Amazônia: 10 momentos chave da crise

Publicado em 28/08/2019 por Época Negócios

Desde o início de agosto, a preocupação vem tomando contornos de crise diplomática
O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta terça-feira (27) que o presidente francês, Emmanuel Macron, terá de "retirar os insultos" antes de o governo brasileiro avaliar a oferta de ajuda de US$ 22 milhões (cerca de R$ 91 milhões) do G7, o grupo de sete dos países mais ricos do mundo, para combater as queimadas na Amazônia.
"Primeiramente, o senhor Macron deve retirar os insultos que fez à minha pessoa. Primeiro, me chamou de mentiroso. E depois, informações que eu tive, de que a nossa soberania está em aberto na Amazônia", disse. "Para conversar ou aceitar qualquer coisa com a França, que seja com as melhores intenções possíveis, ele vai ter que retirar essas palavras", disse o presidente brasileiro.
Nos últimos dias, o noticiário nacional e internacional foi tomado pelas queimadas na Amazônia e pela crise diplomática, com troca de fortes críticas principalmente entre os presidentes Bolsonaro e Macron.
Até o papa Francisco aderiu ao clamor público para proteger a floresta. "Todos nós estamos preocupados com os grandes incêndios que se desenvolveram na Amazônia. Vamos orar para que, com o empenho de todos, possam ser apagados em breve. Esse pulmão florestal é vital para o nosso planeta", afirmou o pontífice diante de milhares de fiéis, na praça São Pedro, no Vaticano.
Antes de as queimadas na Amazônia dominarem o noticiário internacional, a política ambiental no Brasil já tinha sido alvo de críticas por não reforçar os esforços de combate ao aquecimento global e de preservação do planeta.
Símbolo dessa preocupação, a capa da revista britânica The Economist estampou a imagem de um toco de árvore com o formato do mapa do Brasil, e o seguinte título: "Vigília da morte para a Amazônia". O subtítulo da edição, na primeira semana de agosto, mencionava a ameaça do desmatamento descontrolado.
Desde o início de agosto, a preocupação vem tomando contornos de crise diplomática. Confira os principais momentos da escalada dessa crise:
1. Demissão no Inpe
O físico Ricardo Galvão foi exonerado do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no dia 2 de agosto, depois de um longo desgaste com Bolsonaro e com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente): o ministro chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe no monitoramento do desmatamento.
A crise se tornou mais aguda em 19 de julho, quando Bolsonaro pôs em dúvida os dados do Instituto e disse que Galvão estaria "a serviço de alguma ONG". Em uma entrevista no dia seguinte, o diretor do Inpe defendeu as informações produzidas pelo instituto e classificou a atitude do presidente de "pusilânime e covarde".
O instituto é a principal ferramenta do governo brasileiro para estudos de sensoriamento remoto, que são usados, entre outras coisas, para medir o desmatamento na Amazônia e outros biomas.
2. Escuridão em São Paulo
Cidade mais populosa do país, São Paulo teve uma tarde atípica em 19 de agosto, quando o céu ficou escuro e amarelado, a ponto de parecer que era noite. Segundo meteorologistas, o fenômeno é explicado pela conjunção dos efeitos da fumaça proveniente de queimadas e de uma frente fria na região.
Enquanto o céu opaco é comum em cidades como Cuiabá, Manaus e Rio Branco, o episódio em São Paulo gerou mais debate em relação à política ambiental e às queimadas na Amazônia.
3. Aumento das queimadas
Dados do Inpe mostraram que o número de focos no Brasil este ano (do primeiro dia de janeiro a 19 de agosto), 72.843, já é 83% maior que no ano passado. Os maiores crescimentos de 2018 para 2019 foram registrados no Mato Grosso do Sul (+256%); Pará (+199%); Acre (+196%); e Rondônia (+190%).
Rondônia é o quinto estado no país que mais teve focos de incêndio neste ano: 5.533. Nos primeiros lugares, estão Mato Grosso (13.682); Pará (9.487); Amazonas (7.003); e Tocantins (5.751).
4. Bolsonaro acusa ONGs de estar por trás de queimadas na Amazônia
O presidente Jair Bolsonaro afirmou, em 21 de agosto, que organizações não governamentais (ONGs) poderiam estar por trás de queimadas na região amazônica para "chamar atenção" contra o governo do Brasil. Ele não citou nomes de organizações e também não apresentou provas da alegação.
Bolsonaro disse que o governo tirou dinheiro de ONGs. "Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público, de forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro."
5. Macron: 'Nossa casa está pegando fogo'
O embate entre Bolsonaro e Macron começou na quinta-feira (22), quando o presidente francês defendeu em seu perfil no Twitter que as queimadas na Amazônia entrassem na pauta do G7.
"Nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional."
As queimadas suscitaram numerosos debates na rede social, e a hashtag #prayforamazonia (reze pela Amazônia) chegou ao topo das mais citadas no Twitter em todo o mundo durante a semana.
No mesmo dia, Bolsonaro escreveu no Twitter para lamentar que Macron: "busque instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos p/ ganhos políticos pessoais. O tom sensacionalista com que se refere à Amazônia (apelando até p/ fotos falsas) não contribui em nada para a solução do problema".
6. Macron diz que Bolsonaro mentiu
Na sexta-feira (23), o tom das críticas internacionais subiu quando o presidente da França, Emmanuel Macron, acusou o presidente Jair Bolsonaro de mentir sobre compromissos ambientais assumidos durante o encontro do G20 em Osaka, no Japão. Por causa disso, o líder francês disse que se opõe ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.
Antes disso, o presidente Macron já tinha usado o Twitter para declarar que a situação da Amazônia representa uma "crise internacional" e defender que o tema seja discutido durante a cúpula do G7, nos dias 24 e 25 de agosto em Biarritz, sudoeste francês. O tuíte foi endossado pelo primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.
Bolsonaro, por sua vez, respondeu que os comentários de Macron têm "tom sensacionalista" e foram uma tentativa de obter "ganhos políticos pessoais".
7. Boicote, panelaço e militares na Amazônia
Diversos países se manifestaram de maneira contundente sobre os incêndios. Alguns chegaram a defender boicotes à carne e aos produtos agrícolas brasileiros, enquanto países europeus disseram que as queimadas ameaçam ao acordo comercial firmado recentemente entre o Mercosul e a União Europeia.
Em um pronunciamento transmitido em rede nacional na última sexta-feira, Bolsonaro disse que "incêndios florestais existem em todo o mundo" e que isso "não pode servir de pretexto para possíveis sanções internacionais".
O pronunciamento foi recebido com panelaços em algumas cidades do país, a exemplo de São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.
Nessa ocasião, Bolsonaro mencionou a oferta do emprego das Forças Armadas aos estados que compõem a Amazônia Legal, por meio da GLO (Garantia da Lei e da Ordem), para combater os incêndios e disse que a proteção da floresta é dever do país. O decreto permite aos militares atuar em áreas de fronteira, terras indígenas, unidades de conservação ambiental e outras áreas da região.
8. Ofensa à esposa de Macron
Bolsonaro fez um comentário no Facebook impulsionando a visibilidade de um post sexista que insinua que o líder francês "persegue" o colega brasileiro por "inveja" de sua esposa, Michelle Bolsonaro, com fotos comparando as primeira-damas brasileira e francesa. "Não humilha cara. Kkkkkkk", escreveu o perfil de Bolsonaro no sábado (24).
Macron reagiu classificando o episódio de "triste, triste" e disse esperar que "os brasileiros tenham logo um presidente que se comporte à altura".
O círculo mais próximo a Bolsonaro reforçou as críticas a Macron. No Twitter, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, escreveu que o líder da França "é apenas um calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês" e defendeu "ferro no cretino".
9. Oferta do G7
No domingo (25), a cúpula do G7 chegou a um acordo para ajudar a combater as queimadas na Floresta Amazônica. Os líderes do grupo – formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido – concordaram em liberar US$ 22 milhões (cerca de R$ 91 milhões) para a Amazônia.
O grupo também decidiu apoiar um plano de reflorestamento de médio prazo que será divulgado pela ONU em setembro, segundo um assessor presidencial.
10. Brasil aceita ou rejeita ajuda?
Depois de o governo dele ter dado informações de que o Brasil rejeitaria a oferta dos países do G7, Bolsonaro afirmou na manhã desta terça-feira (27) que Macron teria de "retirar insultos" antes de o Brasil considerar aceitar a ajuda para combater queimadas na Amazônia