Safra ensaia retorno à telecomunicação

Publicado em 11/07/2018 por Valor Online

Safra ensaia retorno à telecomunicação

Muito mais conhecido por sua atuação no ramo financeiro, o Grupo Safra ensaia um retorno ao setor brasileiro de telecomunicações. Na edição de sexta-feira, dia 6, do "Diário Oficial da União", a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) publicou autorização para a empresa J. Safra Telecomunicações explorar serviços de telecomunicações por meio de uma operadora de rede virtual móvel (MVNO, na sigla em inglês). Esse tipo de operadora não possui rede própria nem frequências, pois utiliza a infraestrutura de outras empresas de telecomunicações.

No caso da J. Safra, a empresa assinou contrato de dez anos para uso da rede da Claro, segundo apurou o Valor. A autorização da Anatel abrange a prestação de serviço de telecomunicações móvel em todo o território nacional por tempo indeterminado.

A Claro confirmou, por intermédio de sua assessoria de imprensa, a assinatura de contrato com a empresa do Grupo Safra relacionado à autorização expedida pela Anatel. "Por política da empresa, não comentamos contratos específicos de clientes", acrescentou a tele em posicionamento enviado por e-mail.

A investida não é a primeira do grupo em telecomunicações. No Brasil, o banco fez parte do consórcio que arrematou, em 1997 - antes mesmo da privatização do Sistema Telebras - a operadora de telefonia móvel BCP. Com atuação em São Paulo e no Nordeste, a BCP tinha como principais acionistas o Grupo Safra e a americana Bell South, cada um com 42,5% do capital. A companhia acabou sendo vendida, em 2003, para o grupo mexicano Telmex, incorporado depois à holding América Móvil, que no Brasil engloba as marcas Claro, Embratel e Net.

No ano passado, o Safra chegou a figurar entre os principais acionistas da Oi, com a aquisição de papéis da operadora pelo Virgo Fundo de Investimento Multimercado. O veículo de investimento chegou a deter 16,11% dos papéis preferenciais da Oi - o equivalente a 3,08% do capital da companhia - em março do ano passado. A informação consta de comunicado ao mercado divulgado à época pela Oi, com base em informações prestadas pela J. Safra Serviços de Administração - administradora dos fundos de investimento geridos pelo Safra.

Em 3 de agosto, a participação do Virgo no capital da Oi já havia encolhido para menos de 5% das ações ordinárias (com direito a voto) e das preferenciais, o que fez o fundo desaparecer do quadro de maiores acionistas da operadora. Mesmo assim, o fundo manteve em sua carteira papéis da Oi pelo menos até janeiro deste ano, de acordo com registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa para comentar como e por que pretende estruturar sua operadora móvel virtual, o Banco Safra informou apenas que não vai se manifestar sobre o assunto. Com ramificações em 22 países de três continentes, o grupo lançou em junho do ano passado sua empresa de meios de pagamento eletrônicos, a SafraPay, que oferece "maquininhas" terminais de processamento de operações com cartões.

No mercado, o recente movimento do Safra no segmento de telecomunicações é visto mais como um esforço para impulsionar a expansão do terminal de pagamentos SafraPay do que como uma tentativa de estabelecer uma operadora móvel para disputar espaço com provedores tradicionais. O valor total pago pela empresa para obtenção da outorga foi de R$ 27 mil, segundo informou a Anatel.

Na contramão do mercado de telefonia móvel, que desde o fim de 2015 já perdeu mais de 22 milhões de linhas, as operadoras de redes virtuais continuam a crescer. O total de linhas na base das dessas empresas chegou a 925,5 mil em maio deste ano, o que representa uma expansão de 18,5% em relação ao montante registrado em dezembro de 2017. Os dados foram compilados pela consultoria Teleco, que estima um número de linhas em torno de 1 milhão quando forem computados os números do primeiro semestre deste ano.