Multinacionais surfam a onda de precificação interna do carbono

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Multinacionais surfam a onda de precificação interna do carbono

Em um relatório publicado em outubro passado, especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirmaram que serão necessários surpreendentes US$ 2,4 trilhões por ano até 2035 para evitar que, no próximo século, o planeta tenha um aquecimento superior a 1,5°C. Algumas empresas já começaram a ajudar a pagar essa conta astronômica comprando cotas de emissão de CO2. Mas o sistema de cotas é impopular, pelo menos na Europa, onde é visto como fardo. No entanto, uma iniciativa diferente tem sido bem sucedida desde a COP-21: a precificação interna de carbono - ou a colocação de um preço nas próprias emissões de carbono. 

Um número crescente de empresas demonstrou interesse em adotar essa medida. Segundo a organização internacional Carbon Disclosure Project (CDP), no ano passado, 782 grandes empresas em todo o mundo revelaram ter intenção de implementar um preço interno de carbono e 607 empresas já haviam tomado a iniciativa - oito vezes mais do que há quatro anos. 

As empresas multinacionais entendem que as mudanças climáticas podem ter impacto sobre seus negócios em todos os lugares onde operam. Os investidores estão cada vez mais preocupados com as consequências financeiras desse risco e estão ajudando a aumentar a conscientização. "É parte da conversa que temos com gestores e analistas de ativos", diz Claire Tutenuit, delegada chefe da associação francesa Entreprises pour l'Environnement (Empresas pelo Meio Ambiente, ou EpE). A Amundi, empresa francesa líder em gestão de ativos, transformou a precificação interna de carbono em parte de seus negócios. 

Definir um preço interno para o carbono, geralmente por meio de uma taxa, também é uma oportunidade para as empresas responderem a uma série de regulamentos e preços estabelecidos ou variáveis, onde quer que  façam negócios. Hoje, 20% das emissões mundiais de CO2 são cobertas por preços fixos de carbono, sejam eles estabelecidos pelo Estado, cidade, província ou federação. 

Mas no que diz respeito às empresas, Sébastien Postic, gerente de projetos do instituto de pesquisa francês I4CE, acredita que "muito poucas  se comprometem com esse sistema com o objetivo principal de melhorar seu desempenho". Ele identificou vários fatores motivadores que levam ao engajamento corporativo. Para bancos e seguradoras trata-se, principalmente, de se protegerem em relação a seus clientes, diz Postic.  Grupos industriais, segundo ele, têm o objetivo de reduzir ativamente suas emissões de CO2 para se protegerem do risco regulatório de possíveis adoções ou flutuações dos preços 'externos' do carbono. A resposta deles, o chamado "preço sombra", geralmente consiste em adicionar o preço interno do carbono ao custo de seus investimentos. 

O preço sombra, ou precificação virtual de carbono, é uma prática incentivada pelas principais instituições financeiras, como o Banco Mundial, o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) e o Banco Europeu de Investimento (BEI). Ele permite que as empresas garantam que seus projetos sejam sustentáveis, aumentando sua eficiência energética em países com probabilidade de definir ou aumentar o preço do carbono. Na China, por exemplo, os preços podem variar de US$ 1 a US$ 10 por tonelada, de uma região para outra. Essa faixa deve aumentar, considerando o plano ambicioso da China de reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. A Austrália é outro mercado em que vale a pena ser cauteloso, já que os investimentos de empresas estrangeiras são igualmente grandes. Lá, o preço do carbono depende de qual partido político está no poder e isso muda com frequência. 

Algumas empresas na França cobram internamente pelo preço do carbono que adotaram. O banco francês La Banque Postale está fazendo isso por meio de seus fundos de carbono, pagos pela precificação de sua pegada de carbono a US$ 8 por tonelada de CO2. Esses fundos financiam iniciativas internas para reduzir as emissões de CO2. Existe um plano de ação semelhante na Société Générale, onde o imposto interno sobre o carbono (US$ 11) financia iniciativas internas para melhorar a eficiência ambiental. Nos primeiros três anos, o sistema ajudou a reduzir as emissões da empresa em 1,4%. 

Os preços internos podem variar drasticamente de uma empresa para outra. Segundo a CDP, eles oscilam de US$ 1 a US$ 800 por tonelada de CO2. Tutenuit explica: "Muitas coisas dependem do horizonte de tempo de cada investimento. Quanto mais tempo houver, mais altos serão os preços". Como resultado, as grandes empresas que liberam grandes quantidades de CO2 na atmosfera são as que mais desejam surfar a onda. Na França, 67 empresas listadas na bolsa de valores de Paris adotaram um preço interno de carbono. Mas o sistema ainda tem que pegar entre as PMEs, já que seus investimentos não são grandes o bastante e raramente são internacionais.