Governo da Venezuela acelera mineração de ouro na Amazônia

Publicado em 01/09/2020 por Money Times

Sanções dos EUA e o colapso da indústria de petróleo levaram a Venezuela a acelerar a mineração de ouro, inclusive em áreas protegidas da Amazônia.
O terreno usado para mineração mais que triplicou desde março do ano passado, de acordo com um estudo da organização sem fins lucrativos Wataniba. A velocidade deve aumentar após a liberação de novos lotes em cinco rios em abril.
A Venezuela já tem uma próspera indústria ilegal de ouro que devasta rios, florestas e comunidades indígenas e financia grupos armados violentos.
Agora as autoridades contribuem com equipamentos para montar operações mais formais de processamento do metal por meio de um novo complexo estatal e com a venda do ouro para o governo, informaram pessoas com conhecimento do assunto. O trabalho continua mesmo em meio ao isolamento rigoroso e à escassez de combustível no resto do país.
Assim, o ouro se tornou fonte importante de receita para o presidente Nicolás Maduro, que recorreu à venda de reservas a aliados como Irã e Turquia enquanto luta nos tribunais pela repatriação de ouro detido no exterior.
Como a perspectiva de atuar em vastas zonas sem lei afasta mineradoras globais, Maduro tenta expandir uma indústria doméstica pouco supervisionada e aproveitar a alta de preços do metal.
“As áreas de mineração na Amazônia venezuelana cresceram caoticamente, mesmo ao redor de vilarejos e cidades”, disse Tina Oliveira, diretora para a Amazônia da Wataniba, que faz trabalho socioambiental na região.
É fato que o número de minas diminuiu — mas porque operações foram mescladas. Um estudo por satélite da Wataniba mostra que o escopo da mineração cresceu para 116.655 hectares (cerca de 160.000 campos de futebol) em março deste ano, comparado a 33.926 hectares um ano antes.
Desde 2016, quando Maduro estabeleceu o Arco de Mineração do Orinoco, abrangendo 11,2 milhões de hectares, até o último levantamento oficial de 2018, as compras estatais de ouro aumentaram 15 vezes para 9,7 toneladas.
O governo afirma que a mineração nas novas áreas será focada na extração de ouro das areias despejadas nas margens dos rios ao longo dos últimos 120 anos de exploração ilegal.
“Nossas políticas estão focadas no uso de novas tecnologias para reduzir a modificação ambiental irreversível”, afirmou Gilberto Pinto, ministro da Mineração e vice-almirante da Marinha, em entrevista à televisão estatal em 3 de agosto. “As cláusulas de remediação nos nossos contratos de joint venture são muito rigorosas.”
Pinto não respondeu a pedidos de comentários adicionais da reportagem.
Parlamentares de oposição, como Olivia Lozano, afirmam que a expansão do arco de mineração permite que o governo fiscalize minas clandestinas ligadas a gangues em vez de fechá-las.
“O regime distribuiu muitas áreas de mineração entre seus aliados, que extraem ouro e dividem com o governo, depois enviam ao exterior”, disse Lozano.
Américo De Grazia, ex-prefeito da região mineira de Piar, planeja tratar do assunto junto à Organização das Nações Unidas, afirmou ele na Itália, onde vive no exílio.
O ouro extraído por pequenos operadores e joint ventures é enviado pelo governo ao Irã, Turquia e Caribe.
Novas máquinas de mineração e britagem, além de trailers que servem como escritório, estão sendo enviados com escolta oficial para a região, disseram pessoas a par do assunto, que pediram anonimato por medo de represálias.
O processamento é feito em Ciudad Guayana, no complexo Manuel Piar administrado pela estatal Corporación Venezolana de Minería, e o local é protegido por militares e agentes de inteligência.
Algumas tribos indígenas migraram para o Brasil por causa da poluição da água e do desmatamento resultantes da mineração, de acordo com a ONG Kape Kape.
A falta de gasolina que impôs um racionamento rigoroso em todo o país desde março não detém a mineração na Venezuela. Nas áreas de mineração, há combustível à venda por US$ 5 o litro, segundo as fontes.