Presidente da Abag teme boicote da Europa à produção do agronegócio do Brasil

Publicado em 26/08/2019 por Jornal Opção

O goiano Marcello Brito, CEO da Agropalma, relata que o agronegócio representa 1,2 trilhão por ano, mas pode ser prejudicado por falas e ações de Bolsonaro
Por Euler de França Belém
O presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e CEO da Agropalma, o goiano Marcello Brito, é uma voz racional, sensata e bem informada sobre a questão do agronegócio no país. Recentemente, participando de um debate com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) Ricardo Galvão — mediados por Renata lo Prete, da GloboNews —, mostrou-se tanto ponderado quanto bem informado. Na quinta-feira, 22, concedeu uma entrevista de página inteira à repórter Daniela Chiaretti, do jornal “Valor Econômico”, sob o título de “Desmatamento afeta imagem do país e causa preocupação”.
O presidente Jair Bolsonaro adotou uma retórica anti-ambientalista e, aparentemente, estaria falando em nome de setores do agronegócio e de empresas de outros setores, como mineradoras. Em suma, seria um “liberal” (fora do lugar, por certo) falando na “abertura” da economia. Mas o agronegócio, ao menos o moderno, não pensa da mesma forma. Heterodoxo, Marcello Brito frisa que, “se o presidente insiste em dizer que ambiente não é o foco dele, passa-se a percepção ao pessoal que pode desmatar”.
Marcello Brito, presidente da Abag e CEO da Agropalma: as ONGs, players da economia, são benéficas ao Brasil
Marcello Brito relata que duas publicações alemãs, a revista “Der Spiegel” e o jornal “Die Zeit”, influentes na Europa, sugerem que “já é hora de começar o boicote dos produtos brasileiros”. Um dos artigos vocifera: “A Europa não deve ficar de braços cruzados enquanto um preconceituoso, cético da ciência, movido pelo ódio, sacrifica vastas áreas de florestas para pecuaristas e plantações de soja”. O presidente da Abag pontua: “Os caras já estão atacando a soja”.
Crise na Europa
Ao contrário do que o bolsonarismo parece pensar, “a Europa é um enorme comprador de produtos brasileiros. Falam: ‘Ah, não, é pequena’. Só de soja são mais de 5 bilhões de dólares ao ano. Ou seja, falar que se pode abandonar a Europa é uma bobagem. E o segundo ponto é mais importante: a Europa continua ditando as tendências do consumo mundial”, assinala Marcello Brito.
Os chineses também entraram na vibe ambiental. “O presidente da Cofco [Chi Jingtao], que é o maior comprador do agro brasileiro, disse que a empresa se tornou sustentável e tem compromissos verdes. Disse que acabou de pegar um empréstimo de 2,3 bilhões de dólares com contrapartida socioambiental e que vai monitorar sua cadeia de suprimento no mundo todo. Uma pesquisa diz que 47% da população chinesa entre 18 e 30 anos coloca como primeiro item decisivo de compra de um produto sua rastreabilidade socioambiental.”
Agronegócio brasileiro, realça Marcello Brito, está preocupado com aquilo que pensam europeus e chineses — grandes compradores de comodities brasileiras. “Você não tem ideia”, sublinha o presidente da Abag.
“Temos de parar com esta mania de achar que o Brasil é o único produtor mundial e que, se a gente não fornecer, ninguém o fará. A lei de mercado é clara: deixe um espaço vazio e alguém vai ocupá-lo. O foco dos próximos anos não é produzir o que a gente quer, mas o que o mercado demandar”, destaca Marcello Brito.
Ante o discurso de Bolsonaro, talvez por conhecer pouco a modernização do agronegócio patropi, o que fazer? “Tentar reverter, o máximo possível, os danos.”
O CEO da Agropalma observa que “o principal índice de detração negativa do Brasil no exterior, que são as matérias contrárias ao agronegócio no Brasil, é desmatamento. O segundo são os agroquímicos. O terceiro são as ameaças aos povos indígenas”.
É uma questão de tempo que alguns países, sobretudo os mais ricos — os principais compradores —, comecem a deixar de adquirir produtos do Brasil. E pode se tornar uma bola de neve. É a percepção de Marcello Brito, que, evidentemente, não é nenhum ecoxiita; ao contrário, é um empresário — da liga dos modernos. “O relacionamento que se quebra é muito mais difícil de reconstruir. Vai custar caro ao Brasil reconquistar a confiança de alguns mercados internacionais. (…) Não adianta brigar contra o mercado de consumo. É ele que dá a ordem.” Nos países mais desenvolvidos, “mais e mais pessoas estarão olhando a rastreabilidade do produto que irão comprar”.
Assim como parte da direita que milita nas redes sociais, Bolsonaro é um crítico de “excessivas” terras para os indígenas. Mas o agronegócio precisa de mais terras? Marcello Brito, defensor do agronegócio, afirma que não. “Não precisa e discordo frontalmente. Temos terras demais. Por que precisamos entrar l?” O país não ganha nada com o discurso de que é preciso “pegar” terras indígenas para o agronegócio ou mineração.
Sobre a questão climática, há vários discursos. Um deles, formulado inclusive por cientistas, aponta que há um certo catastrofismo: a situação não seria tão dramática. Mas a maioria dos cientistas — inclusive os mais influentes —, baseados em pesquisas amplas e detalhadas, sugere que o problema climático é sério, até muito sério. Marcello Britto não articula com os adeptos de que os problemas não são graves. “Ciência para mim tem muita importância. Acredito na interferência humana na mudança climática. Não vejo como o nosso setor pode evoluir de forma sistemática sem implementar as novas ferramentas que a tecnologia nos dá para quebrar paradigmas de produção”, anota o dirigente da Agropalma.
Marcello Brito, que se inclui entre os defensores da Amazônia, afirma que os brasileiros precisam ter orgulho de o país ter a “maior floresta tropical do mundo”. Precisamos, comenta, “dar a ela o melhor tratamento que a bioeconomia pode oferecer. A riqueza bioeconômica da floresta amazônica é incalculável”.