Na Sibéria, um parque espera o retorno dos mamutes

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Na Sibéria, um parque espera o retorno dos mamutes

O derretimento do gelo permanente (permafrost) é, ao mesmo tempo, uma consequência e um gatilho das mudanças climáticas. À medida que as temperaturas globais aumentam, o degelo da massa de terra congelada da Sibéria libera metano, um poderoso gás de efeito estufa armazenado embaixo dela. Isso estimula ainda mais as mudanças climáticas e provoca mais degelo. Agora, uma equipe de cientistas russos está tentando impedir esse perigoso fenômeno cíclico com uma ideia original. Eles planejam restaurar o ecossistema da era glacial ao reintroduzir a tundra e grandes animais, como iaques, bisões ou até mamutes lanosos.

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no início de outubro, afirma que a elevação das temperaturas globais em 1,5°C acima dos níveis pré-industriais resultará no descongelamento de 4,8 milhões de quilômetros quadrados de gelo permanente -- número que pode subir até 6,6 milhões de quilômetros quadrados se o aquecimento atingir 2°C. Hoje, a área de superfície do gelo permanente é de cerca de 23 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo a Sibéria, o Alasca, o Ártico canadense e algumas outras regiões montanhosas. Isso equivale a um quarto de todo o Hemisfério Norte.

A maioria das áreas permanentemente congeladas do mundo estão na Rússia, cobrindo de 50% a 65% do território do país, dependendo da estação. De acordo com um relatório recente do Ministério de Recursos Naturais e do Meio Ambiente da Rússia, o aquecimento global está ocorrendo mais rápido na Rússia do que na maioria dos outros lugares do planeta. De 1976 a 2017, as temperaturas médias anuais na Rússia aumentaram 0,45°C a cada dez anos, em comparação aos 0,18°C no planeta como um todo.

Essas mudanças resultaram no aquecimento e no recuo do gelo permanente russo - de até 100 km no norte, segundo um grupo de cientistas da Universidade George Washington, do Instituto Hidrológico, de São Petersburgo, e do Instituto Earth Cryosphere, de Moscou. Eles dizem que um aumento das temperaturas globais em apenas 1°C corresponderá a uma diminuição do gelo permanente do tamanho da Mongólia ou até mesmo da Groenlândia.

Pesquisadores dizem que o custo direto da degradação do gelo permanente é de vários bilhões de dólares por ano. O derretimento do gelo permanente já afetou casas e infraestrutura no Ártico russo.

"Temos que reconhecer que perderemos uma certa porcentagem do gelo permanente. Na maioria dos lugares, a massa de terra congelada se tornará mais rasa e a linha do tempo do degelo, incluindo o degelo temporário no verão, se tornará mais longa", diz Alexey Kokorin, chefe do Programa de Clima e Energia da WWF Rússia. Ele diz que uma solução para o problema é a adaptação a novas condições, incluindo o fortalecimento ou a substituição da infraestrutura existente.

Nikita Zimov, cientista russo de 35 anos, tem outra ideia. Ele vive com sua família em uma estação de pesquisa científica no Nordeste da República de Yakutia, acima do Círculo Polar, desde os dois anos de idade. Depois de se formar na Universidade de Novosibirsk, ele voltou a trabalhar na estação. Juntamente com seu pai, Sergey Zimov, ele desenvolveu o conceito de recriar um ecossistema do Ártico tal como ele era antes de os humanos aparecerem - com estepes de tundra com pastagens altamente produtivas.

Nikita Zimov explica: "Estamos tentando reintroduzir grandes animais, cuja presença também dará suporte ao crescimento da grama, que reterá o CO2 da atmosfera e o devolverá ao solo. Os animais também pisoteiam a neve, tornando-a mais densa e permitindo um congelamento mais profundo durante o inverno, evitando o degelo do permafrost". Como as pastagens seriam mais claras que o atual ecossistema de arbustos baixos e terras úmidas, a solução proposta também poderia reduzir o efeito do albedo (que estabelece que as superfícies escuras do planeta absorvam mais luz solar e as superfícies mais claras reflitam-nas de volta à atmosfera).

Em 1996, Sergey Zimov iniciou um projeto no Parque Pleistoceno, uma área de 144 km2 próxima à estação de pesquisa e a 150 km do Oceano Ártico. Hoje, o parque abriga mais de cem animais que vivem em um território protegido de cerca de 20 km2, incluindo iaques, ovelhas, renas, cavalos yakutianos, vacas de Kalmyk, bisões europeus e bois-almiscarados.

O Zimov mais jovem diz que eles queriam importar bisões americanos do Alasca (eles habitaram a Sibéria há muito tempo), mas o parque não encontrou soluções de transporte a preços acessíveis. Agora eles estão tentando localizar bisões americanos em outras partes da Rússia.

Em 2013, Sergey Zimov se encontrou com George Church, um cientista da Universidade de Harvard. A equipe de Church vem tentando trazer de volta os mamutes lanosos, implantando DNA encontrado no gelo do Ártico em elefantes asiáticos. Se esse projeto obtiver êxito, os Zimovs esperam que os primeiros mamutes lanosos venham morar no Parque Pleistoceno.

Até agora, os criadores do parque contaram com suas próprias economias e campanhas de financiamento coletivo para financiar o projeto. "Eu observo os efeitos do aquecimento global no parque, especialmente nos últimos três anos", diz Nikita Zimov. "Com nossa iniciativa, estamos tentando mostrar como podemos potencialmente interromper ou retardar esse processo e também apresentar essa solução ao mundo. Esperamos que, uma vez bem-sucedida, ela possa ser reproduzida em outras regiões no Norte do planeta".