A América acima do peso

Publicado em 11/03/2018 por Carta Capital

governo Trump quer distribuir quilos a mais para os norte-americanos. "Fazer as refeições escolares grandes novamente", anuncia um documento do Departamento de Agricultura dos Estados. Foi uma paráfrase infeliz do slogan oficial da gestão, em um tema no qual ser "grande" não é sinônimo de saúde. 

Assim o secretário Sonny Purdue definiu a reversão de parte da política de merendas saudáveis da administração de Barack Obama: "Se as crianças não estão comendo o alimento, e ele está terminando no lixo, não estão tendo nenhum benefício nutricional". Purdue garantiu, porém, que não tomaria decisões que fizessem mal a seus 14 netos. 

O prazo para as escolas oferecerem refeições com níveis adequados de sal foi adiado em três anos, de 2022 para 2025. Leites desnatados com chocolate, que saíram do cardápio em 2012, devem voltar sob a justificativa de que as crianças não gostam do líquido sem açúcar. 

Segundo estudos da Universidade Harvard, as mudanças no cardápio escolar determinadas por Obama trariam resultados efetivos, somadas à criação de um imposto sobre o consumo de ultraprocessados e à redução de subsídios a certos produtos. Só as mudanças nas escolas impediriam, diz a análise, 2 milhões de novos casos de obesidade infantil até 2025.

A obesidade afeta 36,5% da população, indicam dados recentes do Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças, principal formulador de estudos de saúde dos EUA. Entre crianças e adolescentes, 31,2% estão obesos ou acima do peso. Os custos com o problema chegam a ser estimados em 210 bilhões de dólares por ano.  

O excesso de peso é uma entrada para as doenças crônicas não transmissíveis, que se transformaram nas grandes responsáveis por mortes no mundo. O diabetes dobrou nos EUA em menos de 20 anos, chegando a quase 10% da população. O CDC estima que 33% dos americanos adultos terão a doença em 2050. 

O CDC foi, não por acaso, palco de uma das polêmicas de Trump. Em julho do ano passado, o jornal The New York Times revelou que a diretora nomeada para o órgão, Brenda Fitzgerald, considerava a Coca-Cola uma aliada. Encarregada das ações na área de saúde no estado da Geórgia, sede da transnacional, ela aceitou 1 milhão de dólares da empresa para um programa de atividade física nas escolas, o que incluía criar uma imagem positiva para a corporação.  

Não foi suficiente para Fitzgerald deixar o cargo. Em dezembro, The Washington Post trouxe à tona a proibição imposta por ela ao uso de certas palavras no órgão: vulnerável, diversidade, transgênero, baseado em evidências, baseado em ciência, direitos... 

A diretora do CDC só perderia o cargo em janeiro, quando a mídia revelou que, logo após assumir, ela comprou ações de corporações de tabaco e de dois grandes laboratórios farmacêuticos. 

Trump, invariavelmente, almoça um Big Mac, acompanhado de uma das 12 latas de Coca diet que ingere diariamente. O bacon vem antes, no café da manhã, e o Doritos é consumido rotineiramente. 

O livro Let Trump Be Trump: The Inside Story of His Rise to the Presidency (Deixe Trump ser Trump: A história da sua ascensão à Presidência, ainda sem publicação em português), de Corey Lewandowski e David Bossie, revela a obsessão do conservador pelos ícones da junk food.

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Eles acompanharam a última campanha presidencial e registraram que um jantar típico de Trump é servido com duas unidades de Big Mac, dois sanduíches de peixe e um smoothie ("suco" com a consistência de um milk-shake) de chocolate. A refeição equivale a 2.672 calorias, quando o valor médio diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde é de 2,5 mil calorias.

O presidente, aos 71 anos, acorda às 5 horas da manhã e, vez ou outra, encara um desjejum. Se o faz, escolhe ovos e bacon. Quando não, só come no almoço.

Autora do livro The Low-Fad Diet (A Dieta Que Não Aparece, sem versão em português), a nutricionista inglesa Jo Travers, da Associação Dietética Britânica, avaliou a alimentação de Trump para o jornal The Guardian. Segundo ela, tal dieta pode ter "impacto na capacidade de raciocinar e de tomar decisões". 

A julgar só pelo consumo de Coca diet, Travers não está sozinha. Com ou sem açúcar, o exagero do refrigerante é perigoso. Bebidas com adoçantes artificiais aumentam o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e demência, de acordo com um estudo publicado pela Universidade de Medicina de Boston e revisado pela Associação do Coração dos Estados Unidos, em abril de 2017. 

Os pesquisadores apontam "que as bebidas diet estão associadas ao aumento de risco de AVC isquêmico, demências e mal de Alzheimer".