Bônus verde pode estimular agricultura

Publicado em 08/11/2018 por Valor Online

A agricultura de baixo carbono brasileira poderá ser alavancada por títulos verdes, os chamados "green bonds". De um lado, o Brasil será, em 2025, o maior país exportador de alimentos do mundo e de outro, precisa cumprir suas metas climáticas reduzindo o desmatamento e reflorestando. Aumentar os fluxos de investimentos promovendo práticas sustentáveis no setor agrícola pode ser uma oportunidade de negócios.

Os dados fazem parte do relatório da Climate Bonds Initiative (CBI) de análise do mercado global de títulos verdes em 2018. A CBI é uma organização sem fins lucrativos que busca estimular investimentos em larga escala para a economia de baixo carbono. O capítulo brasileiro, produzido pela CBI em parceria com a Sitawi e denominado "Os Títulos Verdes podem financiar a agricultura brasileira?", indica que títulos verdes relacionados ao uso da terra estão "limitados a projetos sustentáveis para o setor florestal".

O relatório lembra que a agricultura respondeu por 4,6% do PIB em 2017 e que as exportações do setor representaram 44% das exportações totais do país. "Nos últimos 30 anos, o Brasil alcançou ganhos significativos de produtividade na produção de grãos. No entanto, a dinâmica entre algumas culturas e a produção de carne bovina está associada ao desmatamento em áreas de fronteira, como os biomas da Amazônia e Cerrado."

"O Brasil precisa de capital internacional para ajudar a atingir as metas nacionais de clima e desenvolvimento", diz em nota Justine Leigh-Bell, diretora para desenvolvimento de mercado da CBI. "[Estimular] Mais emissões de títulos domésticos é uma maneira óbvia de diversificar a base de investidores e atrair mais capital estrangeiro para a agricultura sustentável".

"Uma parte importante do nosso trabalho é definir critérios do que são projetos consistentes com o cenário de limitar o aquecimento a 2° C", diz Thatyanne Gasparotto, representante para a América Latina da CBI, referindo-se, por exemplo, ao financiamento do setor agrícola no Brasil. "O que se oferece é uma alternativa de financiamento que remunere quem produz de modo sustentável em escala", diz ela.

Um dos desafios da estratégia é fazer com que os médios produtores, e no futuro também os pequenos, possam se agrupar e conseguir captar recursos. O modelo hoje é acessível apenas aos grandes produtores. Até agora só o segmento de papel e celulose foi ativo em "green bonds" no Brasil. A expectativa é de movimentos futuros dos produtores de cana de açúcar e etanol. "São etapas. Estamos trabalhando em estruturas agregadoras dos produtores e falando com bancos para que sejam fornecedores de créditos verdes", diz ela.

Os títulos do Brasil alinhados ao clima (que poderiam ser títulos verdes, mas não foram certificados desta forma) somam US$ 11,3 bilhões. Os títulos verdes assim registrados somam US$ 4,1 bilhões. No mundo, o universo de títulos alinhados ao clima alcançou US$ 1,45 trilhão, dos quais US$ 390 bilhões são títulos verdes. Tais recursos financiam projetos em energia limpa, transporte de baixo carbono, gestão de água e resíduos, edifícios e uso sustentável da terra.