Relatório da ONU alerta: há 33 milhões de obesos no Brasil. Isto também é insegurança alimentar

Publicado em 12/09/2018 por Bom dia Brasil

---- Vi que você estava compenetrada na leitura, não quis atrapalhar. Qual o livro? - perguntou meu vizinho, professor aposentado que durante o regime da ditadura militar chegou a ser preso e torturado e, hoje, passa o tempo fazendo muitos exercícios, caminhando bastante, organizando a casa onde mora com a esposa.

Mostrei-lhe a capa de "Valsa Brasileira - do boom ao caos econômico", escrito pela economista Laura Carvalho, editado pela Todavia, e fiz boas recomendações porque o livro, de fato, tem sido uma importante fonte de reflexão. Vicente olhou sem muito entusiasmo, balançou a cabeça e, do alto de suas sete décadas (e alguma coisa a mais) de vida, vaticinou:

--- Pode ser bom. Mas, vou lhe dizer: se a autora não der uma resposta à grande pergunta da nossa sociedade atual, não vai me acrescentar nada.

Eu tinha pressa, assim como Vicente. Por isso, nossa conversa precisava ser curta. Deixei um silêncio no ar, à espera do que seria a "grande pergunta" dele.

---- Como é que vamos conseguir alimentar mais de 7 bilhões de pessoas sem estragar tudo? Como é que o planeta vai conseguir fornecer produtos para tanta gente?

---- A meu ver, a pergunta não é esta, Vicente. Alimentos há. O que falta é consciência na hora de distribuí-los e dinheiro para comprá-los porque estão cada vez mais caros.

Falei, já me despedindo, deixando em Vicente um ar de dúvida que me fez bem. Adoro quando, de uma conversa, surgem questões, não verdades. É sinal de que o pensamento ganhou espaço, não foi jogado fora como um dogma qualquer. Sinal de que há espaço para criar a partir daí.

Talvez não tenha sido coincidência, talvez Vicente tenha trazido o tema porque já tivesse tido acesso à notícia veiculada hoje na sede da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), em Roma, quando foi divulgado o mais recente relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo. Nele, a notícia que causa mais desconforto é a que dá conta de que hoje ainda existem 821 milhões de pessoas no mundo que passam os dias sem ingerir nenhum tipo de alimento. Este número tem crescido nos últimos três anos, segundo a exposição do brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO e ex-ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome entre 2003 e 2004.

A boa notícia - se é que se pode chamar assim - do relatório, para os brasileiros, é de que a fome, por aqui, tem estagnado nos 2,5% da população, algo próximo a 5 milhões de pessoas. Mas a notícia ainda pior é que existem 33 milhões de pessoas que estão obesas. No mundo, este número é de 672 milhões, o que significa 1 em cada 8 adultos.

Pode parecer, mas não é paradoxal. Pode parecer, mas a obesidade não é melhor do que a subnutrição, e também é caso de insegurança alimentar. Trata-se de uma doença, e causa tanto mal quanto a outra. Por uma estranha e sórdida coincidência, o programa Fome Zero, lançado em 2003 pelo governo Lula, tirou 36 milhões de pessoas da fome. Um número bem parecido com o que hoje agiganta a preocupação daqueles que entendem a nutrição equilibrada como uma das marcas da saúde. Estamos longe dela, como se vê pelo relatório.

Em entrevista para a Rádio ONU, a especialista em nutrição das Nações Unidas Ana Kepple, apontou as causas que podem levar à obesidade, fenômeno tão crescente no Brasil. Segundo ela, e isso não é difícil de se constatar, os alimentos mais nutritivos, os mais frescos, são mais caros, o que os torna de difícil acesso aos pobres.

"Uma alimentação saudável tem que ter produtos frescos, integrais, e muitos desses são mais caros. Sem dinheiro, as pessoas acabam optando pelos processados, que têm mais gordura, açúcar, maior densidade calórica. Outra explicação para a associação entre a insegurança alimentar e obesidade é que a vulnerabilidade promove ansiedade, estresse, o que também pode levar ao aumento do consumo desse tipo de alimento com maior densidade calórica e pode levar a padrões de alimentação também desordenados, por exemplo, de exagerar no consumo quando tiver acesso aos alimentos. Tem outro fenômeno menos conhecido, mas igualmente importante: quando a grávida está desnutrida ocorrem adaptações fisiológicas que deixam a criança com mais risco de obesidade quando adultos. Além disso, a criança que nasce com baixo peso, se consegue sobreviver, terá mais risco de sofrer de obesidade quando adulta", explicou Ana Kepple.

Há uma semana, durante o lançamento do Atlas do Agronegócio pelas fundações Rosa Luxemburgo e Heinrich Boll, este tema, da maior dificuldade de acesso aos bons alimentos, foi debatido pelos convidados ao lançamento do Atlas. As causas da obesidade estão, segundo este estudo, diretamente ligadas ao excesso de uma alimentação oferecida pelas grandes empresas de alimentos como algo saudável, mais saudável do que os frescos, o que não é verdade. Há uma conscientização maior da sociedade sobre o que deve ser uma alimentação mais saudável, mas erroneamente se confunde com os lights, diets, zero e free que vêm embalados em saquinhos.

"A conscientização sobre os impactos do sistema agroindustrial na alimentação vem criando um novo nicho de mercado onde os alimentos orgânicos e naturais vêm sendo transformados em produtos gourmet", diz o relatório.

Além de tais produtos gourmet serem mais caros, tornando-os menos possíveis para quem está na base da pirâmide social, eles também mascaram o que pode ser, de fato, mais saudável: alimentos frescos. Há um interessante documentário que também destrincha muito bem o assunto, chamado "Muito Além do Peso", da Maria Farinha Filmes, lançado há cinco anos mas atualíssimo.

Em "Muito Além do Peso" há uma cena inesquecível para mim: uma criança que mora na Amazônia, ou seja, cercada de bens naturais, sofre de obesidade, com todos os males e sequelas recorrentes. A questão, ali, como explica a mãe, é que o menino só quer comer salgadinhos e doces comprados na mercearia. É um caso extremo, mas que pode muito bem ilustrar o problema.

Voltando ao caso da desnutrição, os motivos apontados pelo novo relatório da ONU não são muito diferentes dos estudos feitos em outros anos. Os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas - seca e tempestades - são um dos grandes fatores que pesam muito para diminuir o acesso aos alimentos. Além disso, conflitos internos, sobretudo nos países africanos e na Ásia, e a desaceleração econômica, que causa pobreza, desigualdade e fome.

Um dado, especialmente, pela sua carga de dramaticidade, chama a atenção no estudo da ONU: em Angola, 24% da população não tem acesso a alimentos. Mas, ainda assim, há o que comemorar, já que este número era muito pior há dez anos: caiu pela metade. O sinal vermelho está aceso, no entanto, porque, segundo Ana Kepple há um acentuado aumento nos últimos dois, três anos.

Não dá para dormir em paz com esta informação.