Agricultura familiar garante renda de quase 3 mil produtores locais

Publicado em 09/10/2017 por Correio Braziliense Online

Ed Alves/CB/D.A Press
Gisleangelo Teles e Adriana Teles com os filhos do Nucleo Rural Betinho, em Brazlândia

Mudar o futuro da migração: investir em segurança alimentar e desenvolvimento rural, esse foi o tema escolhido pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) para celebrar o Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro. No Brasil, a agricultura familiar tem um papel preponderante na geração de trabalho e renda - representa 84% dos estabelecimentos rurais no país. São 4,4 milhões de famílias agricultoras, que respondem por 38% do valor bruto da produção agropecuária e por 70% da produção dos alimentos da cesta básica.


O Distrito Federal contabiliza 2.870 produtores habilitados pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com operações de crédito de R$ 5 milhões, de um total de R$ 22,7 bilhões disponíveis, na safra 2016/2017. E o perfil desse agricultor está mudando no país. Em muitos casos, a volta para a área rural acaba sendo uma alternativa.

Para Gisleângelo Teles Ferreira, 38 anos, que fez o caminho inverso ao de milhares de agricultores que saem do campo em direção à cidade, essa foi a alternativa para melhorar as condições de vida da família. Motorista profissional por mais de uma década, Ângelo, como é chamado, trocou a vida na cidade de Brazlândia, onde residia, pelo campo, por necessidade.

Em 2007, com dificuldades financeiras, ele foi morar em uma chácara. Hoje, reside com a mulher, Adriana, e os cinco filhos - de nove meses a 15 anos -, na chácara Nossa Senhora Aparecida, no Núcleo Rural Betinho, também em Brazlândia.

A princípio, ele ainda pensava em conseguir um emprego formal na cidade, mas levou pouco tempo para perceber o potencial da agricultura para o sustento da família e como forma de renda. Ele, então, passou a cultivar brócolis, tomate, e abóbora itália (abobrinha). A conversa com vizinhos o ajudou a conhecer melhor os meios de produção e as dificuldades de se lidar com as culturas. "Decidi encarar atividade para valer, porque a agricultura ia ser a minha única fonte de renda, o meu ganha-pão", explicou.

Após uma década no campo, o agricultor diversificou o cultivo nos seis hectares da propriedade. A produção atual inclui pimentão, vagem, maxixe e morango. Ângelo, agora, contrata trabalhadores, pagando diária, dependendo da necessidade de plantio ou em época de colheita. Mas é ele mesmo quem executa boa parte do trabalho, inclusive a comercialização, na Feira do Produtor, em Ceilândia, atividade que compara à bolsa de valores, tal o sobe e desce no preço dos produtos, de acordo com a disponibilidade da mercadoria. A renda líquida média mensal é de R$ 4 mil.

Na ponta do lápis, Ângelo constata o quanto o custo de produção subiu. "O agricultor deveria ser mais valorizado. Afinal, é ele que coloca os alimentos na mesa de todas as famílias. Hoje está difícil plantar. Quando comecei na chácara, o adubo custava R$ 400. Hoje, custa R$ 1,9 mil", resumiu.

Ivanildo Oliveira Barbosa, 38, brinca que já nasceu na roça. A propriedade de cinco hectares, batizada de sítio Cachoeira, no Núcleo Rural Boa Esperança, em Ceilândia, foi comprada pelo pai, Manoel, que veio para Brasília no início da construção da capital. No local, Ivanildo planta tomate, pimentão, maxixe, quiabo, abobrinha e milho verde. A produção, que é comercializada na Feira do Produtor, em Ceilândia, costuma render, em média, R$ 7 mil por mês. Os ganhos são investidos na lavoura e no bem-estar da família, a mulher Ivani, 33, e as filhas, de 10 meses e de 8 anos.

Entusiasmado com o trabalho, e incentivo, dos técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF), Ivanildo resolveu estudar. O processo de desenvolvimento começou quando passou a se dividir entre livros e hortaliças. Em 2010, o produtor se formou em agronomia na Faculdade da Terra. Mesmo assim, Ivanildo não pensou em tentar a vida na cidade. Ao contrário, ele queria mesmo era aplicar os conhecimentos na propriedade da família. "Eu tinha a terra e queria muito melhorar a produção. Hoje tenho dois funcionários fixos, mas chego a contratar até 10 temporários para ajudar na época da colheita", ressaltou.

» Conab garante os preços
Desde 2003, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) oferece o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) especificamente para os produtores da agricultura familiar. O PPA apoia a comercialização, dando alternativas para os agricultores familiares escoarem a produção. Até outubro de 2017, foram adquiridos mais de 2,6 bilhões de quilos de produtos com o investimento de R$ 3,8 bilhões.  Os objetivos do programa são a geração de renda e a sustentação de preços aos agricultores familiares, o acesso a uma alimentação diversificada para uma população em situação de insegurança alimentar e o fortalecimento do associativismo e do cooperativismo. Em 14 anos, a Conab já listou mais de 400 tipos de produtos.

Data mundial
O Dia Mundial da Alimentação foi instituído pela FAO em 1981. A cada ano, é adotado um tema diferente, para concentrar os debates e nortear as ações globais. No DF, a data será comemorada amanhã, com uma solenidade no Palácio do Buriti. A programação inclui a apresentação do projeto Fruto: as possibilidades de alimentar o mundo, pelo chefe de cozinha, Alex Atala.

Financiamento

O Pronaf dispõe de 14 linhas de financiamento, a juros abaixo da inflação, para atender aos agricultores familiares. Para ter direito ao crédito rural, o agricultor familiar deve atender a critérios específicos, como possuir uma área de até quatro módulos fiscais e gerir a própria propriedade. A renda bruta anual da exploração da propriedade deve ser de até R$ 360 mil.

  • 84% 
Dos estabelecimentos rurais no país são de agricultura familiar

29,8 Milhões de trabalhadores estavam no campo em 2010