Venda da Lwarcel pode colocar rivais asiáticas no país

Publicado em 15/05/2018 por Valor Online

Venda da Lwarcel pode colocar rivais asiáticas no país

A provável venda da produtora paulista de celulose Lwarcel para a indonésia April, que está perto de ser sacramentada, colocará no Brasil empresas de alguma maneira relacionadas a dois dos maiores conglomerados da Indonésia e rivais em seu continente de origem.

De um lado está a produtora de celulose e papel do grupo Royal Golden Eagle (RGE), fundado por Sukanto Tanoto, um dos homens mais ricos do país. De outro, a Asia Pulp and Paper (APP), que pertence à família Wijaya, dona também da Paper Excellence (PE), acionista da Eldorado Brasil. A APP integra o Sinar Mas Group, formado por Eka Tjipta Widjaja, enquanto a PE é uma operação independente, liderada por Jackson Wijaya, neto do bilionário.

Segundo fontes ouvidas pelo Valor, assim como na aquisição da Eldorado pela PE, a proposta apresentada pela April há mais de três semanas foi bem mais agressiva do que a que um segundo potencial comprador levou à família Trecenti, dona da Lwarcel. Outros produtores estrangeiros demonstraram interesse no ativo e chegaram a visitar a fábrica de Lençóis Paulista (SP), mas não teriam avançado ao ponto de fazer uma oferta firme. A intenção da família é vender o controle, mas permanecer com uma participação minoritária.

Há expectativa no mercado de que um acordo possa ser anunciado já nesta semana. No fim do ano passado, a Suzano Papel e Celulose esteve perto de comprar a Lwarcel, mas a entrada de outros interessados no processo e o avanço das conversas com os controladores da Fibria em torno da união de suas operações encerraram as tratativas.

Na avaliação dessas fontes, não surpreende que a April tenha saído na frente na disputa pela Lwarcel após o sucesso da PE na compra da Eldorado. Para a empresa indonésia, assim como para a Paper Excellence, a chegada ao Brasil representa acesso a matéria-prima competitiva, baixo custo de produção e potencial entrada em clientes premium de celulose de eucalipto sobretudo na Europa, que só compram de empresas certificadas pelo FSC (do inglês Forest Stewardship Council).

Com a Eldorado, cuja aquisição será concluída nos próximos meses, a PE garantiu essas vantagens e pagou um prêmio por isso, ao avaliá-la em R$ 15 bilhões. Portanto, era de se esperar que a maior concorrente da APP na Ásia buscasse se igualar, diz uma fonte.

A Lwarcel, por sua vez, estaria avaliada em R$ 1,8 bilhão a R$ 2,7 bilhões, considerando-se o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$ 265 milhões projetado para este ano. Mas o novo sócio participará também com recursos para execução do projeto de expansão, estimado em R$ 5 bilhões.

Após a ampliação, a capacidade da Lwarcel subirá de 250 mil toneladas/ano para 1,5 milhão de toneladas, até 2020. Com a Eldorado, a PE assume uma fábrica com produção superior a 1,7 milhão de toneladas de fibra de eucalipto em Três Lagoas (MS). Há ainda um projeto de expansão pronto para ser executado, de R$ 10 bilhões, que vai adicionar mais de 2 milhões de toneladas ao ano.

APP e April concorrem também no mercado de papel. Especificamente no Brasil, a APP estabeleceu uma representação para importação de produtos da Ásia. A April avaliou movimento parecido há alguns anos, mas não levou adiante o plano. Dono da April, o grupo RGE tem outro negócio aqui, a Bracell, que faz celulose solúvel na Bahia. Na Ásia, a rivalidade comercial entre o grupo de Wijaya e o de Sukanto Tanoto não está limitada ao setor. Ambos têm forte presença no negócio de óleo de palma.

O grupo Lwart, dono da Lwarcel, informou que não dá declarações sobre o processo em andamento.