Cinco meses de crise política arrasam economia da Nicarágua

Publicado em 14/09/2018 por Gazeta do Povo

A economia da Nicarágua foi devastada por quase cinco meses de distúrbios desencadeados por uma reforma da previdência que resultou em protestos pela renúncia do presidente Daniel Ortega, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. Em junho, a atividade econômica do país registrou uma queda de 12,1% em comparação com o ano anterior, segundo o Banco Central. De acordo com economistas, 200 mil empregos foram perdidos - 70 mil no setor de turismo, que, nos últimos dois anos havia se transformado na principal fonte de divisas do país. 

As receitas de hotéis e restaurantes caíram 45%, em junho, em relação a 2017. Do mesmo modo, o setor de construção contabilizou queda de 35% e as vendas no varejo caíram 27%. 

A crise política vai por fim a oito anos seguidos de forte crescimento da economia do país centro-americano. Antes dos distúrbios, o Fundo Monetário Internacional (FMI) projetava que o PIB do país iria se expandir 4,7%.  Agora, segundo a revista The Economist, a previsão é de uma retração de 6%. Será o pior desempenho de 1988, quando o país estava em meio a uma guerra civil.

A União dos Produtores Agropecuários da Nicarágua informou que mais de 4.855 hectares de terras particulares foram ocupadas por partidários do governo ou confiscados em retaliação pelo seu apoio aos manifestantes, segundo afirmam líderes do setor. 91% das terras ocupadas eram utilizadas para agricultura e criação de gado. 

Desde o começo, os manifestantes se defrontaram com a violência da polícia e de civis partidários do governo. Mais de 300 pessoas morreram nos tumultos, segundo grupos de direitos humanos. 

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O governo qualificou os manifestantes como terroristas e afirmou ter derrotado uma tentativa de tirar Ortega do cargo patrocinada pelo governo dos EUA e pela oposição, incluindo empresários. 

Um fator importante foi que os países de onde vêm os turistas com alto poder aquisitivo - EUA, Canadá, Espanha e Grã-Bretanha - emitiram alertas pedindo a seus cidadãos para evitarem viagens à Nicarágua. Empresas aéreas americabas como American Airlines e United reduziram seus voos para Manágua, assim como a Spirit e a Delta. 

Mudança de postura

Durante anos, Ortega manteve uma relação relativamente estável com o setor privado. Desde seu retorno ao poder, em 2007, o presidente, que um dia foi um comandante rebelde marxista, abrandou sua posição, deixando o setor empresarial agir como desejasse. No entanto, em abril, as empresas, que foram pegas de surpresa pelas mudanças na previdência, se uniram rapidamente à oposição. À medida que a crise se agravou, o setor privado passou a pedir a antecipação das eleições. 

Juan Sebastián Chamorro, que dirige a Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Econômico e Social, destacou que o governo deu sinais de que reconhece a gravidade do impacto econômico. Emitiu novos títulos de dívida, baixou regras para tornar mais rígida a venda de dólares e reduziu o gasto público, pois previa uma queda de 10% na arrecadação. 

Mas, segundo especialistas, não se sabe se essas medidas serão suficientes para conter a desaceleração se não for encontrada uma solução política que devolva a estabilidade.

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Os bancos na Nicarágua estão sob pressão. O presidente do grupo Consultores para o Desenvolvimento Empresarial (Conades, na sigla em espanhol), Néstor Avendaño, calculou para o jornal online Confidencial que, entre 12 de abril e 29 de agosto, foram retirados US$ 1,05 bilhões das agências bancárias. 

O economista disse ao jornal online que as pessoas estão desconfiadas desde o início da crise, em 18 de abril, o que gerou a incerteza entre todos os agentes econômicos do país. 

As pessoas também estão procurando mais dólares. A venda média de dólares entre 15 de maio e 31 de agosto foi de US$ 7,7 milhões, segundo cálculos feitos por Avendaño, com base em dados do Banco Central da Nicarágua (BCN). 

Segundo o jornal, dado o ritmo das operações observadas, as reservas nicaraguenses em dólar poderiam terminar em novembro. "Depois disso se imporiam medidas de emergência ou o pânico financeiro."