Ruben Figueiró: "Só meu sangue é alemão"

Publicado em 11/06/2018 por Correio do Estado

OPINIÃO

Ruben Figueiró: “Só meu sangue é alemão”

Ruben Figueiró é ex-senador da República

Na semana que passou, de tantas atribulações, ficou marcado, com o fim da greve dos caminhoneiros, que o nosso Brasil está às vésperas da eclosão de outros movimentos capazes de abalar a sua saúde democrática.

Ainda naquela semana, entre as várias implicações, assisti a uma senhora explodir de indignação contra tudo e contra todos, especialmente contra a política governamental e mais contra políticos sem distinção de cores partidárias.

Diante da exprobração e eu sem condições de convencê-la de que nem tudo está perdido, eis que há gente de bem capaz de dar rumo certo à política e à administração pública, perguntei-lhe qual a sua idade. Respondeu-me rispidamente: “60 anos!”... Então, respondi-lhe: “Eu 86 e tenho convicção nos dias futuros de nosso país e a minha confiança está nas urnas do próximo dia sete de outubro, quando o eleitor estigmatizará o voto nulo, os aventureiros do autoritarismo e os aventureiros do poder pelo poder”.

Perdoem-me caros leitores e leitoras pelo excerto inicial deste escrito. A minha intenção era de relatar fatos que vêm agora a minha memória ocorridos no século passado, entre o fim da década dez e o início da de sessenta. Assumira a Intendência (era designação que se dava à prefeitura) de Campo Grande o eng. Arnaldo Estevão de Figueiredo (de rica trajetória política em Mato Grosso uno). Como agrônomo, tinha larga visão sobre as terras do município consideradas ferazes para agricultura e, numa atitude pioneira, criou duas colônias agrícolas na região conhecida como Terenos, hoje município.

Para lá, conseguiu das então autoridades federais trazer imigrantes europeus vocalizados para o amanho da terra. Vieram alemães e agricultores oriundos da região dos Bálcãs – checos, húngaros e búlgaros que aqui se fixaram, afeiçoaram-se à terra e estenderam suas famílias. Entre eles, como descendente estava o brasileiro Hans Peters Backenneimer, filho de alemães.

Agora sua épica trajetória. Com ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, criando o 3º Reich, gerando otimismo entre seu povo e aqueles que viviam mundo a fora, o pai de Hans Peters mandou-o estudar na pátria distante.

Não decorreu muito tempo e, com a eclosão da 2ª Guerra Mundial e a decepção do jovem Hans com o regime nazista, ele resolveu voltar ao Brasil. Aí, as dificuldades surgiram para a viagem de regresso, até que ele encontrou refúgio em porão de um navio cargueiro de bandeira brasileira, isso no porto de Hamburgo, e assim chegou ao Rio de Janeiro.

Descoberta a sua façanha, esta constituiu espetaculosa matéria jornalística, bem explorada pelo jornalista (famoso na época) David Nasser, ao escrever um livro sobre o episódio corajoso de Hans Peters sob o título “Só meu Sangue É Alemão”, de larga triagem na ocasião.

Hans Peters voltou para Terenos, sua terra natal. Lá, dedicou-se o labor da terra, constituiu família e, motivado pelos seus sentimentos democráticos, ingressou na luta contra a ditadura de Vargas, no Estado Novo, e como político ativo da União Democrática Nacional (UDN) foi eleito vereador com atuação marcante. Sua atuação política, firme e destemida, gerou adversários e de um deles foi vítima de uma traiçoeira emboscada, ferido de morte, quando regressava de Terenos à sua propriedade rural.

Fui companheiro e amigo de Hans Peters e dos poucos que lhe renderam homenagens póstumas, homenagens que mantenho ainda nestes instantes de minha vida, quando hoje muitos estão sem esperanças e tendem a crer que não há saída democrática para o nosso Brasil.