Mercado tem dia de forte nervosismo

Publicado em 08/08/2018 por Valor Online

Mercado tem dia de forte nervosismo

O mercado financeiro viveu ontem uma amostra do que pode ser o período da campanha eleitoral. Um ajuste de posição no mercado de renda fixa por parte de um fundo estrangeiro detonou uma onda compradora de dólares, movimento que foi amplificado por diferentes rumores sobre pesquisas e a respeito de novas delações no âmbito da Operação Lava-Jato que circularam nas mesas de operação. Essa espiral fez os juros futuros e o dólar dispararem e derrubou o Ibovespa, na contramão do ambiente favorável a ativos de risco que se viu no exterior.

Durante as primeiras horas do pregão de ontem, o tom do mercado era positivo, mas com giro de negócios bastante reduzido. Por volta das 14h30, entretanto, os preços mudaram de direção de forma abrupta, o que assustou os agentes e gerou uma corrida compradora de dólares e juros e vendedora de ações.

Segundo profissionais, o que detonou essa virada foi uma grande ordem de compra de juros futuros - quando o investidor assume uma posição a favor da alta da taxa - por parte de um fundo estrangeiro. Essa operação foi concentrada nos contratos com vencimento em janeiro de 2020 e janeiro de 2021. Como resultado, o volume de negócios e as taxas desses contratos dispararam.

O contrato de janeiro de 2020 movimentou R$ 39,4 bilhões, volume mais de cinco vezes superior ao observado na sessão anterior. A taxa desse contrato saiu de 7,88% e atingiu a máxima de 8,04% - fechou a 8,01% na sessão regular. Já o DI de janeiro de 2021 teve giro de R$ 29,9 bilhões, quase quatro vezes acima da véspera, e o juro saiu de 8,85% para a máxima de 9,01%, antes de fechar a 8,98%. O dólar acompanhou esse movimento, inverteu o sinal e tocou a máxima do dia, aos R$ 3,7717. No fechamento, era cotado a R$ 3,7667, com alta de 0,91%.

A correria que se instalou nesse momento alcançou também a bolsa. O Ibovespa inverteu a trajetória positiva que vinha exibindo e chegou a tocar os 79 mil pontos na mínima do dia. No fechamento, caía 0,87%, aos 80.347 pontos. O giro financeiro superou as médias negociadas nos últimos meses e ficou em R$ 9,72 bilhões, sendo que em apenas 48 minutos, o índice teve um incremento de giro de R$ 3,7 bilhões. Nas duas horas finais de pregão, o volume cresceu em mais de R$ 6 bilhões.

O que poderia ser uma correção pontual de uma posição de um grande investidor acabou ganhando força por duas razões: a menor liquidez, num momento em que o mercado opera em compasso de espera por um quadro mais definido sobre as eleições; e a incerteza sobre o que está por vir nesse processo eleitoral, ingrediente que deixa o mercado muito mais suscetível.

Ao observar esse movimento de ajuste de posição e de preços, alguns rumores passaram a circular nas mesas de operação, amplificando a piora dos ativos. Entre os rumores, o mercado comentou a possibilidade de a pesquisa eleitoral da CNT/MDA, prevista para hoje, mostrar o candidato tucano, Geraldo Alckmin, enfraquecido no Estado de São Paulo. Também circularam boatos sobre uma possível delação envolvendo Alckmin na Lava-Jato. Essa informação foi desmentida em nota assinada por Eduardo Carnelós, advogado de Laurence Casagrande Lourenço, ex-executivo da Dersa e ex-secretário de Transportes no governo Alckmin.

"Houve uma realização tanto de estrangeiro quanto de investidores locais em função do novo cenário possível", afirma o gestor de um fundo paulista, lembrando que o mercado vem de uma trajetória positiva desde meados de julho, promovida em grande medida pela leitura de que Alckmin passaria a ter chances reais de ir para o segundo turno depois de conquistar o apoio dos partidos do Centrão.

Essa sensibilidade tende a crescer, afirmam especialistas, quando o programa eleitoral começar. "A dinâmica do pleito eleitoral está contaminando os ativos brasileiros e isso vai ficar pior. O Ibovespa não vai buscar os 87 mil pontos sem cenário benigno com as eleições", afirma Fernando Barroso, diretor da CM Capital Markets.

Para Barroso, o fluxo forte do Ibovespa acompanhado de um movimento de baixa deixa evidente que as apostas contra a bolsa são maiores agora. Ainda assim, chama atenção o fato de o giro seguir modesto, com os agentes mantendo o pé no freio na renda variável. "Sem fatos, apenas com rumores, os investidores realizam lucros nas ações do 'kit Brasil', que são mais líquidas, como bancos, e estatais."

Além do setor bancário, caíram ontem Petrobras ON (-0,39%) e PN (-1,57%). O fato de a ON ter oscilado menos do que a PN é uma pista de que, embora o estrangeiro tenha embarcado na realização de lucros, fundos locais têm atuado com mais intensidade na ponta vendedora.