Mobilidade, agricultura e energia são as novas frentes estratégicas

Publicado em 10/07/2018 por Valor Online

Silvia Zamboni/Valor

Solheim: "Se a mudança forçar pessoas a serem pobres, nunca irá funcionar"

O norueguês Erik Solheim, 63 anos, dirige o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) desde maio de 2016. Pragmático e preocupado em aproximar as questões ambientais das pessoas, tratou de mudar o nome do Pnuma para algo mais direto - ONU Meio Ambiente. Não ficou só na narrativa. O esforço mundial de combater o uso indiscriminado dos plásticos descartáveis, que ganhou manchetes no mundo todo, tem a sua marca.

Ele vislumbra novas frentes globais de mudança: mobilidade, agricultura e energia. "A maior fonte de poluição em Nova Déli vem da queima de resíduos da agricultura. Se isso puder ser transformado em fertilizantes e energia, a perspectiva melhora para o agricultor e reduz a poluição." Seu próximo alvo será buscar a transformação dos "níveis insustentáveis de produção e consumo".

Valor: Como avalia o GEF?

Erik Solheim: A mudança que queremos ver no GEF é como podemos ter grandes programas que promovam transformações. Gastar dinheiro em pequenos projetos pode ser bom, ajudar pessoas, mas não muda o mundo. O que está acontecendo com os plásticos é um bom exemplo de como a mudança está acontecendo. Há um ano poucos falavam do problema dos plásticos e agora temos este movimento global. O primeiro-ministro Narandra Modi, da Índia, prometeu que o país banirá o uso de plásticos descartáveis em 2022. Se isso pode acontecer na Índia, pode acontecer em outros países.

Valor: E o que acontece neste campo nos países desenvolvidos?

Solheim: A União Europeia acaba de fazer o maior compromisso do mundo ao anunciar sua estratégia de banir vários itens de plástico e que conta com imenso apoio popular. Podemos viver sem canudos, garrafas e copos de plástico. São mudanças pequenas na vida das pessoas, mas que permitem que nos movamos para a economia circular e tenhamos melhor manejo de resíduos. Isso é algo concreto para as pessoas e é uma transformação parecida com a do hábito de fumar.

Valor: Onde há similaridade?

Solheim: Há 14 anos, fumar era permitido em todos os restaurantes do planeta. E agora, em lugar nenhum. Foi muito difícil, mas a mudança aconteceu. De novo, foi a combinação de cidadãos conduzindo a mudança e fazendo os políticos agirem. Agora temos outros objetivos, como mudar a mobilidade.

Valor: Como o senhor imagina que esta mudança aconteça?

Solheim: Com mais veículos elétricos, mais sistemas de transporte, desenhar as cidades de modo que seja mais fácil andar a pé e de bicicleta, e deixar que os cidadãos liderem a mudança. Há 15 anos havia duas cidades na China com sistemas de metrô, Pequim e Xangai, com apenas duas linhas. Agora o metrô de Pequim é o maior do mundo e o de Xangai, o segundo maior. Há 35 cidades neste caminho na China, e o mesmo acontece na Índia. Vemos também a revolução do compartilhamento de bicicletas na China ou em Paris.

Valor: Onde mais o senhor observa as mudanças?

Solheim: Em energia. Pela primeira vez na história, no ano passado, a energia solar gerou mais energia ao mundo do que o carvão. O aeroporto de Cochin, na Índia, é o primeiro do mundo a funcionar com 100% de energia solar. E sob os painéis eles ainda plantam legumes. A China lidera a transição, seguida pela Índia, mas que acontece em muitas partes do mundo. Nos EUA há mais empregos na indústria solar do que no carvão.

Valor: A agricultura vem mudando também ou não?

Solheim: A agricultura é um setor-chave da mudança do clima. Em muitas partes começamos a ver agricultura verde, o que não significa voltar ao passado, mas produzir melhor, com melhores produtos, de forma mais econômica para o fazendeiro e ao mesmo tempo, baseando-se em princípios ecológicos. Reduzindo fertilizantes e evitando pesticidas, porque usam plantas que são repelentes naturais de insetos como parte do mix. Plantam de maneira científica de modo a conseguir mais eficiência do que na agricultura tradicional. Pode-se cultivar arroz de maneira ambientalmente melhor e com custos menores. Aqui também há uma revolução chegando.

Valor: Como nos cigarros, vamos ter que esperar 14 anos para reduzir o uso de plásticos descartáveis?

Solheim: No uso de plásticos acho que podemos ir mais rápido ainda. Não precisamos de canudinhos, podemos usar copos de vidro, não temos que usar 10 sacolas plásticas toda vez que vamos ao mercado. Mas precisamos de plásticos em outros lugares. Eles tornam os carros mais leves, por exemplo, e há vários outros casos. Estes plásticos podemos reciclar e usar de novo dezenas de vezes.

Valor: Na Tailândia, agricultores argumentam que mudar para práticas orgânicas leva tempo e eles não podem ficar sem receita.

Solheim: Não há como convencer alguém a mudar e perder dinheiro. No Vietnã tem 150 mil pessoas usando práticas de agricultura verde e se funciona aqui, funcionará na Tailândia também. A maior fonte de poluição em Nova Déli vem da queima de resíduos da agricultura da região. Se isso puder ser transformado em fertilizantes e energia, a perspectiva é muito melhor para o agricultor e reduz o enorme nível de poluição. Se a mudança forçar pessoas a serem pobres, nunca irá funcionar.

Valor: A ex-presidente chilena Michelle Bachelet diz que é preciso mudar padrões de consumo e produção. Como começar?

Solheim: O tema da próxima assembleia ambiental da ONU (Unea) é justamente consumo e produção. É assunto central. Temos que priorizar temas próximos às pessoas. Falhamos como ambientalistas quando levantamos tópicos teóricos que parecem sair do espaço sideral. Precisamos fazer a conexão entre a vida privada e o quadro maior. Quando faz sentido para as pessoas, inicia-se um movimento de pressão a líderes políticos e de negócios. É nessa combinação poderosa que se dão as grandes mudanças.

Valor: Acha viável a agricultura orgânica para um país produtor de commodities como o Brasil?

Solheim: Não sou especialista em agricultura. As plantas são diferentes e é preciso adaptar. Mas acredito que os princípios básicos podem valer em qualquer lugar.

Valor: Onde imagina mudanças rápidas em cidades asiáticas?

Solheim: Para que as mudanças ocorram rápido, é preciso ter cidadãos mobilizados, regular o mercado e ter soluções tecnológicas. Na Ásia há um enorme uso de motonetas para ir e voltar ao trabalho, com velocidade baixa. Pode-se ir exatamente na mesma velocidade com bicicletas elétricas, que são mais baratas. Se se derem incentivos, a mudança pode ser rápida. Carros elétricos estão ficando mais baratos. Na Índia, o governo está liderando ao comprar carros elétricos para a frota oficial. Na China espera-se a introdução de um milhão de veículos elétricos em 2020.

Valor: Como tornar produtos ecológicos acessíveis em países que têm ainda muita pobreza?

Solheim: Mudar o equilíbrio das taxas de modo que o carro elétrico fique mais barato comparado aos movidos a gasolina. Permitir que circulem nas linhas de ônibus para que o usuário chegue mais rápido. Não seriam medidas para sempre, mas ofertas importantes introdutórias. Não é diferente de um produto novo, no supermercado, que recebe um preço de oferta.

Valor: Na Nigéria, há poucos dias, 86 pessoas morreram por conflitos entre fazendeiros e criadores de gado. Como vê este drama?

Solheim: Pelo o que sei, a base são conflitos por água, então, providenciar mais água é a primeira resposta para o conflito. Energia solar pode ser uma solução para trazer água. As autoridades nigerianas estão muito preocupadas. Me disseram temer que mais gente morra na região por causa da água do que pelo Boko Haram [grupo terrorista islâmico].

A jornalista viajou ao Vietnã a convite de Internews Earth Journalism Network