Incertezas políticas e econômicas fazem empresas reforçar cautela, diz pesquisa

Publicado em 11/07/2018 por Valor Online

Incertezas políticas e econômicas fazem empresas reforçar cautela, diz pesquisa

As incertezas quanto aos rumos da política nacional estão levando companhias a tomar medidas que vão da redução do nível de caixa à desaceleração no ritmo dos investimentos. Pesquisa inédita do Centro de Estudos em Finanças da EAESP/FGV aponta que, nos últimos seis meses, o enfraquecimento da economia local foi o fator de maior impacto nos negócios para 75,8% dos empresários, seguido pelas preocupações com a indefinição do cenário eleitoral, para 41,8% - razão que tem peso quase quatro vezes maior que efeitos das taxas de juros e inflação, representando 8,5% e 10,5%, respectivamente.

A pesquisa envolveu 153 empresários entre o fim de março e abril, antes da divulgação do PIB do primeiro trimestre e da greve dos caminhoneiros - eventos ocorridos em maio e que desencadearam uma onda de revisões baixistas no PIB. Assim, naquele momento do ano, a fraqueza da atividade já preocupava o setor produtivo.

"O país está vivendo um momento único, de incerteza radical, aquela em que não se consegue sequer traçar probabilidades de cenários. Imagine um diretor trabalhando num ambiente desses. Por isso, ficamos motivados a entender quais são suas percepções e os impactos desse quadro em suas empresas", explica William Eid Junior, professor titular e coordenador do centro de estudos.

Claudia Yoshinaga, também professora da FGV e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças, afirma que o principal impacto reportado pelas empresas é o enfraquecimento da economia, mas não somente. "As coisas andam juntas e a incerteza política configura um grande problema. Some-se a isso o período [pré-eleitoral] em que tudo fica postergado". Para a pesquisadora, se a corrida à sucessão presidencial estivesse mais definida, a economia poderia estar num momento melhor. "O custo dessa espera está afetando fortemente tanto a produção no país quanto os indicadores econômicos", ressalta.

Dos empresários pesquisados, 86,9% levam em conta as incertezas políticas na hora de decidir sobre investimentos futuros e 75% relataram estar mais atentos ao panorama atual. A verificação mostra que 39,2% dos empresários têm propensão a reduzir os investimentos futuros pela primeira razão.

Eid Junior vê com preocupação os indicadores, pois aproximadamente 46,4% das companhias já reportaram quedas nos níveis de investimentos. "Isso é mortal para o Brasil, mas inevitável diante da realidade. Quanto maior o risco, mais as pessoas se retraem, atuam na defensiva. É assim no mundo todo. Como sair disso? É uma questão difícil de responder nesse momento."

Com menor perspectiva de investimento e atividade, 48,3% das empresas reduziram a quantidade de caixa e 44,4% cortaram capital de giro, segundo o levantamento. Na outra ponta, 30% aumentaram sua posição de caixa, 30% elevaram investimentos e 27,4% aumentaram o endividamento. "Notamos uma grande volatilidade nos níveis de caixa e de investimento das empresas pesquisadas", diz Renato Marchiori, pesquisador do centro de estudos e mestrando da FGV.

Segundo Eid Junior, os resultados da pesquisa que apontam para enxugamento de caixa também podem estar relacionados a um trauma não curado dos brasileiros que já eram investidores 28 anos atrás: o confisco da poupança, dos recursos em conta corrente e depósitos overnight pelo Plano Collor em 1990: "Esse fantasma ainda assombra as pessoas, mas é um temor que não faz o menor sentido. A dívida pública, naquela época, tinha vencimento semanal. Hoje o prazo médio é bem maior, de anos". As precárias condições de financiamento da dívida pública eram um dos fatores que o plano pretendia combater.

O trabalho da EAESP foi inspirado em estudo sobre percepção política feito sob coordenação de John Graham, professor de Finanças da Duke University - que mantém parceria com a instituição brasileira -, com informações extraídas de pesquisa de 2010 feita para sondar CFOs (diretores financeiros das empresas) sobre o impacto de riscos - juros, câmbio, energia, commodities, crédito e geopolítica. Na versão do Centro de Estudos em Finanças da EAESP/FGV, foram consultados, entre 15 de março e 6 de abril deste ano, 153 empresários de 12 ramos de atividade.