Desmatamento muda 'rios voadores da Amazônia' e pode causar problemas

Publicado em 29/03/2019 por Em Tempo

Os ‘rios voadores’ distribuem a água da Amazônia para o restante do mundo. O especialista entrevistado pelo Em Tempo alerta que o desmatamento está modificando o fenômeno, que pode causar fortes temporais (e até tragédias) em São Paulo e Rio de Janeiro, assim como períodos de seca
Manaus - Um fenômeno pouco conhecido da população, mas bastante difundido no campo científico, o "rio voador da Amazônia" pode ser um dos fatores a contribuir com a elevação dos temporais nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. O meteorologista José Marengo, cientista peruano radicado há mais de 20 anos no Brasil, destaca-se no estudo do aquecimento global, faz um alerta para as mudanças climáticas e, principalmente, as ações maléficas do homem sobre o clima. 
Entre os principais fatores de mutação do fenômeno está o desmatamento desenfreado da Amazônia. A ação cresceu significativamente entre 2017 e 2019, com mais de 7 mil km² derrubados. Fenômeno do vapor de água que viaja pelo país está perdendo força por causa da devastação da floresta.
Uma das consequências é a seca em várias partes do país. Por outro lado, o acúmulo causa, em períodos impróprios, chuvas surpresas - temporais cada vez mais fortes, como os que foram registrados nos últimos meses na capital paulista e no Rio de Janeiro.
Como funcionam os "Rios voadores da Amazônia"?
Os fluxos concentrados de vapores atmosféricos formados por massas de ar, que são invisíveis em determinada região da Amazônia e sobrevoam em meio a copa das árvores, são chamados de "rios voadores da Amazônia". Eles não têm margens como os rios terrestres, porém realizam a mesma função de transportar umidade e vapor de água, advindos da evapotranspiração das árvores, para outras regiões do Brasil, como Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
“Os rios voadores contribuem para a vida na terra, pois se alimentam da reciclagem da chuva pela floresta. Portant, se não houver essa reciclagem da chuva, várias regiões da América do Sul ficariam mais secas e as pessoas teriam dificuldades de plantar alimentos”, destaca o professor e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), Stefan Wolff.
A região amazônica é peculiar em relação à recepção das massas de ar provenientes do Oceano Atlântico. Uma vez sobre a floresta, estas massas se condensam e formam as chuvas torrenciais de 3 mil km de distância, típicas da região.
Com a evapotranspiração intensa da floresta, incrementada pela temperatura elevada, são formadas massas úmidas em grandes quantidades - que se deslocam na orientação norte-sul da Cordilheira dos Andes, que funciona como anteparo, até chegar aos Estados da região Centro-Sul.
Parte destas massas também é exportada para o Caribe e o Oceano Pacífico, o que coloca a Floresta Amazônica em condição de grande importância mundial quanto à influência no regime de chuvas sobre uma grande extensão territorial da América Latina.
Alerta
Muitas dessas árvores estão em perigo. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o desmatamento na Amazônia cresceu significativamente entre 2017 e 2019. E uma das grandes incógnitas é o efeito que isso pode ter sobre os rios voadores. 
"Se houver chuvas mais intensas em áreas vulneráveis, ??como São Paulo ou Rio de Janeiro, há a possibilidade no futuro de desastres naturais, como deslizamentos de terra e inundações em áreas urbanas e rurais, também aumenta", adverte meteorologista José Marengo.
Pensando na redução desse quadro, a Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social (Aades) e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) fecharam uma parceria para o Plano de Trabalho e Contrato de Gestão do 'Projeto de redução do desmatamento pela inclusão à regularização ambiental'.
Editora responsável: Bruna Souza