Efeitos da crise de 2008 vão continuar por aí

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Efeitos da crise de 2008 vão continuar por aí

A crise de 2008, que amanhã completa simbolicamente dez anos, ainda não terminou. Suas causas ficaram para trás, mas seus efeitos - econômicos, políticos e sociais - seguirão pesando sobre o mundo por muitos anos, talvez décadas.

Apesar de estar associada ao 15 de setembro de 2008, quando o centenário banco de investimentos americano Lehman Brothers quebrou, a crise começou de fato no fim de 2007. Foi quando os EUA entraram em recessão, segundo o National Bureau of Economic Research (NBER), a entidade que data oficialmente os ciclos econômicos nos EUA e que não adota o critério usual de recessão, de dois trimestres seguidos de contração da economia.

Essa recessão gerou uma onda de inadimplência no financiamento imobiliário chamado de subprime, um eufemismo para empréstimos de alto risco concedidos pelos bancos a pessoas que tinham escassas condições de quitá-los.

Dez anos depois, crise ainda contamina a política e a economia

Como boa parte desse crédito podre havia sido repassado ao varejo bancário, empacotado em aplicações obscuras, o choque logo se alastrou por todo o sistema financeiro, primeiro nos EUA e em seguida em quase todo o mundo desenvolvido.

Os países emergentes foram inicialmente protegidos da crise por dois motivos: 1. Por terem setores financeiros menos sofisticados e mais fechados. A dívida dos consumidores nesses países não era tão grande, e os seus bancos não estavam expostos aos instrumentos financeiros que propagaram a crise nos países ricos; 2. Porque a China, assustada com a forte freada da sua economia, pisou no acelerador do gasto público em 2009 e expandiu agressivamente a sua demanda interna, o que compensou parte da queda na demanda nos países ricos.

Essa blindagem chinesa durou até 2013, quando Pequim começou a reduzir o estímulo fiscal. Isso ajudou a derrubar a cotação das commodities e fez a crise finalmente bater nos emergentes. Países com os maiores desequilíbrios econômicos, como o Brasil, foram duramente atingidos.

Em 2017, pela primeira em dez anos, todas as 20 maiores economias do mundo cresceram. Essa expansão, porém, está se desacelerando neste ano. Ao menos um desses 20 grandes, a Argentina, terá recessão em 2018. E há muita incerteza quanto ao futuro próximo.

As causas diretas da crise financeira de 2008 já foram em grande parte superadas. Os americanos estão menos endividados: a dívida das famílias americanas recuou de quase 100% do PIB, no início de 2008, para 78% atualmente. E os bancos estão mais sólidos, menos alavancados, ainda que muitas das medidas propostas para melhorar a regulação do setor não tenham sido adotadas ou estejam sendo desfeitas pelo governo de Donald Trump.

Mas os efeitos da crise continuam visíveis e alguns deles se retroalimentam, trazendo o risco de gerarem novas turbulências.

A recuperação desta vez tem sido lenta em relação a outras recessões. E, apesar da retomada do emprego em muitos países ricos (EUA, Alemanha e Reino Unido estão com desemprego em níveis mínimos históricos), os salários quase não subiram nesse período. Ou até caíram. Segundo estudo do Institute for Fiscal Studies, do Reino Unido, divulgado nesta semana pela BBC, o salário anual médio do trabalhador britânico está hoje 800 libras menor do que uma década atrás, em termos reais.

Países como Itália e Grécia ainda não recuperam os níveis de produção de antes de 2008. Ou seja, estão mais pobres. Na Itália, apenas neste ano o nível de emprego voltou ao patamar pré-crise. No Brasil, o PIB em dólar está abaixo do de 2010.

A insatisfação social gerada pela crise foi possivelmente o fator mais importante por trás da ascensão dos sentimentos nacionalista, protecionista e anti-imigração pelo mundo, que fortaleceu partidos e políticos populistas.

Os EUA elegeram Trump, o Reino Unido aprovou o Brexit (a saída do país da União Europeia), populistas ascenderam ao governo na Hungria (2010), na Polônia (2015) e na Itália (2018), e partidos extremistas cresceram em toda a Europa, dificultando a formação de governos estáveis. O caso mais recente ocorreu na Suécia, na eleição de domingo, na qual o partido Democratas Suecos, de extrema-direita, ficou com 17,5% dos votos.

Isso sem falar na Primavera Árabe, movimento que a partir de 2011 convulsionou o norte da África e o Oriente Médio e levou às guerras civis ainda em andamento na Líbia e na Síria.

De longe, o resultado político mais impactante da crise de 2008 foi a eleição de Trump. Além de estar revendo a relação dos EUA com o mundo e iniciando uma guerra comercial de alcance e consequências ainda difíceis de prever, o presidente embarcou numa farra fiscal que poderá ter efeitos globais de longo prazo. Trump cortou impostos, mas não os gastos do governo. Nos 11 meses até agosto, o déficit público americano atingiu US$ 895 bilhões, um aumento de 33% em relação ao mesmo período anterior. Sem uma adequação de despesas ou receitas, o déficit e a dívida dos EUA podem disparar, o que levaria a uma alta generalizada dos juros em todo o mundo.

Um aumento lento e gradual da taxa de juros dos EUA já está ocorrendo, revertendo a política anômala de juro quase zero (ou seja, de juro real negativo) que vigorou durante quase todo o pós-crise. Essa alta de juros do Fed, ainda que moderada e previsível, está mexendo com os mercados mundiais e ameaça causar novo choque nos emergentes.

Na China, o governo também terá de lidar com o excesso de endividamento acumulado na última década. Com isso, a tendência é a economia chinesa crescer menos nos próximos anos, sob o risco contínuo de uma correção mais acentuada no seu mercado financeiro.

Na América Latina, a insatisfação pós-crise derrubou a maior parte dos governos de esquerda da região, mas também levou a esquerda pela primeira vez ao poder no México, com a vitória de Andrés Manuel Lopez Obrador nas eleições deste ano (ele assume em dezembro).

No Brasil, a crise de 2008 e a reação desastrada do governo Dilma Rousseff (que deixou disparar o déficit público e a inflação) criaram o ambiente que permitiu o impeachment e que ainda contamina o cenário político no país. O ajuste fiscal relativo a esse período ainda está por ser feito e vai condicionar o próximo governo.

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às sextas-feiras

E-mail: humberto.saccomandi@valor.com.br