Marina luta pela viabilidade

Publicado em 13/09/2018 por Bom dia Brasil

Na entrevista concedida por Marina Silva ao G1 e à CBN, fica clara a luta pela viabilidade de sua candidatura ao Planalto. Seu desempenho nas pesquisas mais recentes demonstra que ela murcha como um balão preso com um laço frouxo de barbante. Se o deputado Jair Bolsonaro, líder nas sondagens, é quem tem a maior chance de chegar ao segundo turno, Marina, dentre todos os demais que disputam a segunda vaga, é quem tem a menor.

Nas pesquisas, as menções a Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad têm crescido em proporções e velocidades variadas, enquanto Marina é a única dos quatro que sofreu queda inequívoca nas últimas semanas, registrada em todos os levantamentos. No Datafolha, caiu de 16% para 11%; no Ibope, de 12% para 9%.

Em votos válidos, diz o Ibope, Marina desabou de 20% a 12% desde 20 de agosto e perdeu para Ciro Gomes o segundo lugar na disputa. Seus eleitores estão entre os que se dizem menos convictos do voto. Segundo tanto o Ibope quanto o Datafolha, apenas 29% afirmam ter certeza de que votarão nela (no Datafolha, esse é o menor patamar).

Seus votos caíram sobretudo nos públicos em tese mais simpáticos às ideias de Marina: entre os mais jovens (desde o final de agosto, de 18% para 9% no Ibope; de 21% para 15% no Datafolha); entre os mais pobres (de 14% para até 8% no Ibope; de 19% para 13% no Datafolha) e no Nordeste (de 17% para 11% no Ibope; de 19% para 11% no Datafolha).

Ela perde votos para todos os candidatos: para Alckmin, o voto moderado daqueles que não querem nem Bolsonaro, nem a volta do PT; para Ciro e para Haddad, o voto do Nosdeste ou daqueles esquerdistas que esperavam pela definição da candidatura petista ou veem no pedetista um rival mais viável contra Bolsonaro no segundo turno. A sangria levou o cientista político Alberto Almeida a compará-la ao tipo sanguíneo O positivo, uma espécie de doador universal de votos.

"É oscilação, não é dado consolidado. Vou continuar fazendo meu trabalho", afirmou quando questionada sobre seu desempenho. "Pesquisa é resultado de momento, não vou trocar princípio por voto, não vou fazer promessômetro." Marina aproveitou a deixa para afinetar seus principais rivais, os tucanos e os petistas.

"Sou diferente de Dilma, ela disse que se junta até com o diabo para ganhar. Não me junto com o rabudo. Todo o condomínio que estava com ela hoje está com Alckmin", afirmou. "Diziam que Marina não era viável, porque não tinha coligação com centrão nem marqueteiro mentiroso como Dilma pagou João Santana. Não tenho tempo de televisão, nem meio bilhão do fundo partidário para fazer campanha em jatinho. Ando de avião de carreira."

Defendeu como "escolha programática" e "ética" sua resistência a fechar os acordos que garantiriam maior visibilidade a sua candidatura e repeliu as críticas à dificuldade de manter sua bancada no Congresso. "A saída de deputados faz parte da democracia. Não preciso desqualificá-los só porque saíram do meu partido", disse. "A esquerda tradicional cultiva a cultura de ódio. Na Rede, os mantemos como amigos, torço para que sejam eleitos, Não gostaria que os investigados permaneçam e os homens de bem percam."

O maior desafio de Marina é conter a hemorragia de votos à esquerda. Daí a comparação da candidatura petista de Fernando Haddad à de Dilma Rousseff, também indicada por Lula. "Dilma foi chancelada pelo presidente Lula e agora é apagada da história por seu próprio partido. É como se não tivesse acontecido o governo Dilma/Temer, que legou ao Brasil 13 milhões de desempregados, aprofundou os erros do presidente Lula e entregou um país pior."

Mesmo tendo se recusado a fazer um "promessômetro", não resistiu a firmar o compromisso de investir em construção civil, casas populares, infraestrutura, saneamento e turismo para fazer o país voltar a crescer, combater o desemprego e tirar da "situação de penúria" 27 milhões de brasileiros. "Vamos criar milhões de empregos imediatamente e também estruturalmente, pela recuperação da indústria e da produtividade."

Comprometeu-se com a responsabilidade fiscal, mas criticou o teto de gastos estabelecido no governo Temer. ""É preciso enfrentar o déficit público, enfrentar o esgoto da corrupção, fazer com que Estado não seja sorvedouro de dinheiro de projetos ineficientes", disse. "Mas o Estado vai colapsar se o Orçamento ficar congelado por 20 anos. Vamos controlar o gasto público com a lei orçamentária. Com o superávit primário garantido, podemos fazer um aumento de gasto público na metade do crescimento do PIB."

Ela acredita que, ao promover uma agenda reformista e o combate à corrupção, resgatará a credibilidade internacional do país - e todos voltarão a investir aqui. "Se houver o sinal de que alguém vai usar com ética os recursos públicos, vai ter investimento. Todos os países estão aguardando que Brasil dê sinal."

Marina declarou-se favorável à reforma da Previdência - "não da forma como Temer se propôs a não fazer, apenas um aceno ao mercado" -, ao combate dos privilégios nas aposentadorias do setor público, à idade mínima diferente para homens e mulheres e, sem estabelecer meta, à transição para um regime de capitalização, em que cada um dispõe de uma conta individual em que acumula recursos para a própria aposentadoria.

Como pôr tudo isso em prática? "Minha proposta é retomar o debate, discutindo com especialistas e trabalhadores", disse. "Quando a gente se incomoda com o debate, o que prospera é o autoritarismo mesmo. Propostas ao arrepio da democracia, como as do candidato Bolsonaro, têm prosperado no Brasil." Afirmou que foi assim que reduziu o desmatamento em 80% ao longo de dez anos.

Na agenda ambiental, disse que não cortará subsídios à energia limpa e criticou as concessões às "energias sujas, de carvão, de diesel, de gás". Criticou o tabelamento do frete e o subsídio ao diesel, mas driblou a questão sobre a manutenção de ambos no novo governo. "Subsídio aos combustíveis fósseis é um contra-senso", disse. "Temos que entender como emergência, enquanto houver necessidade em casos específicos."

Ela quer criar 1,5 milhão de tetos captadores de energia solar e fazendas eólicas no Semi-árido. Comparou seus planos no setor à indústria chinesa. "As pessoas fazem investimentos e ele se paga, à medida que vai ganhando escala, o preço diminui." Defendeu ainda a agricultura sustentável, com produtividade e novas tecnologias.

Na segurança, repetiu ideias frequentes, como "plano nacional de segurança pública", "sistema único de informações", com aposta em inteligência, treinamento da polícia e "ação efetiva nas manchas criminais". "É inaceitável que quem esteja preso esteja comandando o crime organizado", afirmou. Citou, como exemplo, a redução da violência na cidade colombiana de Medellín.

Declarou-se favorável à intervenção no Rio de Janeiro, que chamou de "caso dramático". "A intervenção cumpre uma função de defesa da população. O governo se declarou incompetente, incapaz", disse. "Claro que o governo federal tem de proteger a população." Sobre a violência contra mulheres, afirmou ser impossível "mudar a realidade apenas pela força, mas, enquanto a cultura não muda, é preciso usar a lei."

Na saúde, apresentou a ideia de dividir o país em 400 regiões, com capacidade para atender 500 mil pessoas. Disse que os R$ 3 despendidos por paciente ao dia são um "dinheiro mal gasto", que se esvai na corrupção. Defendeu a criação de uma "autoridade nacional" com base em critérios técnicos, como diz ter feito na implementação do serviço florestal brasileiro e do Instituto Chico Mendes. "Teríamos atendimento com escala, maternidade com mais especialistas e estrutura para atender vários municípios."

Marina insiste, acima de tudo, em se reafirmar diferente dos políticos de partidos tradicionais. "Eles defendem foro privilegiado, sou contra. Eles não foram a favor da cassação da chapa Dilma-Temer, eu fui. Eles são a favor da anistia ao caixa dois, eu sou contra", disse. "Não me posiciono como PT ou PSDB, é outro posicionamento, que a sociedade brasileira está percebendo cada vez mais."

Citou a oração de São Francisco, repetiu que "se tivesse as informações que temos hoje, não teria votado em Aécio" e insistiu que está "no mesmo tom desde sempre". Quem estava com saudades do "marinês" pôde ouvir expressões como "resolutibilidade", "turismo experiencial, vivencial", "modais de transporte", "dinâmica econômica do empreendedorismo", "nova base produtiva", "regramentos legais", "instrumentalização das Forças Armadas", "resposta estrutural", "expectativa da impunidade", "desconstrução de biografias" e o clamor por uma "base que crie equidade".