Estratificação das empresas do agronegócio

Publicado em 14/12/2018 por Jornal GGN

por Rui Daher
Como faz há 14 anos, a revista Globo Rural publica um anuário do agronegócio com o ranking das “500 maiores empresas do agro”. Aproveita para mais: premiar as melhores em 20 setores diferentes, expondo fotos e artigos de seus principais executivos. Com isso amealha boa inserção publicitária.
Reconheço ser um trabalho de fôlego da equipe da revista que tem seu complemento no ótimo programa dominical na TV Globo.
São comparados receita líquida, rentabilidade, ativos, giro, margem, liquidez corrente, entre outros indicadores econômicos e financeiros. Sabem o que isso representa para medir a sanidade das empresas contadores, economistas, administradores e, hoje em dia, uns poucos jornalistas.
Confesso que em finada era executiva costumava debruçar-me mais sobre tais números e comparativos. Principalmente, nos que afetavam os setores e as empresas em que estive empregado.
Não mais. Acabou o tesão, como quer e professa a senhora pastora Damares Alves, futura capitã do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Ela diz vir para “defender a vida”. Não informou de quem e nem se pós-morte.
Mas, em forma e conteúdo, o Anuário é bem-vindo e traz dados interessantes.
Em 2017, as 500 maiores empresas do agro registraram receita de R$ 725,5 bilhões, um aumento de 34,2% sobre 2013, o que significou uma taxa anual de crescimento de 6%. Por óbvio, acima do PIB nacional.
O intervalo entre a empresa número 1, a Cargill, com origem do capital nos EUA, para as 20 últimas nacionais que se espremem para não cair na Série B, varia entre R$ 34,2 bilhões e, em média, R$ 60 milhões. Diferença abissal considerando a fatia da amostragem.
Se tomarmos, entre as 500, as 50 maiores (10%), chegamos a uma receita líquida de R$ 491,0 bilhões (68%), uma concentração brutal, pois. Destas, 54% tem capital com origem em países do exterior, e majoritariamente estão nos segmentos da indústria de soja, óleos e tradings, complexo de carnes, distribuição de alimentos e bebidas, fertilizantes e agrotóxicos (de agora em diante, com Tereza Cristina, apelidados de defensivos).
Entre as 450 empresas seguintes, apenas 38 (8,5%) tem origem do capital fora do Brasil (Japão, Holanda, Argentina, e mais alguns países isolados). A grande maioria é de capital nacional e sua participação cai na razão direta em que suas receitas vão ficando menos expressivas. São mais de 400 bravos lutadores pelo agro brasileiro, certo?
Entre as 500 não encontrei uma que produzisse apenas insumos de origem natural, orgânica ou mineral. Talvez por isso a nossa empresa nunca irá estar entre as 10 mil maiores do agro.
Deixo-os à vontade para fuçarem mais. Eu passo. Prefiro escrever sob palmeirais e filipetas sobre o ministério que se forma e eu não me conformo.
Vejam os amigos leitores e amigas leitoras o quanto avançamos na estatização da economia agrária. E mais queremos privatizar. Mas com capital originário de onde se tão concentrados lá fora? “Ah, mas quem virá, me pergunto a toda hora, e o silêncio atravessa a madrugada”. Obrigado, Elton Medeiros.
Creio que ninguém. A irracionalidade foi eleita para nos “governar”.