Gestoras buscam novos talentos na universidade

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Gestoras buscam novos talentos na universidade

Silvia Costanti/Valor

André Lima, da Constellation Asset Management: vaga na gestora após participar de competição na universidade

Desde que entrou no curso de economia da USP, André Lima já sabia que queria trabalhar em uma gestora de investimentos. O que ele não sabia, porém, era qual caminho deveria trilhar para conseguir entrar nesse mercado. Entre seus colegas, poucos conheciam o trabalho de empresas desse tipo. A chance apareceu quando a Constellation Asset Management fez uma pequena competição entre os alunos do seu curso na faculdade. Após participar, Lima conseguiu uma vaga na casa. Um mês depois de sua entrada, propôs à companhia que fossem realizadas outros eventos do tipo para treinar e atrair jovens talentos.

A estratégia de mirar nas universidades para trazer jovens promissores para as gestoras está se popularizando. A ideia de Lima na Constellation fez com que a gestora criasse o evento Challenge, que já está em sua quarta edição e trouxe cinco novos profissionais para a empresa. Iniciativas semelhantes são feitas na JGP, na área de banco de investimentos do Safra e também no BTG Pactual. A proposta, segundo executivos das casas, é apresentar diferentes áreas aos estudantes - principalmente a de gestão de ativos, pouco trabalhada nas universidades -, treiná-los e tentar captar para a companhia profissionais promissores.

Segundo Felipe David, sócio e analista da Constellation, antes do Challenge, a casa enfrentava dificuldade para encontrar funcionários mais jovens, fosse pela falta de familiaridade de universitários com o trabalho de uma gestora ou até pela dificuldade de adaptação dos profissionais naquele ambiente. A ideia das competições surgiu nesse contexto. Inicialmente, a proposta era fazer um desafio de avaliação de investimentos dentro de um curso de uma faculdade específica.

Com a chegada de Lima na asset, há quatro anos, o evento ganhou proporções maiores até chegar ao formato atual. Nele, grupos de quatro ou cinco alunos de diferentes universidades passaram a se inscrever e todo o processo dura um mês. Os grupos precisam apresentar uma avaliação completa de uma empresa e concluir se vale a pena investir nela ou não. Ao longo do processo, analistas da casa vão acompanhando os grupos, tirando dúvidas e conhecendo as universidades. Ao final é escolhido um estagiário. "A competição é uma ferramenta de recrutamento de talentos", afirma Lima.

Na gestora JGP, a criação de uma competição para universitários veio da necessidade de formar profissionais dentro da cultura da casa. "Os sócios perceberam que muita gente que tinha vindo de outros lugares não funcionavam bem aqui, por conta da cultura diferente", afirma Márcio Lyra, sócio da gestora. Procurar estagiários, porém, não foi o suficiente, segundo o executivo. "Em algumas, o nível técnico era melhor; em outras, a formação era mais acadêmica. Nós queríamos o melhor dos mundos para a empresa e isso seria com alunos completos", conta.

A iniciativa, então, foi promover o desafio para permitir a interação de alunos de diferentes universidades entre si, além do contato direto com o mercado. Hoje, a competição está em sua terceira edição. Em cada uma delas, participam aproximadamente 16 grupos, que têm como desafio fazer a gestão de um fundo que aplica em ativos internacionais durante quatro meses. "Preferimos olhar para fora porque pode ter algum aluno filho de um executivo de empresa daqui que tenha alguma informação que os demais não tenham", afirma Lyra.

Nas duas primeiras edições, ganhava um estágio algum estudante do grupo que se destacava. Agora, porém, como a gestora pretende transformar o desafio em uma competição nacional - e não só entre alunos de universidades do Rio de Janeiro -, o prêmio será uma viagem para Nova York para acompanhar um seminário sobre análise técnica com a companhia de um sócio da gestora.

"Os propósitos originais da competição são ensinar a eles essa parte de finanças, mostrar a cultura das gestoras e fortalecer as ligas de mercado financeiro que existem dentro das universidades. A gente tem sucesso da seguinte perspectiva: eles percebem o esforço da JGP e isso faz com que sejamos a empresa mais desejada entre esses alunos", afirma. Atualmente, a companhia conta com uma estagiária que veio dos desafios.

Embora os bancos contem com programas de estágio e trainee mais bem estruturados, alguns também lançaram mão de ações semelhantes para encontrar bons profissionais para áreas específicas. O braço de banco de investimentos do Safra, por exemplo, promove o Desafio Safra Top Gestor. A segunda edição do evento foi encerrada na segunda semana de novembro com a vitória da equipe de alunos do Ibmec-RJ. O desafio dura seis meses e, durante esse período, as equipes inscritas enviam, mensalmente, um portfólio de ativos com justificativa para a escolha de cada item daquela carteira. A equipe que se sair melhor vence o desafio e recebe R$ 10 mil, além de conseguir uma entrevista com gestores da asset para tentar uma vaga.

"A asset do Safra é uma área muito importante, tem muitos produtos e um desempenho bom. Formar pessoas para ela era um objetivo", afirma Marcelo Dantas, diretor-executivo de Recursos Humanos e planejamento do banco de investimentos.

Segundo o executivo, o programa é importante tanto para os universitários, que têm contato com gestores profissionais e passam por simulações do que fariam no mercado financeiro, quanto para o banco, que filtra candidatos com potencial dentre os participantes do programa.

Segundo o executivo, no ano passado o desafio começou com mais de 940 participantes, dos quais 31 já vieram para o banco, seja como estagiários regulares ou estagiários de férias. Desses, três já foram efetivados. "Tem gente em muitas áreas: na asset, em compliance, em planejamento", afirma Dantas.

Estratégia semelhante é usada pelo BTG Pactual. A proposta é melhorar os filtros dos processos seletivos tradicionais feitos para estagiários e trainees. "Ao fazer o recrutamento tradicional, você restringe à análise de currículo e entrevistas e aí já toma uma decisão importante. Você não oferece para o jovem a oportunidade de ver como a empresa é por dentro", afirma Mateus Carneiro, head global de recursos humanos do BTG.

Hoje, o banco conta com três iniciativas diferentes. Uma delas é o BTG Pactual Experience, que está em sua quarta edição e é voltado para a área de gestão. Nele, o desafio principal dos grupos é fazer a análise completa de uma empresa e determinar se vale a pena ou não investir na ação daquela companhia. Ao longo do processo, porém, os estudantes têm aulas e encontros com sócios do banco para orientá-los no desafio. Ao final, os membros do grupo vencedor têm uma vaga de estágio no banco.

"O desenvolvimento de um estudante é algo contínuo, não é apenas esse período de dois meses que causa uma grande mudança. Tão ou mais importante é a capacidade [do estudante] de identificar o que quer e a gente, de identificar o talento que tenha o perfil, as características e motivações que a gente precisa", afirma Carneiro.

Além da área de gestão de ativos, o BTG ainda promove desafios nas áreas de tecnologia, com o BTG Pactual Code e o Stratsphera.