Alquimia francesa recupera o lixo eletrônico

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Alquimia francesa recupera o lixo eletrônico

Serge Kimbel vê os resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (REEE) como o alquimista medieval Nicolas Flamel via o chumbo: um material semelhante ao ouro. Kimbel é fundador e diretor-executivo da Morphosis, empresa de 50 funcionários do norte da França, que nos últimos dez anos lucrou com tesouros minúsculos - prata, platina, cobre - escondidos em cartões e discos rígidos de computadores, celulares e outros dispositivos descartados.

"Não somos os únicos a operar nesse mercado - a indústria de mineração também passou a recuperar esses metais. Mas, em termos de preço, somos mais competitivos porque nossos materiais têm grau muito alto de pureza e são retransformados de acordo com as necessidades específicas dos fabricantes", diz Kimbel.

Todos os anos, 25 mil toneladas de REEE são esmagadas e moídas nos dois pontos da empresa, no porto de Havre, para recuperar seus preciosos conteúdos. A Morphosis utiliza um processo industrial que combina tratamentos mecânicos, químicos e térmicos para extrair o "minério" desse resíduo, 80% dos quais são entregues desmontados. É um setor com forte potencial de crescimento, que vem avançando entre 8 e 9% ao ano, segundo Kimbel. Os analistas da União Europeia preveem que, só dentro de suas fronteiras, o volume de resíduos a ser tratado poderá chegar a 12 milhões de toneladas até 2020.

Embora essa mina de oportunidades pareça promissora, o tratamento do lixo eletrônico está se tornando complexo. Os volumes estão aumentando, mas as concentrações de metais raros que contêm estão mais escassas e a disputa por eles vem se acirrando. Os países asiáticos, maiores produtores desse fluxo de resíduos, estão mais ativos nesse mercado.

É um campo em que os interesses financeiros estão convergindo com os ambientais. As indústrias de extração consomem muita energia e liberam enormes quantidades de CO2, tornando-se as maiores emissoras de gases que estão aquecendo o planeta. Há apenas 0,0011 g de ouro para cada tonelada da crosta terrestre - por isso é preciso mover montanhas para se descobrir o metal raro.

No caso dos tesouros recuperados pela economia circular, as chances de se encontrar ouro são muito maiores. Os telefones celulares, por exemplo: 1 tonelada de cartões eletrônicos pode conter até 1 kg de ouro, 5 kg de prata, 9 kg de tântalo e 250 kg de cobre. Um estudo recente da Agência Francesa de Meio Ambiente e Gestão de Energia (Ademe) revelou que, em 2012, apenas um quarto dos cartões eletrônicos coletados chegou a ser de fato processado. Uma perda estimada em ? 124 milhões (US$ 143 milhões), apenas pelo ouro não extraído.

"Estamos trabalhando para termos o menor consumo de energia e volume de emissões de CO2 possíveis. É importante para nossa sustentabilidade financeira", observa Kimbel. Quando a Morphosis queima o plástico dos cartões de memória, o calor criado é reutilizado no processamento de metais raros e também para aquecer as instalações da empresa, no Havre. Os edifícios da nova unidade da Morphosis, em Fécamp, na Normandia, serão totalmente neutros, em grande parte graças à eletricidade fotovoltaica gerada lá. A empresa está investindo ? 5 milhões na unidade para tratar uma grande variedade de produtos com alto rendimento de recuperação e baixo consumo de energia. A Morphosis investe em P&D 10% do volume de negócios que chegou a ? 12 milhões em 2017.

Uma desvantagem é que a empresa está buscando seus suprimentos em zonas cada vez mais distantes: suas matérias-primas vêm da África, Oriente Médio e América Latina. Com certeza isso traz consequências para a pegada ecológica da empresa. No entanto, segundo Kimbel, essa consideração deve ser redimensionada: "O porto do Havre nos permite fazer remessas marítimas", observa. "Nós fazemos uma enorme economia em comparação ao uso do transporte rodoviário, e a proporção de CO2 por tonelada transportada é significativamente menor".