Onda de vendas volta a abater Wall Street

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Onda de vendas volta a abater Wall Street

Michael Nagle/Bloomberg

Wall Street vive pregão de fortes perdas; índice de volatilidade VIX dispara, com alta de mais de 40% no fechamento

Os mercados financeiros tiveram ontem uma sensação de "déjà vu" em relação ao começo do ano, depois de uma onda de vendas varrer ações em Wall Street e na Europa. Como ocorreu em janeiro e fevereiro, investidores saíram do mercado de ações conforme os juros dos Treasuries retomavam a trajetória de alta. Mas a aversão a risco assumiu tamanha proporção que, no fim do dia, as taxas da dívida soberana americana viraram para baixo, num claro reflexo da busca por segurança.

Para se ter ideia, o índice Dow Jones, um dos três principais do mercado acionário dos EUA, caiu 832 pontos apenas ontem, a terceira maior queda em pontos da história. O índice recuou 3,15%, aos 25.598,74 pontos. A baixa é a mais intensa desde o último dia 8 de fevereiro. A pontuação é a menor desde 16 de agosto passado.

O S&P 500 fechou com desvalorização de 3,29%, aos 2.785,68 pontos - pior sessão desde 8 de fevereiro passado e o menor patamar desde 11 de julho. Mas foi o Nasdaq Composto, com grande peso de ações de empresas de tecnologia e internet, que liderou as quedas. O Nasdaq caiu 4,08%, aos 7.422,05 pontos. É a maior queda desde 24 de junho de 2016. O índice voltou ao menor nível desde o último dia 29 de maio.

O índice de volatilidade VIX, espécie de métrica do "medo" do mercado, saltou mais de 40% no fechamento, maior elevação desde fevereiro.

Investidores decidiram embolsar lucros com setores que mais ganham no ano (tecnologia em destaque) devido ao aumento das preocupações com os lucros corporativos. Receios em relação à guerra comercial entre China e EUA, alta dos juros dos Treasuries e desaquecimento da economia global pesaram sobre ativos que se beneficiam de expansão econômica, como ações e commodities.

As preocupações com a China têm sido citadas como um dos pontos mais relevantes de cautela para o mercado. Ontem, empresas do setor de luxo na Europa e nos EUA tiveram fortes quedas, após a LVMH - dona das marcas Louis Vuitton, Christian Dior e Dom Pérignon - alertar sobre a desaceleração da demanda dos consumidores chineses e confirmar especulações de que autoridades alfandegárias do país asiático estão apertando o cerco contra compras de bens de luxo por parte de viajantes que retornam à China.

Ainda na Europa, outro alerta afetou o setor de semicondutores - também bastante exposto à China. O grupo suíço VAT Group reduziu o número de horas trabalhadas de funcionários citando menor demanda de fabricantes de chips, das quais é fornecedor.

Os receios de investidores voltaram à tona desde que, nesta semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou as previsões para o crescimento econômico global para este ano e 2019. O organismo citou os efeitos prováveis da guerra tarifária entre China e EUA. Também nesta semana, o presidente americano, Donald Trump, voltou a ameaçar Pequim com novas taxações, indicando que um término da guerra comercial parece ainda distante.

Para analistas, o que fica do novo "sell-off" dos mercados é a sensação de fragilidade da recente valorização dos preços. Segundo Mohamed El-Erian, um dos mais respeitados nomes do mercado financeiro, é "uma pena e fora da realidade" que os mercados dependam de indicações mais "dovish" do Federal Reserve (Fed, BC americano) para continuarem em alta. "No longo prazo, o que o mercado precisa é de fundamentos e não de injeções de liquidez pelo Fed", afirmou em sua conta no Twitter.

As palavras de El-Erian vieram justamente no dia em que o presidente Trump voltou a criticar as altas de juros lideradas pelo Fed. Hoje, o debate sobre quão longe o Fed poderá ir no aperto monetário ganhará corpo com a divulgação do índice de preços ao consumidor dos EUA referente a setembro. A expectativa é que, em 12 meses, o núcleo do índice tenha acelerado a alta para 2,3%, de 2,2%. A taxa atual já está acima da meta do Fed, de 2%.

Outros mercados sentiram o baque das ações. Em meio à queda generalizada das bolsas de valores, o petróleo tombou com o aumento da aversão a risco. Na Nymex, em Nova York, o petróleo WTI (novembro) terminou em queda de 2,39%, a US$ 73,17 o barril. Na ICE, em Londres, o petróleo Brent (dezembro) recuou 2,25%, a US$ 83,09 o barril. No fim da tarde, na negociação estendida, os futuros ampliaram as perdas para mais de 3%, após dados mostrarem aumento de 9,7 milhões nos estoques de petróleo nos EUA, de acordo com uma fonte, que citou números da API. (Com agências internacionais)