Brasil em chamas: quais as consequências das queimadas na Amazônia?

Publicado em 05/09/2019 por Época Negócios

O mundo está de olho no Brasil e disposto a usar a força do mercado para proteger a floresta amazônica
Poucos temas dominaram as notícias mundiais sobre o Brasil nos últimos anos como as queimadas na Amazônia. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) foram registrados três vezes mais focos de incêndio em agosto deste ano do que no ano passado. Alguns cientistas dizem que a floresta precisa mais que 100 anos para se recuperar. A Forbes publicou um artigo contradizendo as conclusões gerais, mostrando que dados da Nasa indicam que há, no mundo, 25% menos queimadas que em 2003. E onde o negócio floresce, há menos desmatamento.
Em tempos pós-verdade e de fake news, pouco importam os dados. O tema levou pessoas às ruas para protestar e forçou o presidente do Brasil a fazer uma declaração pública. As queimadas foram tópico central das conversas das G7 e por causa dos incêndios, a União Europeia está avaliando de cancelar o tratado de livre comercio com o Mercosul. Celebridades como Leonardo DiCaprio, Madonna e políticos como Bernie Sanders e Emmanuel Macron condenaram a política ambiental do governo brasileiro. Empresas como Timberland e North Face estão parando de comprar couro do Brasil e a imprensa alemã recomenda comer menos carne se você quer salvar a Amazônia. O mundo está de olho no Brasil e disposto a usar a força do mercado para proteger a floresta amazônica.
O exemplo da Amazônia pode servir como estudo de caso para empresas de outros setores. Das minhas interações, conheço casos de empresas de logística animadas por causa de novas políticas que permitem construir linhas de ferrovia em terras indígenas. A liberação de defensivos agrícolas animou as empresas do setor químico. Uma parte do setor de frigoríficos e agricultura está projetando crescimento por causa de alterações nas leis ambientais e, principalmente, por causa da fiscalização mais permissiva. Em cima de todo isso, advogados celebram que seus clientes não precisam pagar multas por crime ambientais que ninguém duvida que cometeram.
A reação internacional já mostrou que alguns desses acontecimentos celebrados por algumas empresas pode ser um tiro no pé. Não vivemos isolados. As exportações em 2018 somaram US$ 239 bilhões. Com importações de US$ 140 bilhões, o comércio internacional rendeu quase US$ 79 bilhões ao Brasil. Mesmo com China absorvendo grande parte das exportações, uma parcela significativa dos produtos brasileiros é vendida em mercados com consumidores mais exigentes. Onde isso pega concretamente?
Commodities
McDonald's aplica regras rígidas frente ao suprimento de commodities agrícolas do Brasil. Nem carne nem soja usada para ração animal podem vir de regiões de desmatamento. A empresa não quer aparecer em notícias negativas sobre a Amazônia. Varejistas na Noruega e Suécia estão boicotando produtos agrícolas do Brasil depois do governo brasileiro decidir liberar mais defensivos agrícolas. O mundo está de olho!
Investimentos internacionais
Do mesmo jeito que os consumidores começam boicotar produtos do Brasil, os investidores estão tirando dinheiro do país. Alemanha já suspendeu partes do financiamento do Fundo Amazônia. A Suécia vai rever investimentos de seus fundos de pensão no Brasil. O maior banco dos países nórdicos, o Nordea, suspendeu as compras de títulos do governo brasileiro. Como mais e mais instituições financeiras estão adotando critérios ESG (de responsabilidade ambiental, social e de governança em inglês), dá para esperar que mais investidores vão reavaliar suas posições aqui no Brasil. O mundo está de olho!
Empresas multinacionais
Empresas multinacionais correm cada vez mais riscos de reputação por causa dos acontecimentos no Brasil. Será que as multinacionais realmente querem sacrificar sua imagem no mercado global em troca de vender um pouco mais no Brasil? Ou por ter acesso a terras desmatadas? Imagino que alguns CEOs de multinacionais operando no Brasil tenham conversas interessantes com os colegas do global headquarter.
O mundo está de olho! O Brasil está de olho também. Você pode acreditar que as queimadas foram intencionais para limpar mais terra para o agronegócio. Você pode acreditar que os incêndios são um fenômeno natural. Você pode odiar a pessoa que acredita no contrário de você. Isso nos leva adiante? Produz uma energia positiva? Inspirado por um texto de Charles Eisenstein, um autor americano, deixa eu te perguntar: Qual futuro você quer? Como podemos conviver juntos mesmo tendo opiniões diferentes? E qual é o papel do Brasil que você quer ver na construção de um futuro melhor em escala mundial?
*Heiko Hosomi Spitzeck é Diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral