, produtos têxteis e borracha) responderam por 85,9% do valor total das importações. Em geral, essas compras são de produtos que serão utilizados ao longo do processo produtivo. Logo, o acordo comercial pode ser bené?co para o agronegócio também por tornar alguns insumos de produção e matérias-primas mais baratos, dei- xando o produto ?nal brasileiro ainda mais competitivo.
Apesar disso, é necessário reconhecer que uma abertura comercial implica uma maior concorrência para os players já instalados no Brasil e que haverá um período de adaptação com custos de ajustamento. Em outras palavras, deverá haver, sim, perdedores no curto prazo.