Holanda investe em fazenda flutuante para aproximar o campo da cidade

Publicado em 17/12/2018 por Globo Rural

Projeto demandará 2,5 milhões de euros deve ser concretizado no fim deste ano no maior porto exportador de produtos agrícolas do mundo

Pense em 800 vacas pastando em uma fazenda flutuante em pleno centro de uma cidade. Esta é a ideia que será concretizada no final deste ano no maior porto marítimo da Europa, em Roterdã. Aliás, a origem do nome da cidade, Rotterdam (“dam” significa represa e “Rotte” é um pequeno rio), sugere bastante esse tipo de empreendimento.
A intenção desse conceito inédito criado pela empresa holandesa Beladon é trazer para mais perto dos consumidores a produção, integrando o campo à cidade, e evitar o transporte de bens de consumo. “Setenta por cento do mundo é água, então por que não usar isso para produzir alimentos frescos e saudáveis perto dos consumidores? Dessa forma, também reconectamos o cidadão à produção de alimentos”, justifica o diretor de marketing da Beladon, Minke van Wingerden.
A fazenda leiteira flutuante custará 2,5 milhões de euros e acolherá 40 vacas em uma espécie de jardim natural de 1.200 metros quadrados. A meta é produzir 800 litros de leite por dia, parte dele transformado em queijo e iogurte na própria fazenda. As vacas comerão produtos reciclados da cidade, como restos de grama e de restaurantes. Durante oito meses por ano, os animais terão acesso a uma pastagem próxima.
Quase autossuficiente, a fazenda será autônoma em eletricidade, graças a painéis solares, e quase tudo será automatizado. Apenas três pessoas serão mobilizadas para supervisionar as operações. A agricultura urbana poderá se tornar uma necessidade diante de um horizonte, em 2050, em que 70% da população mundial deverá estar morando nas cidades. “Produzir na água é estar produzindo de maneira adaptativa ao clima. Isso nos obriga a ser inovador. Na água você está ‘fora da grade’ e isso significa que você tem de cuidar de sua própria comida, energia, água e resíduos”, ressalta van Wingerden.
Vista da ilha de Itamaracá, de 1637, é um dos únicos quadros da Mauritshuis (Casa de Maurício), o principal museu de Haia, que remete o visitante ao tempo do domínio holandês no nordeste do Brasil. O óleo sobre tela, de Frans Post, passa quase despercebido frente às obras-primas do museu – A moça do brinco de pérola (Vermeer) e A lição de anatomia do Dr. Tulp (Rembrandt) –, mas retrata uma paisagem que o conde João Maurício de Nassau, o dono da casa, se acostumou a ver entre 1637 e 1644, durante sua estada no Brasil.
Nesse período, Nassau governou o Brasil holandês, contratado pela Companhia das Índias, multinacional que detinha o monopólio da navegação e do comércio com as Américas e a África Ocidental. Enquanto Nassau administrava a nova colônia nos trópicos, dois arquitetos flamencos construíam seu imponente palacete no melhor bairro de Haia, capital da Holanda.
Nassau teria bancado sua casa não apenas com os salários recebidos do seu empregador, mas com toda a sorte de recursos que pôde arrecadar no Brasil. Demitido pela multinacional holandesa em 1644, sob a acusação de gastar mais do que arrecadava, prática usual no Brasil desde os idos de 1500, o conde teria cometido outros deslizes, como aceitar favores dos senhores de engenho em troca de apoio ao setor açucareiro nordestino. Não à toa, a Casa de Maurício ficou conhecida pejorativamente como “Palacete do Açúcar” entre o pessoal da Companhia das Índias.
Há quem diga que toda essa história não passa de “fake news”. A crise com os patrões teria sido resultado da discórdia de Nassau com a política da Companhia das Índias de pressionar os produtores de açúcar com impostos abusivos; e a “gastança” do governador holandês, causada pelos investimentos na melhoria da infraestrutura de Recife, com a construção de pontes e canais, a criação do Jardim Botânico, de museus e de um zoológico.
Tradição comercial
Quase quatro séculos depois, o açúcar brasileiro ainda chega à Holanda por um grande porto, situado a menos de 30 quilômetros da Casa de Maurício. Roterdã recebe do Brasil não apenas açúcar, mas também soja, celulose, madeira, sucos, carnes, café, frutas, cacau e centenas de outros produtos agrícolas. Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações brasileiras à Holanda somaram mais de US$ 8 bilhões, ou 5% do total exportado pelo Brasil, sendo US$ 3 bilhões de produtos do agronegócio. A maior parte dos produtos que os holandeses importam do Brasil são reexportados.
Com uma longa tradição mercantil e uma localização privilegiada, a Holanda é o segundo maior exportador mundial do agro (US$ 112 bilhões), atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da Alemanha (US$ 101 bilhões) e do Brasil (US$ 88 bilhões). Os dados são da Central de Estatística da Holanda (CBS).
Localizada no centro das três maiores potências (Alemanha, França e Reino Unido), o país é o principal “hub” do mercado europeu. O Porto de Roterdã e o Aeroporto de Schiphol, conectados a uma extensa malha de rodovias, ferrovias, aeroportos e hidrovias, dão acesso a 500 milhões de consumidores em 18 horas no máximo, o que facilita o acesso de alimentos frescos. O porto opera com satélites e rôbos e tem mais de 100 quilômetros quadrados. Recebe os maiores navios do mundo. Nos terminais, as cargas a granel ou em contêineres são transferidas para caminhões, vagões ou barcos, que seguem pelos rios para quase toda a Europa.
Nos arredores de Roterdã, o município de Westland é um “ecossistema do agro”, como descreve Herwi Rijsdijk, diretor da ABC Westland. O agricluster é formado por empresas de exportação, importação, logística, processamento, distribuição, câmaras frias, 4.500 hectares de estufas (para flores e hortifrútis.
A ABC Westland é um parque industrial composto por empresas de quase todos os elos da cadeia de alimentos e que recebe mais de 4 mil produtos de vários cantos do mundo: abacaxis da Costa Rica, uvas da África do Sul, óleo de palma da Malásia, cacau da Costa do Marfim, bananas do Equador, batata-doce dos EUA, manga do Brasil, vegetais da Croácia, frutas do Chile. Um delicioso e colorido supermercado global. Fruta é o produto agrícola mais importado pela Holanda (cerca de 5 bilhões de euros em 2015).
Em Westland também está o World Horti Center, um centro de conhecimento e inovação da horticultura em estufa. Lá as pessoas se encontram para fazer negócios, estudar, trocar informações, pesquisar e criar. Nas salas de aulas, há uma preocupação constante em conectar a teoria à prática – alunos da área de agronomia aprendem a preparar pratos com os alimentos que cultivam na estufa; quem cultiva flores e plantas tem aulas de decoração.
Flores e plantas ornamentais são os principais produtos da pauta de exportação holandesa (8,3 bilhões de euros), seguidas por laticínios e carne. A Holanda tem a maior indústria de processamento de cacau do mundo. A maioria dos grãos de cacau importados, da pasta e da manteiga vem de países africanos (Costa do Marfim, Gana, Camarões e Nigéria), o que tornou o país um grande exportador de chocolate.
Vacas e rôbos
As famosas vaquinhas holandesas, uma espécie de símbolo do país, rendem 6,3 bilhões de euros com exportação. Com um rebanho de 1,6 milhão de vacas, o país produz 13,3 bilhões de quilos de leite, dos quais mais de 50% são transformados em queijos. O setor movimenta 10,2 bilhões de euros por ano. Desta receita, 65% vêm da exportação para países da Europa, China, Estados Unidos e Arábia Saudita. O segredo da alta produtividade é a genética apurada das holstein-friesian e a tecnologia de ponta.
Na fazenda Den Eelder, em Poeldijk, quem faz quase todo o trabalho são as 500 vacas em lactação.  Na verdade, os rôbos, explica Ernst van der Schans, proprietário. Ao buscar alimento, a própria vaca escolhe a hora da ordenha. Enquanto ela come a ração, um robô higieniza as suas tetas e instala as válvulas que retiram o leite. Investir na automação, segundo van der Schans, permitiu reduzir o custo de mão de obra e eliminar o risco de contaminação. Além de leite, a Den Eelder produz iogurte, sobremesas e manteiga.
Com o sistema robotizado, a fazenda consegue avaliar as condições de saúde do animal e saber o melhor momento para a inseminação. Em média, cada vaca é ordenhada três vezes ao dia e produz 36,2 litros diariamente. Den Eelder é um negócio sustentável. Os 70 quilos de esterco que cada vaca produz por dia são convertidos em gás metano, que vira eletricidade, fertilizante e calor. A propriedade também dispõe de painéis solares. Tudo isso permite à Den Elder produzir hoje 75% de toda a energia que consome.