Integração entre lavoura e gado aumenta rentabilidade e diminui emissões

Publicado em 04/04/2019 por Agência Fapesp

André Julião  |  Agência FAPESP – A fazenda Campina, em Caiuá (SP), pertencente ao Grupo Carlos Viacava – um dos maiores produtores de gado nelore mocho do Brasil –, adotou um sistema que integra a criação de gado com o cultivo de grãos.

Especializado na produção de matrizes, animais altamente selecionados e comercializados para dar origem a outros rebanhos, o grupo vem diminuindo a ocupação das suas propriedades pelo gado e aumentando a participação dos grãos.

Embora a ocupação da propriedade pelo rebanho tenha caído de 97% para 50% desde 2012 – sendo hoje a outra metade cultivada com milho, sorgo, feijão guandu e, principalmente, soja – a rentabilidade com o gado aumentou.

Segundo os produtores, o consórcio entre animais, pastagem e grãos tornou o solo tão mais rico que o gado passou a expressar melhor sua genética. Além disso, as vacas passaram a se tornar férteis com apenas 14 meses de idade (a média brasileira é de 24 meses), gerando mais bezerros ao longo da vida.

A fazenda Campina é um exemplo de como o sistema Integração Lavoura-Pecuária (ILP) aumenta a disponibilidade de nitrogênio e de outros nutrientes no solo, trazendo ganhos para a pecuária e para o meio ambiente, pois ajuda a mitigar a emissão de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa para a atmosfera.

“O gado hoje expressa muito melhor a sua genética por conta da qualidade do pasto. Nos últimos anos, ganhou em média 500 gramas por dia, enquanto no sistema anterior ganhava 100 gramas por dia”, disse Juliano Roberto da Silva, zootecnista do grupo empresarial.

Silva apresentou os resultados em evento realizado de 26 a 29 de março em Presidente Prudente (SP) no âmbito do projeto Nucleus (Nitrogen Use effiCiency via an integrated SoiL-plant systEms approach for the Uk & BraSil). A iniciativa é financiada por meio de um acordo entre o Biotechnology and Biological Sciences Research Council (BBSRC) e o Newton Fund, ambos do Reino Unido, com a FAPESP e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap). O projeto também tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) e da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). No encontro estiveram presentes pesquisadores e estudantes do Reino Unido, São Paulo, Goiás e Maranhão.

“Na integração lavoura-pecuária, que pode incluir também a floresta [ILPF], o produtor pode até não ter retorno em todas as atividades praticadas, mas os ganhos na fertilidade e na física do solo são tão grandes que o lucro em um desses fatores compensa uma eventual perda nos demais”, disse Juliano Calonego, professor da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (FCA-Unesp), em Botucatu, à Agência FAPESP.

Nesse sistema consorciado, uma área fica, em média, dois anos com pastagem e outros dois anos com lavoura. No caso da fazenda Campina, o crescimento da rentabilidade não veio da receita da venda de grãos. Silva explicou que, apenas para pagar os custos da produção da soja, precisa colher em média 50 sacas por hectare, mas raramente consegue essa produtividade.

“Essa perda é compensada, e muito, com o ganho de qualidade que temos no solo, com uma pastagem muito mais nutritiva para o gado, que traz mais rentabilidade ao negócio”, disse.

Na fazenda experimental da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), uma das instituições participantes do Nucleus, são criados quatro animais por hectare no terreno em que houve integração de gado com lavoura. A média brasileira de ocupação de pastagem é de menos de um animal por hectare.

“Se houver adição de nitrogênio no solo, dobramos esse número”, disse Paulo Gomes da Silva, professor da Unoeste, durante visita dos participantes do evento à fazenda experimental.

Com a produção de grãos no Brasil chegando ao pico, especialistas apontam as pastagens degradadas como a próxima fronteira agrícola. Ao implementar a integração lavoura e pecuária nessas áreas, projeta-se um aumento na produção de grãos do país, ao mesmo tempo que se recuperam as áreas para pastagem.

Conhecimento dos solos

O foco do projeto Nucleus é buscar a eficiência no uso de nitrogênio em sistemas de produção agrícola. Os pesquisadores têm demonstrado que a melhor forma de aumentá-la é por meio do cultivo de gramíneas forrageiras e grãos no mesmo terreno, seja em rotação ou em consórcio.

“Ao manter o solo coberto, usando gramíneas com raízes profundas, evitamos que o nitrogênio seja lixiviado para o lençol freático, causando contaminação, ou perdido para a atmosfera”, disse Ciro Rosolem, professor da FCA-Unesp e coordenador do Nucleus no Brasil.

Na integração da lavoura com a pecuária, outra vantagem é que a cobertura vegetal, ao absorver CO2, compensa em parte as emissões de metano (CH4) do gado, pois mantém no sistema o carbono (C).

Além de conhecer as dinâmicas de diferentes tipos de solo, seja do Estado de São Paulo, Goiás, Maranhão e de várias regiões do Reino Unido, a parceria gera conhecimento sobre o solo de maneira mais global, com resultados científicos que podem ser aplicados em outros locais além dos estudados.

“É muito difícil plantar em solos compactados, pois eles oferecem resistência e não deixam as raízes penetrar. Isso se aplica à maior parte dos solos no mundo. Então, se pudermos identificar plantas que sejam melhores para solos compactados, por exemplo, esse conhecimento poderá ser aplicado globalmente”, disse Sacha Mooney, professor da Universidade de Nottingham e coordenador do projeto no Reino Unido.

Além da troca de experiências, devido às condições totalmente diferentes dos solos britânicos e brasileiros, o projeto propiciou intercâmbio de estudantes e de pesquisadores, além do uso de novos equipamentos e técnicas.

Camila Grassmann, doutoranda da FCA-Unesp, contou sua experiência de quatro meses na Universidade de Nottingham. Em um dos experimentos, ela usou equipamentos de tomografia por raios X para solo, que não existem no Brasil, como parte de seu trabalho de doutorado.

Grassmann estuda como diferentes tipos de gramíneas interagem com a cultura do milho, a fim de entender qual delas faz um uso mais eficiente de nitrogênio na plantação consorciada. O processamento das imagens ainda não foi finalizado, mas resultados preliminares indicam não haver tanta diferença entre as espécies de forrageiras para o propósito estudado.

“Usar os laboratórios e equipamentos deles foi muito importante para a condução dos experimentos e da minha pesquisa, de modo geral, além da convivência com outros pesquisadores”, disse Grassmann.

Fim de um ciclo

O projeto, que se encerra este ano, teve mais de 40 cientistas envolvidos, 12 instituições, 12 artigos científicos já publicados e mais de 20 em preparação, além do intercâmbio de mais de uma dezena de estudantes de pós-graduação e pesquisadores seniores.

“Há muitos resultados interessantes emergindo nesse campo em termos de otimização de estratégias de cultivo consorciado, especialmente no que se refere às melhores gramíneas forrageiras”, disse Mooney.

Ele contou ainda que o grupo aprendeu muito sobre como a estrutura do solo influencia a arquitetura das raízes, como isso se desenvolve sob diferentes sistemas e de que forma pode ser melhorado pelo uso de plantas e de aplicação de calcário.

“Mostramos ainda, como grande promessa, o uso de drones para verificar a saúde das plantas, além do potencial de sensores in situ para medir o nitrato no solo. Esperamos continuar essa parceria. Os frutos dela estão começando a aparecer agora”, disse Mooney.