Ameaças externas

Publicado em 11/10/2018 por Carta Capital

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Conhecemos bem as ameaças internas que, vencedoras, farão o Brasil continuar Federação de Corporações e não República Federativa, nação soberana, livre e de menor desigualdade cidadã. Vimos de trinta em trinta anos, pouco mais pouco menos, cedendo ao vírus do autoritarismo para assegurar o Acordo Secular de Elites. Creem sermos bestinhas que mal sabem interpretar a História.

Por minha conta e risco, votaria em Tiririca para não validar o fascismo a se instalar. Sempre estive inserido no processo democrático, embora não filiado a partidos políticos. Manifestei-me publicamente e declarei votos. Sem radicalizar, esperei que aqueles que militavam mais próximo de meus ideais chegassem ao Executivo Federal.

Fiquei feliz e não. Tenho críticas à condução do País em suas gestões, mesmo assim infinitamente menores do que aquelas anteriores ou subsequentes à sua fundação, em 1989.

Estamos falando de três décadas e o alívio do período em que Lula e Dilma foram empossados. Entre as críticas, a instrumentalização cordata a que se submeteram para defender-se do golpe sempre em gestação, e que viria a se materializar depois de treze anos, em 2016.

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Mas e lá fora? Como andam as coisas? Melhores do que aqui? Para eles, sim. Para nós, caboclos, campesinos, sertanejos e grandes proprietários agrícolas exportadores, creio que não.

Semana passada, ouvi de um produtor rural no estado de São Paulo, antes beneficiado pelo PRONAF: "Adiantaria eu plantar soja em cinco hectares de chão? Parece que dará preço e com o dólar a cinco reais parece bom negócio".

Minha vontade foi responder: pergunte ao colunista de agronegócios da Folha de São Paulo o que ele acha. Mas não. Simpatizei com o rapaz que não merecia contato com o líder do MRSC, Movimento dos Ruralistas Sem-Caráter.

Expliquei-lhe as características do plantio da soja, ideal em grandes áreas, uso intensivo de tecnologia e mecanização, comercialização difícil, e perguntei-lhe o que plantara na última vez? Ouvi: "tomates, não deu preço, penso em desistir, mas pelo menos não fui tratado como vilão na Rede Globo".

O entardecer trazia prenúncio de céu limpo, lua expressiva, e já estávamos na quarta saideira. Perdoem o cacoete de cronista.

Disse-lhe para ficar nos tomates. Na agricultura tudo é cíclico. Você planta frutos saborosos, vermelhos, de largos consumo e variedades, que até aqui garantiram o seu sustento, da família, e trouxeram segurança alimentar a todos nós. Insista. É natural em caboclos. Quem sabe, em 2019, ocorram mais festas italianas para as 'mammas' produzirem vistosos molhos.

O poder aquisitivo do brasileiro médio caiu muito. O desemprego está em nível alarmante. A economia, atropelada pela financeirização, sacrifica indústria, comércio e serviços. Restará somente aos muito ricos consumir alimentos de maior valor agregado.

Pulhas remetem o perrengue atual ao fato de nos quatro governos pré-golpe ter-se distribuído melhor os pães. O rombo, quando sei quem deveria ser arrombado.

Vem a quinta saideira.

Amigos plantadores, continuem na luta, mas com a visão certa de que o Brasil corre enormes riscos para garantir a ganância de quem fez fortuna sem imaginar impossível País em que menos 1% da população tem direito à completa cidadania.

Mesmo nos países de economia mais avançada o ciclo financista do capitalismo não traz conforto. Vejam o que disse Anne Krueger, antes economista-chefe do Banco Mundial e vice-diretora do FMI, sobre a política de Donald Trump: "o comércio mundial pode ruir".

Séria complicação para os produtores de grãos. Fortunas brasileiras estão sendo cada vez mais aplicadas no exterior. Não há investimento público ou privado. Sabe por quê? Medo, medo do incerto trazido pelos novos tempos nas geopolítica e economia.

O insuspeito Martin Wolf, analista econômico do Financial Times, escreve sobre nada ter mudado desde a crise 2007/8: "O modelo central baseava-se em dois pressupostos críticos, a hipótese dos mercados eficientes e das expectativas racionais. Nenhum deles hoje parece convincente".

O rapaz: não vou pra soja, nem volto aos tomates, fico na sexta saideira.