O que realmente está por trás do adiamento das importações indonésias de Su-35?

Publicado em 08/10/2018 por Sputnik

Sabe-se que as armas russas são bem valorizadas no mundo: a geografia das entregas russas de equipamentos militares se estende da América Latina até o sudeste da Ásia, ou seja, cobre a maior parte do globo. Ao mesmo tempo, não é segredo nenhum que isso não agrada às empresas ocidentais.

Recentemente, o novo alvo de "ataques" por cooperar com os russos foi a Indonésia, que planejava receber 11 caças russos Su-35 em outubro, mas de repente suspendeu as entregas devido a possíveis sanções por parte dos EUA, medida que o país já aplicou ou planeja aplicar em relação aos parceiros comerciais russos na área de defesa.
Contrato adiado
Vale ressaltar que o acordo, cujo valor total é de mais de 1 bilhão de dólares, era de grande interesse para o país asiático, porque metade desse valor deveria ser paga através do fornecimento de produtos alimentícios, tais como óleo de palma, borracha e café.
Atualmente, a Força Aérea da Indonésia desfruta de três tipos de caças polivalentes — todos são de quarta geração — 29 aviões estadunidenses F-16, 11 caças russos Su-30 e 5 caças russos Su-27. A compra dos outros onze Su-35 poderia aumentar significativamente a parcela da aviação russa no país asiático.
Em uma conversa com a Sputnik Mundo, o especialista do Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências da Rússia, Aleksei Drugov, apontou que todas as sanções que Washington vem introduzindo, em nome da chamada luta pelos direitos humanos e pelo direito internacional, na realidade procuram criar uma situação favorável para os monopólios americanos.
"Se a Indonésia não comprar os aviões da Rússia, então vai comprar os F-16 dos EUA em dois ou três anos. Temos que manter essa característica da política de Trump em mente: onde quer que sejam aplicadas sanções, aí podem ser observados rastros dos interesses os Estados Unidos", disse.
Deste jeito, Washington busca garantir os interesses de seus conglomerados aeronáuticos, já que a alternativa à aeronave russa da empresa Sukhoi é principalmente o F-16 dos EUA, reiterou o especialista.
Casos de resistência
Porém, Aleksei Drugov também deu o exemplo da Índia, que acabou de assinar ontem (5) um acordo de fornecimento de sistemas russos S-400, apesar das mesmas preocupações em relação à reação de Washington. Desta forma, o país se tornou o terceiro comprador destes sistemas antiaéreos, além da China e da Turquia.
"Nova Deli não está preocupada com as sanções dos EUA. A Indonésia, sendo um país que se identifica como uma potência, precisa pensar em como sua rejeição é vista em comparação com a decisão da Índia. Os políticos indonésios valorizam a soberania do seu país e eu acho que vão refletir muito sobre isso", explicou o entrevistado.
Hoje, os indonésios recordam inclusive o embargo contra as importações de armas que os Estados Unidos impuseram a Jacarta nos finais de 1999. De acordo com o especialista, isso aconteceu porque o regime de direita do presidente indonésio Suharto se tornou desnecessário por ter ocorrido a dissolução da URSS e o consequente desaparecimento da "ameaça comunista". Entretanto, vale relembrar que a decisão estava inclusive ligada à situação crítica em torno de Timor-Leste, que optou pela independência no mesmo ano como resultado de uma enorme pressão internacional contra o governo indonésio.
Presença russa na região
Moscou vem tentando restabelecer boas e estreitas relações com os países do Sudeste Asiático após a dissolução da União Soviética, em particular com a Indonésia.
Durante sua visita à Rússia, em março, o ministro das Relações Exteriores do país, Retno Marsudi, disse que as relações entre os dois países podem ser consideradas estratégicas.
Em dezembro de 2017, dois bombardeiros estratégicos russos Tu-95MS realizaram manobras e aterrissaram na Indonésia no âmbito de uma visita internacional que marcou uma nova página nas relações militares entre os dois países.
Segundo Drugov, há uma rivalidade pela presença no sudeste da Ásia, especialmente entre os Estados Unidos e a China.
"A presença da Rússia na área estabeleceria um equilíbrio na região, uma vez que não iria contrariar nenhuma das partes, todos os países pacíficos da região estariam interessados nele", disse o interlocutor da Sputnik.
Além disso, ele destacou que a cooperação militar entre a Indonésia e a Rússia não deve ser superestimada, bem como os benefícios estratégicos que Moscou poderia obter com essa cooperação. A coisa é que a Indonésia desfruta de uma doutrina específica de política externa que implica uma cooperação limitada com outros países na esfera militar.
"É pouco provável que Moscou queira estabelecer sua presença militar no país, especialmente depois que a Rússia se retirou de sua base no Vietnã. Não se pode prognosticar isso para um futuro próximo, porque a Síria já é suficiente para nós", resumiu.