Nova devastação (não tão nova)

Publicado em 29/08/2019 por Lúcio Flávio Pinto

A prova mais angustiante e grave de que os desmatamentos e queimadas estão avançando por áreas até então ainda intocadas da floresta nativa da Amazônia está registrada na matéria divulgada agora. a partir de informações do jornal O Estado de S. Paulo. Podem ser criminosos (e devem ser mesmo) os incêndios desencadeados no sul do Amazonas, avançando para o norte, o último reduto da floresta nativa íntegra da região.

Essa frente avança em velocidade e ferocidade crescentes há mais de cinco anos, sem que a sociedade, a imprensa e, principalmente, o governo, que estimula – indiretamente e diretamente – o saque. Acompanhando por terra o fluxo de mercadorias pelo rio Madeira, principalmente de soja, ela perdeu escrúpulo, pudor e temor com o anúncio do presidente Jair Bolsonaro de asfaktar a BR-219, a Manaus-Porto Velho.

O tema já foi comentado várias vezes neste blog, sem atrair manifestações. Por isso, reproduzo a matéria:

 O fogo que se alastra pela região sul do Amazonas, uma das áreas com mais focos de incêndio hoje em toda a Amazônia, pode ter sido motivado por fazendeiros locais, segundo moradores relataram ao jornal O Estado de S. Paulo. Em Santo Antônio do Matupi, na altura do km 200 da Transamazônica, a reportagem flagrou um incêndio de grandes proporções na terça-feira, 27, que avançava pela floresta.

A área pertence ao município de Manicoré, que registrava 355 focos de queimadas, o maior número no Estado, segundo os dados mais atualizados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Ao se aproximar da queimada por uma pequena estrada de terra, a reportagem conseguiu conversar com dois donos de sítios. Ambos, inconformados com a queimada, afirmaram que, ao meio-dia, foram avisados por donos de outras propriedades locais de que eles deviam se preparar, porque iriam tocar fogo em toda a área. E assim teriam feito. Quando a reportagem chegou ao local, por volta das 14 horas, as chamas já tinham queimado todas as áreas abertas dos sítios e avançavam de forma descontrolada para a floresta.

O produtor rural José Silva de Souza diz que teve de retirar seus cavalos às pressas. “O que está acontecendo aqui é que os caras passaram em casa meio-dia, dizendo que iam atear fogo. Quando eu cheguei aqui, já estava esse fogaréu todo”, disse Souza. “Consegui retirar meus cavalos. Não pude fazer mais nada.”

Questionado sobre a autoria do fogo, Souza apontou proprietários de terras vizinhas como responsáveis. “Foram eles (fazendeiros vizinhos) que mandaram avisar que iam tocar fogo. Não tem como dizer que foi outro. Mandaram ir lá em casa avisar que iam atear, ao meio-dia”, afirmou o produtor rural.

O anúncio do incêndio pelos produtores locais também foi confirmado à reportagem pelo dono de outro sítio vizinho, conhecido como Cabral, que preferiu não gravar entrevista. Ele também disse que foi avisado pelos vizinhos da propriedade sobre o fogo, que àquela altura já havia avançado sobre suas terras e sobre parte da floresta. “Não podem fazer isso aqui, desse jeito. É ilegal”, declarou.

Sobre os motivos de alguns fazendeiros incendiarem as áreas, Cabral disse que o objetivo desses proprietários é “limpar” a vegetação para a pastagem. “A ideia é retirar toda a vegetação que esteja sobre a mata e, em seu lugar, manter apenas a grama para o gado”, afirmou. A prática é comum e ocorre todos os anos, segundo ele.

Neste ano, porém, conforme relatos recolhidos pela reportagem com diversos moradores da região, houve um aumento descontrolado dessa prática motivada pela percepção de que a fiscalização estaria mais branda.

Revolta

Moradores e pequenos empresários locais de Santo Antônio do Matupi e região afirmam ainda que há vários produtores locais indignados com a criação, nos anos mais recentes, de unidades de conservação ambiental pelo governo federal. São muitas as situações de fazendas e sítios que não têm regularização fundiária.

Com a criação de unidades de conservação, parte dessas propriedades foi incluída nos territórios das florestas protegidas, ficando em situação irregular. Vários chegaram a negociar indenizações com o governo, mas ainda não receberam o dinheiro. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.