O efeito calendário nos mercados

Publicado em 03/12/2018 por O Globo - Opinião

Existe uma crença no mercado financeiro sobre o "efeito sexta-feira". Os investidores venderiam mais posições no último dia da semana e fariam mais compras na segunda-feira, evitando ficar comprados, de posse dos ativos, no fim de semana. Por causa disso, ações e outros ativos subiriam mais em alguns dias e cairiam mais em outros.

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Pode até fazer sentido, mas, se é verdade, este efeito-calendário questionaria a teoria dos mercados eficientes, a ideia de que toda informação está contida nos preços dos ativos e, por isso, nenhum grupo consegue ganhar muito por muito tempo. Será?

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Guglielmo Maria Caporale e Alex Plastun fizeram o estudo mais amplo sobre calendários e mercados já realizado. Como ponto de partida, eles analisaram dados de 131 anos dos índices Dow Jones, da Bolsa de Valores de Nova York, e S&P 500, que reúne as 500 ações mais negociadas nos Estados Unidos. Por mais de um século as sextas foram mesmo o pior dia para se investir.

Mas alguns estudos recentes apontam que, com as negociações pela internet, o impacto do calendário sobre os preços já não acontecia mais. Os pesquisadores verificaram esta hipótese, se concentrando nas cem maiores altas de preços entre 2004 e 2016. Mas, desta vez, trocaram o S&P 500 pela Nasdaq, a Bolsa das ações de tecnologia.

Mais uma vez, no Dow Jones, os outros dias levam vantagem sobre a sexta-feira, com 13% de alta. Mas a segunda-feira já não é o melhor dia da semana, como antes. Na Nasdaq, o último dia útil costuma até ir melhor, registrando uma variação positiva média de 21%, a segunda mais alta. E a segunda-feira é o pior dia.

O estudo também foi verificar as cem maiores altas em duas Bolsas de valores de países emergentes, de Moscou, na Rússia, e de Kiev, na Ucrânia, no mesmo período, entre 2004 e 2016. Em Moscou, a sexta-feira é o pior dia, com variação positiva média de 15%. Segundas, terças e quartas-feiras têm o percentual mais alto, de 22%. Em Kiev, porém, o pior dia é quarta-feira, com alta de 11%.

Os resultados são ainda mais contraditórios para se confiar em um dia da semana. Nas negociações do euro, por exemplo, o aumento médio é de 18% nas segundas-feiras, e de 22% nas sextas. Nas do iene, japonês, as altas são de 16% e 29% nestes dias, respectivamente. O estudo ainda comparou o efeito sexta-feira em commodities como ouro e petróleo.

Encontrar um padrão nos mercados é o Santo Graal dos investidores e, por isso, não faltam teorias. Além dos exemplos citados, muitos acreditam até em um efeito Mark Twain - outubro, segundo um personagem criado pelo famoso escritor americano em um de seus romances, seria o mês mais perigoso para se operar. Isso explicaria os crashes de 1929, 1987 e 2008.

Mas o trabalho dos dois autores, publicado no ano passado no Journal of Prediction Markets, demonstra que não existe, seja em mercados de países desenvolvidos ou emergentes, o efeito sexta-feira ou qualquer outra anomalia temporal. Pode ter sido uma verdade em alguns mercados antes das negociações pela internet, mas, hoje, quando ocorre, é por coincidência.

Não vai impedir que muitos sigam tentando descobrir um suposto segredo dos mercados. Mas o calendário, como demonstra o trabalho, é mau companheiro para decidir investimentos.