De como o agronegócio e o Brasil serão arruinados, por Ion de Andrade

Publicado em 28/02/2019 por Jornal GGN

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, o uso de agrotóxicos proibidos na Europa e Estados Unidos e já autorizados no Brasil, obviamente, produzirá uma onda de rejeição aos produtos agrícolas brasileiros.

O discurso belicoso e ofensivo do atual governo em relação aos tradicionais parceiros comerciais do Brasil nos trará, e já é provavelmente irreversível, um retrocesso que seria inacreditável há apenas dois anos. Todo um trabalho de gerações no ganho de confiança desses países foi destruído em menos de dois meses.
Árabes
Com os árabes (e a Arábia Saudita, principal compradora de frango do Brasil já começou a retaliar o país), a afronta trazida pela ideia da transferência da embaixada brasileira para Jerusalém e ainda não abandonada, pois ostensivamente o governo apenas a adia, ainda não rendeu todos os frutos amargos que poderá render.
A pauta comercial extensa com esses países, fruto não somente da nossa política externa pragmática, mas também de uma relação de amizade secular decorrente da acolhida proporcionada pelo Brasil aos povos de um Oriente Médio ocupado pelo Império Turco-Otomano, região que nos trouxe incontáveis imigrantes, perfeitamente integrados aqui, foi rifada pelo governo Bolsonaro a preço vil, para favorecer Israel com quem o país efetivamente não tem os mesmos laços.
Mercosul
A primeira entrevista coletiva do ministro Guedes a jornalistas foi brindada com uma atitude vergonhosa para uma autoridade na relação com uma jornalista argentina que foi humilhada por ter ousado perguntar sobre como o ministro trataria o nosso bloco regional. O ministro inclusive afirmou ter em comum com o presidente a mesma grosseria. No que toca à Venezuela, membro do bloco e comprador do Brasil, o governo com a sua inabilidade e alinhamento aos Estados Unidos perdeu totalmente a influência na condução de uma saída pacífica para a crise Venezuelana. O vácuo deixado pelo Brasil trouxe ao cenário da América do Sul uma presença sino-russa nunca vista naquilo que a nossa diplomacia tem considerado como a área estratégica de irradiação da influência brasileira: o subcontinente sul-americano.
É claro que o apoio político da China e da Rússia terá uma natural contrapartida comercial, razão porque a sobrevivência cada vez mais provável do governo Maduro provavelmente produzirá um afastamento da Venezuela do Mercosul, ainda que possa manter-se formalmente no bloco. O Brasil não é o único país capaz de vender produtos à Venezuela. Países como a Turquia e todos os da bacia do Mediterrâneo ou do Sudeste da Ásia, para ficar apenas naqueles que têm características climáticas semelhantes à nossa, podem e certamente desejam substituir o Brasil no mercado venezuelano. No plano da venda de produtos tecnológicos, a China, a Rússia ou a Índia não esperarão muito para tomar o mercado do nosso parceiro do Mercosul.
China
Mergulhada num conflito comercial com os Estados Unidos, a China vem mostrando esforço genuíno para reestabelecer relações comerciais normais com a maior economia do mundo. Apesar de ser surpreendente, o presidente Trump vem sendo capaz de estabelecer diálogos pragmáticos, a bem dos interesses americanos, mesmo com interlocutores improváveis como a Coréia do Norte. É esperável, portanto, que, cedo ou tarde, o mesmo ocorra com a China. Portanto, a guerra comercial entre os dois países nada tem de ideológica. Trata-se de conflito eminentemente comercial que  será concluído por um acordo no qual os Estados Unidos verão a sua importância crescer no mercado Chinês. Ora a orientação diplomática do Ministro Eugênio Araújo de isolar a China, nosso maior parceiro comercial, por razões ideológicas, atribuindo a Trump a condição mitológica de Salvador do Ocidente produziu o compromisso já explicitado pela própria China, de substituir as importações do hospício chamado Brasil, por importações dos EUA.
Saliente-se que a China pretende nos próximos dez anos agregar 400 milhões de chineses, por uma política econômica agressiva de aumento de renda, a padrões de consumo compatíveis com a classe média. É desse mercado, e não somente do mercado chinês atual, que nós estamos sendo ejetados e escorraçados de forma vexatória por nosso primeiro e principal parceiro comercial. Atrás da Soja que será comprada aos Estados Unidos, virão outras comodities e produtos industriais. Talvez a China se empenhe em nos mostrar com quantos paus se faz uma canoa.
Europa
Descontente com as negociações em andamento para a constituição de uma área de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, a Europa já sinalizou que em semanas (portanto é coisa irreversível, ou não seria anunciada) substituirá a carne brasileira por carne americana no mercado europeu.
É dispensável lembrar a importância da Europa para o Brasil sob inúmeros aspectos, além do comercial. A crise de confiança na área comercial, entretanto, é matriz para a redução de relevância do nosso país em todas as áreas, como num castelo de cartas. Se a China é o nosso principal parceiro comercial é com a Europa que temos os laços culturais e identitários mais fortes. É essa Europa que foi criticada pelo chanceler Eugênio Araújo por ser, segundo ele, uma das principais difusoras do marxismo cultural, subjugada pela China contra os valores do Ocidente.
Estados Unidos
Apesar do alinhamento do governo Bolsonaro à agenda americana, que nos colocou na América do Sul em posição inteiramente contrária aos interesses brasileiros no curto, médio e longo prazos, sob todos os aspectos, esse país, que é também um importante parceiro comercial do Brasil, não poderá compensar as perdas sofridas pelo país nas demais regiões do globo. Ao contrário será um dos beneficiários da incapacidade gestora do governo brasileiro. Não terá obviamente qualquer consideração pelo Brasil.
O mercado interno
O mercado interno no Brasil sempre foi a grande ferramenta compensatória para os momentos de crises econômicas externas, comprando o que não podia ser vendido lá fora. Porém, o esforço inacreditável da área econômica do governo, quer através da reafirmação de uma Reforma Trabalhista que penaliza a renda dos assalariados, quer pelo que se propõe a fazer na Reforma da Previdência, que tem como objetivo maior o enxugamento de um trilhão de reais da economia, produzirá, quando o país mais precisará do seu mercado interno, uma capacidade de consumo reduzida á ruína.
A verdade é que o que se anuncia é que depois do enfraquecimento Cadeia do Petróleo, da Indústria de Máquinas Pesadas, da Engenharia Pesada Nacional, da Indústria Naval e da Embraer, o governo brindará o Brasil com a rápida, definitiva e à essa altura possivelmente já irreversível derrocada do nosso  agronegócio.
Como não há nada tão ruim que não possa piorar, o uso de agrotóxicos proibidos na Europa e Estados Unidos e já autorizados no Brasil, obviamente, produzirá uma onda de rejeição aos produtos agrícolas brasileiros.