A segurança alimentar e as lições da Nigéria

Publicado em 07/08/2018 por Jornal de Angola

Adebayo Vunge

Angola e a Nigéria têm uma história similar em alguns aspectos. O que, à partida, mais salta à vista é o facto de se tratar dos dois maiores produtores de petróleo da África Subsaariana. Por trás do petróleo estão duas realidades que se cruzam em largos aspectos.

Num primeiro momento, a independência não se traduziu numa melhoria da qualidade de vida da população respectiva, fruto, em grande medida, de circunstâncias históricas e da postura assumida pelas lideranças políticas. 
A Nigéria mergulhou numa onda de golpes de Estado e a corrupção instalou-se, sem precedentes, na forma de vida da população. Os nigerianos, no mundo, especialmente nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, passaram a ser conhecidos pela sua capacidade de subverter as regras. Tentaram levar o seu modo de vida interno além-fronteiras e isso gerou vários choques e alcunhas. 
Angola, por sua vez, atingiu a sua independência de modo sui generis. Fruto de uma descolonização mal conseguida, o país, em 1975, mergulhou numa guerra civil que levou a desestruturação do seu tecido social e económico que, na época, em relação a outras realidades, estava num patamar assinalável. 
Mas para lá do substracto sócio-político, Angola e Nigéria estavam marcados por uma realidade económica muito coincidente. Ambos os países descobriram o petróleo nos anos 50 e não levou muito tempo até à sua exploração, dominada pelas companhias americanas. 
O que era o seu domínio de então, a sua pujante produção agrícola, sucumbiu ao altamente rentável petróleo de tal modo que em 1973, no caso de Angola, o petróleo já liderava as exportações deixando para trás o café, o cacau e o algodão. Instalou-se a doença holandesa.  
Levou tempo até que os nigerianos e angolanos percebessem a necessidade de voltarem ao campo. Com o fim da onda de golpes de Estado, o governo nigeriano dirigido por Olossegum Obassanjo lançou uma importante reforma agrária que permitiu ao país aumentar de modo significativo a sua produção agroalimentar, dada a situação crítica de fome num país superpopuloso como é a Nigéria. O actual Presidente do BAD, Akinwumi Adesina, entre 2010 e 2015, enquanto Ministro da Agricultura e do Desenvolvimento, percebeu a importância disso ao lançar uma agenda de transformação e de maior autonomia dos agricultores. Os números da produção dispararam e a produção agrícola nigeriana está novamente entre os maiores em segmentos como mandioca, cacau, café, algodão, óleo de palma, etc. 
A Nigéria fez então um investimento sério na agricultura e na indústria que passaram a equilibrar as suas contas. O gigante  africano retomou o crescimento em 2017 graças à agricultura, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas – o mesmo que o nosso INE.  
Obviamente, em 2018, a retoma do aumento do preço do petróleo voltou a colocar o sector como a âncora da economia, não obstante o seu maior nível de diversificação económica que o de Angola, contando-se o impacto de sectores como a indústria transformadora nigeriana que é relativamente diversificada: além de refinarias de petróleo, siderúrgicas, processamento de alumínio, linhas de montagem de automóveis, também tem uma produção de escala em sectores agroalimentares (nossa industria de sumos compra naquela praça algumas matérias-primas, como o concentrado de frutas), têxteis, cinema e farmacêuticos. Assim, o país dá cartas. 
A agricultura nigeriana combina a pequena produção alimentar e de cooperativas de camponeses com a produção mais intensiva, suportada por empresas multinacionais vindas da Europa e dos Estados Unidos da América. Recentemente, durante uma visita a Holanda, o Presidente Muhammadu Buhari estabeleceu acordos de investimentos para aumentar a produção de leite, algodão e até a instalação da Henieken.  
Ora, é claro que nós não estamos parados. A produção agrícola angolana deu um grande salto. Todavia, é também verdade que é ainda ínfima para as nossas necessidades e se compararmos aos gigantes da África Subsaariana (a própria Nigéria e a África do Sul) ou ainda dos países do Magreb veremos o quanto temos pela frente.  
Neste momento, o défice agroalimentar tem provocado uma grande pressão sobre as nossas reservas em divisas uma vez que o banco central tem de satisfazer as necessidades de importação alimentar, com valores elevadíssimos. É um absurdo que estejamos ainda a importar alho, laranjas e frangos. Precisamos de um maior pragmatismo para, a exemplo que se passou com o ovo, aumentarmos os nossos níveis de produção, sobretudo nos itens com maior pressão na balança. 
O aumento da produção agroalimentar de Angola é um contingente para salvaguarda da segurança alimentar com sérios impactos sociais e económicos. Países com maior adversidade – Japão e Israel conseguiram inverter esse quadro. O aumento da produção agroalimentar, independentemente das outras razões que se possa apontar para o nosso actual défice, é um imperativo para combatermos o êxodo rural, melhorar os níveis de emprego e gerar renda para os pequenos agricultores. Vejamos o impacto no comércio internacional onde congolenses e supermercados como o Kero e o Candando compram campos inteiros, muitas vezes durante o plantio.  
Maior hipótese de viabilidade tem a produção orientada não apenas para o consumo interno mas também para o comércio internacional, uma vez que as matérias-primas agrícolas estão em forte alta de preços devido ao aumento da população mundial, sobre exploração dos solos – uma vez que os mesmos perdem a  fertilidade, o que não é ainda o nosso caso(?). Os especialistas em agricultura apontam ainda a escassez de água, as condições meteorológicas e todos os eventos climáticos importantes, geralmente têm forte influência sobre os preços dessas matérias-primas agrícolas. 
É urgente aprendermos com os outros. Tornar as terras acessíveis e com infraestruturas (estradas, água e energia). Aprendermos o melhor dos outros. Da África do Sul ou da Nigéria. Do Brasil ou da China. É urgente uma revolução verde, para alimentar, para empregar, para gerar receitas com exportação. Tornar realidade a poesia de Neto. Precisamos de voltar às nossas lavras e aos nossos campos. Às nossas terras/vermelhas do café/ brancas do algodão/ verdes dos milharais.