IPCA de 0,45%, abaixo do esperado, já sinaliza deflação em novembro

Publicado em 08/11/2018 por Valor Online

IPCA de 0,45%, abaixo do esperado, já sinaliza deflação em novembro

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de outubro surpreendeu e mostrou um quadro inflacionário favorável para o último trimestre do ano, levando economistas a calcular deflação em novembro e revisar para baixo as suas projeções para 2018. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem que o indicador do mês passado ficou em 0,45%, abaixo do registrado em setembro (0,48%). O resultado também foi menor do que a média das projeções de 35 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, que esperavam alta de 0,56%.

No acumulado de 12 meses, o IPCA foi de 4,56% em outubro, ligeiramente acima dos 4,53% registrados até o mês anterior. Os analistas consultados pelo Valor esperavam, na média das projeções, uma aceleração para 4,66% nesse tipo de comparação. Dessa forma, o índice segue próximo da meta de inflação do Banco Central para este ano, de 4,5%.

Outra boa notícia foi a queda do índice de difusão, que mede a proporção de bens e atividades com aumento de preços. O recuo foi de 63% em setembro para 60,4% em outubro, segundo cálculos do Valor Data. No mês passado, o indicador havia subido, dos 52,3% de agosto e dos 50,4% em julho.

Excluindo alimentos, grupo com preços considerados voláteis, o índice de difusão também recuou, de 59,9% para 55,9%, voltando ao menor percentual desde os 51,9% de julho.

Os números divulgados ontem fizeram o Banco Safra revisar, de 4% para 3,9%, a sua projeção para o IPCA deste ano - mesmo número de 2019. Em relatório, a instituição financeira afirma que tanto as estimativas para o indicador cheio quanto para os núcleos, que excluem itens com preços mais voláteis, "sugerem que não teremos pressões inflacionárias relevantes no futuro próximo". A MCM Consultores também cortou a sua projeção, de 4,2% para 4%. O Santander e o UBS, por sua vez, têm viés de baixa para as suas estimativas, de 4,3% e 4,6%, respectivamente.

A inflação de serviços, mais sensível à política monetária, também segue em queda. No acumulado de 12 meses, ela atingiu 3,03%, o menor resultado desde abril de 2001, de acordo com Alberto Ramos, diretor do departamento de pesquisas econômicas para a América Latina do Goldman Sachs.

"O amplo hiato do produto, a folga no mercado de trabalho, as expectativas de inflação bem ancoradas e as perspectivas baixas do crescimento do Produto Interno Bruto" devem manter a inflação controlada, de acordo com o economista.

Com base no boletim Focus, do Banco Central (BC), Marcio Milan, da Tendências Consultoria, também destaca as expectativas ancoradas do mercado. A projeção mediana dos economistas consultados pelo BC para o IPCA de 2019 está em 4,22%.

No curto prazo, o indicador também pode trazer boas notícias. O Santander, por exemplo, calcula que o IPCA deve ficar negativo em 0,11% neste mês. Se o número for confirmado, será a primeira queda em novembro desde 1998, quando houve recuo de 0,12%, segundo Lucas Nobrega, economista da instituição financeira. Já a Tendências calcula uma pequena deflação de 0,01%. Alguns dos principais motivos apontados para a queda são a mudança da bandeira tarifária de energia elétrica (de vermelha patamar 2 para amarela, mais barata) e os impactos do real mais desvalorizado sobre os combustíveis. O Itaú, por sua vez, tem projeção preliminar de 0,05% de variação positiva, "com a taxa em 12 meses recuando para 4,3%".

No mês passado, os combustíveis já haviam ajudado a inflação a ficar mais baixa. Dos nove grupos de despesas das famílias acompanhados pelo IBGE, cinco apresentaram taxas menores na passagem de setembro para outubro. Transporte teve a desaceleração mais relevante, passando de 1,69% em setembro para 0,92%, reflexo justamente de menores aumentos dos preços de combustíveis. Ainda assim, a gasolina e o diesel subiram na média 2,44% em outubro, impactando o IPCA em 0,14 ponto percentual (p.p.). Os outros grupos com desaceleração foram Habitação (de 0,37% para 0,14%), Despesas pessoais (de 0,38% para 0,25%), Educação (de 0,24% para 0,04%) e Saúde e cuidados pessoais (de 0,28% para 0,27%).

Em sentido contrário, Alimentação e bebidas foi o destaque, ao acelerar de 0,10% em setembro para 0,59% em outubro. O grupo foi responsável por 0,15 p.p. do IPCA do mês passado. Artigos de residência (de 0,11% para 0,76%) e Vestuário (de -0,02% para 0,33%) também aceleraram.

Já o câmbio mais desvalorizado de outubro não foi um fator de peso para o índice, segundo Fernando Gonçalves, gerente de Índices de Preços do IBGE. Poucos produtos, como eletrodomésticos, gasolina e alguns tipos de alimentos (frango, trigo, pão francês), foram afetados. Ele lembra que o nível de desemprego limita o consumo das famílias, dificultando o repasse do custo cambial pelas empresas. (Colaborou Arícia Martins, de São Paulo)