Mudanças climáticas no cardápio

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Mudanças climáticas no cardápio

Quando pensamos em ganhar a briga contra a mudança climática, a maioria das pessoas se concentra na redução das emissões de gases-estufa por automóveis, caminhões e outras máquinas movidas a combustíveis fósseis. Mas, embora essas fontes de emissões certamente mereçam nossa atenção, outro culpado recebe uma parcela muito menor dela do que mereceria: nossos alimentos.

A sustentabilidade da agricultura e dos alimentos são peças importantes do quebra-cabeça da mudança climática, mas, no momento, dietas sustentáveis do ponto de vista climático não aparecem no cardápio. No mundo em desenvolvimento, cerca de 821 milhões de pessoas passam fome enquanto países ricos desperdiçam anualmente quantidade de alimentos suficiente para alimentar 750 milhões de pessoas.

É aí que entra a conexão entre comida e mudança climática: na medida em que as pessoas saem da pobreza - como ocorre com muitas -, passam a requerer mais carne e laticínios. Essa tendência tem implicações morais sobre a pegada ecológica da agricultura. Animais consomem mais alimentos do que produzem. As vacas liberam grandes volumes de metano, que aprisionam calor. E limpar terras para pastos libera uma taxa descomunal de dióxido de carbono. Se os setores de carne bovina e de laticínios fossem um país, seriam o terceiro maior país emissor de gases-estufa, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

Felizmente, existe uma solução: a de comermos menos carne e mais frutas e verduras. Reduzir o consumo de carne vermelha para duas vezes por semana diminuiria em 75% a área mundial de terra dedicada à produção agropecuária - uma extensão equivalente, em tamanho, aos territórios dos EUA, da China, da União Europeia (UE) e da Austrália somados. A medida, além disso, faria todo o sentido do ponto de vista nutricional. Atualmente, a pecuária ocupa cerca de 80% das terras cultiváveis do planeta, mas produz apenas 18% das nossas calorias. E, o que é pior, a criação animal representa uma ameaça ao nosso abastecimento de água; de acordo com o Instituto Internacional da Água de Estocolmo, o mundo poderá esgotar suas fontes de água doce até 2050, se as pessoas não reduzirem seu consumo de produtos animais para apenas 5% de suas necessidades calóricas diárias.

Os países ricos desperdiçam por ano quantidade de alimentos suficiente para alimentar 750 milhões de pessoas. A sustentabilidade da agricultura e dos alimentos são peças importantes do quebra-cabeça da mudança climática

Alguma coisa tem de mudar, e rápido; as celebridades certamente entendem isso. O guru do clima e ex-vice-presidente dos EUA, Al gore, que provém de uma família de criadores de gado, é atualmente vegano, juntamente com seu ex-chefe, o presidente dos EUA Bill Clinton. As estrelas do tênis Serena e Venus Williams, a cantora de música popular Beyoncé e muitos outros também estão reduzindo seu consumo de carne. Por seu lado, as escolas do mundo inteiro estão adotando "Segundas-Feiras sem Carne" para ensinar os alunos sobre sustentabilidade. Até mesmo a rede McDonald's começou a oferecer hambúrgueres McVegan na Escandinávia, arrancando aparentemente reações entusiasmadas dos críticos de gastronomia.

Recente estudo publicado pela Economist Intelligence Unit e pela Fundação Centro Barrilla de Alimentos e Nutrição (BCFN, nas iniciais em inglês) detectou que as políticas oficiais com relação à comida sustentável e ao desperdício de alimentos também estão mudando. Em 2016, por exemplo, a França se tornou o primeiro país do mundo a proibir o desperdício de alimentos pelos supermercados. A Itália adotou lei semelhante. Moradores de apartamentos na Dinamarca, onde o premiê Lars Lokke Rasmussen pôs o desperdício de alimentos na agenda política, jogam fora 25% menos comida do que cinco anos atrás.

O projeto SU-Eatable Life, uma iniciativa de três anos da Comissão Europeia que estou encabeçando em parceria com a BCFN, pretende demonstrar que as mudanças da dieta podem ter um efeito ecológico significativo. Dados mostram que, ao ingerir menos carne e desperdiçar menos alimentos, os consumidores europeus poderão reduzir o consumo de água em 2 milhões de metros cúbicos, além de baixar as emissões de CO2 em cerca de 5.300 toneladas anuais.

O que cada um de nós pode fazer, então, para apoiar esses esforços? Para começar, deveríamos consumir mais verduras e grãos, o que será bom para a saúde do planeta e para a nossa própria. Um estudo de 2017 realizado na França concluiu que os vegetarianos são, muitas vezes, mais saudáveis que os consumidores de carne porque têm uma dieta mais variada e consomem menos calorias.

Deveríamos nos alimentar de acordo com a Dupla Pirâmide Alimentar-Ambiental da BCFN, que recomenda alimentos que são ricos em valor nutricional e menos prejudiciais ao meio ambiente; as proteínas vegetais são as melhores. Aliás, em um mundo dominado por veganos, as emissões de gases-estufa pela agricultura seriam 70% mais baixas do que atualmente. Isso seria, efetivamente, muito bem-vindo. (Tradução de Rachel Warszawski)

Riccardo Valentini, professor de ecologia florestal da Universidade de Tuscia, ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2007 como membro do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática. Copyright: Project Syndicate, 2018.

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