O agronegócio não é uma ‘bancada do boi’

Publicado em 03/12/2018 por O Globo

Elio Gaspari

Contaminado por um setor paleoli´tico, o agronego´cio brasileiro paga pelo que na~o e´ e na~o consegue mostrar o que e´.
Prova disso e´ que a defesa dos seus interesses e´ atribui´da ao que denomina “bancada do boi”. Nessa bancada ha´ trogloditas que querem queimar matas, calotear di´vidas e invadir terras alheias. Defendendo-os, Jair Bolsonaro chega mesmo a acreditar que os quilombolas sa~o um problema nacional.
Dois renomados historiadores — Herbert Klein, de Columbia e Stanford, e Francisco Vidal Luna, da USP — entregaram a` editora da Universidade de Cambridge o texto de “Feeding the World” (“Alimentando o Mundo”), onde contam a histo´ria da revoluc¸a~o ocorrida na agricultura brasileira nos u´ltimos 50 anos, acelerada neste se´culo. O livro saira´ em dezembro e a traduc¸a~o, no ano que vem. O que houve foi uma revoluc¸a~o de verdade. De pai´s atrasado, o Brasil tornou-se o maior exportador de soja, carnes processadas, laranjas e ac¸u´car. E´ o quinto maior produtor de cereais. Enquanto a indu´stria nacional patinou depois da abertura da economia, o agronego´cio adaptou-se, expandiu-se e adquiriu competitividade internacional.
Entre a de´cada de 1980 e os u´ltimos oito anos a produtividade das a´reas plantadas cresceu 150%. Essa revoluc¸a~o juntou empreendedores e uma elite te´cnica formada com vigor chine^s. Em 1999 o Brasil tinha seis mil estudantes de agronomia. Em 2007 eram 48 mil (40 mil dos quais em instituic¸o~es pu´blicas). Entre 1998 e 2017 foram produzidas oito mil dissertac¸o~es de mestrado e tre^s mil teses de doutorado. No pico desse e^xito esta´ a Embrapa, que se tornou um dos melhores centro de pesquisas agri´colas do mundo. Hoje o Brasil tem a terceira maior indu´stria de sementes.
Klein e Luna na~o deixam assunto sem ana´lise, inclusive os problemas de pobreza e atraso, mas expo~e uma revoluc¸a~o que esta´ acontecendo. Ela e´ descrita em Sa~o Paulo, no Sul, e surpreende no Centro-Oeste. Uma migrac¸a~o esponta^nea, selvagem no ini´cio, transformou Mato Grosso num celeiro. Em 1970 la´ existiam 600 tratores, 15 anos depois eram 20 mil. Em 1980, quando chegou a soja, cultivaram sete mil hectares. Em apenas nove anos, chegaram a 1,7 milha~o de hectares. As taxas de fertilidade e mortalidade infantil cai´ram, enquanto a expectativa de vida subiu cerca de 20 anos desde 1960. Hoje o Mato Grosso tem um dos mais altos i´ndices de terras tituladas (77%).
O agronego´cio carrega entre 20% e 25% da economia nacional porque e´ moderno. A contaminac¸a~o paleoli´tica obriga-o a ser ouvido como um Yo-Yo Ma, tocando num violoncelo rachado. Carne? Joesley Batista. Meio ambiente? Jair Bolsonaro e seus conselheiros do agronego´cio durante a campanha eleitoral.