Absoluto, do BTG, faz 10 anos e ganha reforço de captação

Publicado em 05/12/2017 por Valor Online

Zitelmann (da esq. para dir.), com Hungria e Maia: gestão concentrada e viés longo Perto de completar uma década, o fundo Absoluto, uma das estratégias de ações mais reconhecidas do mercado brasileiro, está prestes a reconquistar um tamanho mais próximo do que tinha antes do episódio da prisão do então presidente e controlador do BTG Pactual, André Esteves, no fim de 2015. A carteira, que chegou a ter R$ 8 bilhões no seu conjunto, atualmente reúne cerca de R$ 5 bilhões, mas tem recursos comprometidos para engordar o seu patrimônio para a casa dos R$ 7 bilhões na virada para 2018. Em entrevista ao Valor, José Zitelmann, o sócio do BTG Pactual responsável pela gestora de recursos, não detalha que tipo de investidor está voltando para a estratégia, mas diz que 50% do patrimônio já é formado por grandes investidores institucionais, como fundos soberanos ou os chamados "endowments", criados para administrar doações de ex-alunos de grandes universidades e empresas. Com R$ 80,8 bilhões em fundos locais e "offshore" ao fim de outubro, a BTG Pactual Asset Management aparece no oitavo lugar no ranking de gestão da Anbima, associação que representa as entidades do mercado de capitais e investimentos. Em novembro de 2015, mês da prisão de Esteves sob acusação de obstrução no âmbito da Operação Lava-Jato - o Ministério Público recomendou em setembro que ele fosse absolvido -, ocupava a sexta posição, com R$ 129 bilhões sob seu guarda-chuva. Cicatrizes à parte, o fato é que o Absoluto tem superado o seu referencial, o IBrX-50, em todas as janelas de avaliação. Neste ano, o fundo em cotas destinado ao público geral acumula valorização de 20,85%, ante 19,91% do IBrX 50; em três anos, rende 13,19%, em comparação a 10,86% do índice; e, em dez, 13,67%, também acima do benchmark, em 6,87%, segundo dados da Morningstar. Com taxa de administração menor, o portfólio distribuído a investidores institucionais, por sua vez, acumula retorno de 23,61% em 2017. Segundo Zitelmann, no dia a dia a equipe não olha para os índices. "A gente quer dar retornos consistentes ao longo do tempo, independentemente do cenário de mercado", diz. A gestão é feita de forma concentrada e privilegia empresas consideradas de qualidade, avaliando quesitos como boa governança, liderança no setor e, enfim, o preço propriamente dito. As cinco maiores posições do fundo costumam representar de 50% a 60% do portfólio. No fim de outubro, segundo a Morningstar, Lojas Renner, Itaúsa, Equatorial Energia, B3 e Ultrapar cumpriam esse papel. "A gente procura ser simples e só investe no que conhece, e isso evitou que cometêssemos alguns erros ao longo da nossa história, como comprar, por exemplo, empresas pré-operacionais do segmento de óleo, como HRT, OGX ou Queiroz Galvão ", cita. A preferência é por investimentos avaliados como atrativos, mais do que procurar uma ação relativamente mais barata. O relacionamento com as empresas investidas costuma ser de longo prazo. O "mindset", prossegue o executivo, é a preservação de capital, algo que vem desde a origem do fundo, que inicialmente foi montado apenas para gerir dinheiro proprietário. Era uma época em que os acionistas do BTG tinham liquidez na mão, após a venda, em 2006, de participação para o suíço UBS, por US$ 3,1 bilhões. Zitelmann, o sócio mais identificado com estratégias de renda variável, considerou por bem estruturar um fundo, em vez de prestar assessoria informal para seus parceiros. Só em 2009 foi que o Absoluto abriu propriamente para a captação fora do banco. Entre os casos que deram boa contribuição para o desempenho do fundo, Zitelmann cita Lojas Renner, ativo em que investe desde 2012. Cielo integrou o portfólio em 2011, numa fase em que o viés era mais negativo para a empresa, após a abertura do mercado, com a quebra do duopólio que existia entre Cielo na captura da bandeira Visa e a então Redecard (hoje Rede) com Mastercard. Foi um investimento contrário que proporcionou resultados relevantes entre 2011 e 2014. Desde 2016, sob a leitura de que mudou o jogo da competição, o papel não está mais na carteira. Outra ação que a gestão tem mantido ao longo do tempo, cita o executivo, é Ultrapar, enquanto Localiza é um papel que investiu na época do IPO e voltou a ter em 2016.. Para falar dos equívocos, Zitelmann é um pouco menos explícito, mas diz que, em geral, os erros custaram pouco ao fundo. Ele diz haver dois tipos de erros que a gestão pode cometer. O primeiro, menos danoso, é quando analisa a empresa, vê potencial, mas, talvez por algum fator que não tenha permitido firmar convicção naquele investimento, deixa de comprar. O segundo tipo de erro, mais grave, é aquele que acarreta perda de capital. "Errar pouco é o principal segredo. A gente prefere deixar alguma oportunidade escapar do que fazer um investimento que tem risco de não dar certo." Ele qualifica um investimento feito na área de telecom como um dos equívocos ao longo da trajetória de dez anos do Absoluto. E diz também não gostar de ações ligadas à cadeia de commodities, porque o preço do produto da companhia não depende dela, mas do ritmo de crescimento da China, da economia mundial ou de decisões de cartéis como o da Opep. A mineradora Vale, entretanto, chegou a fazer parte da carteira neste ano. O ambiente macroeconômico, embora conte para a visão geral do mercado, também não é critério para investir em determinado setor. Segundo ele, os negócios têm de obedecer aos requisitos de avaliação, se é um bom negócio, qual a qualidade da gestão e se têm um ponto de entrada atrativo. "Quando me perguntam se eu gosto de varejo, eu respondo que não sei. Eu gosto de Renner." Tal metodologia, reconhece Zitelmann, pode empurrar a gestão para casos que já tenham tido seu valor reconhecido pelo mercado, então o "timing" é importante para compor e dimensionar as posições. O fatídico 18 de maio, após o vazamento da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, foi um desses momentos em que a casa aproveitou para comprar. As decisões são feitas de forma colegiada. "As discussões são calorosas e o que há é a ditadura do argumento, independentemente da senioridade", diz o executivo, que tem ao seu lado Gustavo Hungria e Pedro Maia, responsáveis diretos pelo Absoluto. Em geral, os ativos ficam pelo menos 24 meses na carteira, e a hora de vender é quando a estratégia alcançou o preço desejado e não há mais valorização potencial em comparação a alternativas que ainda estão no fundo. A casa pesa também se há divergência em relação ao consenso do mercado sobre o ativo. Mesmo sem se ater aos índices de mercado ou diretamente ao ambiente macro, a percepção de Zitelmann é que há uma certa complacência dos investidores com as incertezas à frente, como o calendário eleitoral, e dá a entender que é preciso ainda algumas correções de preços para uma nova frente de oportunidades na bolsa.