Beco com saída

Publicado em 15/04/2018 por O Globo

As forças progressistas do país, ao fazer um balanço dos seus avanços e tropeços, no último meio século, têm que levar em conta a figura de Lula. Reconhecendo sua impressionante trajetória de vida e sem idolatria: os líderes têm um papel na história, mas não constroem, sozinhos, os processos sociais.

A esquerda - que sofreu uma derrota estratégica no Brasil e no mundo - acredita na igualdade entre todos os seres humanos. Milita por uma nova ordem social, radicalmente democrática, que a possibilite. Esse ideário não é aprisionável. E não tem caminho único para sua realização. A autocrítica dos desvios, inclusive do ponto de vista da ética pública e das alianças com setores oligárquicos e monopolistas, ainda não foi feita.

Tempos de interregno: a velha institucionalidade política se decompõe, a economia patina na "reprimarização", na agressão ambiental e na desnacionalização. A desigualdade entre as classes se agudiza, revela o IBGE: 10% dos mais ricos concentram 43% da renda nacional; continuamos a ser um dos 15 países mais injustos do planeta. Entretanto, este sistema carcomido ainda pulsa.

O novo, anunciado fragmentariamente através de diversas lutas sociais, ergue-se aos poucos no alvorecer. São os despossuídos dos direitos elementares que se organizam, inclusive disputando orçamentos públicos. São os povos nativos e quilombolas que reagem à "ninguendade" imposta. São todas e todos que se afirmam nas pautas identitárias, contra as opressões.

A escalada obscurantista - que chegou ao ponto de brutalidade máxima com o assassinato de Marielle e Anderson - tem um componente de reação às forças ainda incipientes da mudança: "Os cães ladram, é sinal que avançamos!" - diz o Quixote de Miguel de Cervantes.

Lula está na prisão. Mas contas no exterior, milhões em malas de dinheiro, negociatas em portos, rodovias e ferrovias sequer tiram dos mandatos (e de pré-candidaturas) aqueles que contam com a benevolência de setores do Judiciário. Justiça, não sendo judiciosa, torna-se partidária e seletiva.

O capitalismo de laços do Brasil transformou os partidos, com raras exceções, em escritórios de defesa corporativa. Abrigados em siglas de fantasia, há representantes das empreiteiras, do agronegócio, dos bancos, da bala, da bola. O PT não enfrentou esse conluio histórico. Agora é denunciado por empresários que, em passado recente, cortejou.

Críticos e propositivos, apresentamos um programa de democratização radical da economia e da estrutura tributária, da política, da cultura e comunicação, em defesa da soberania nacional. Articula-se um movimento suprapartidário em defesa dos direitos, contra o ódio e os retrocessos. O horizonte estratégico almejado é o da socialização dos meios de governar e de produzir, da democracia sem fim. Essa construção social só será duradoura se coletiva.

Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)