Artigo: Facebook diz que quer cuidar das pessoas, mas mudança exigirá mais investimentos das marcas

Publicado em 12/01/2018 por O Globo

Zuckerberg - JUSTIN SULLIVAN / AFP

Mais uma vez Mark nos presenteia com surpresinhas da rede social mais ativa do mundo. O Facebook anunciou novas mudanças no algoritmo que sacudiram as empresas. Desta vez a novidade vai prejudicar o alcance das páginas de notícias e marcas, e melhorar o tráfego de postagens pessoais.

Imagino que não deva ser um dilema fácil: ganhar mais e mais dinheiro das marcas com seus anúncios e ter o público insatisfeito com tanta publicidade disfarçada de conteúdo ou manter as pessoas felizes com seus amigos e as marcas insatisfeitas? Se o público sai, as marcas saem. Mas, se a mensagem não chega ao público, as marcas podem reduzir seus investimentos e, pior, as pequenas empresas ficarem sem voz, acabando com o lado democrático da rede.

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Acho curioso ver a tentativa do Facebook de se posicionar cada vez mais como uma empresa que se preocupa menos com o lucro e mais com a saúde e felicidade das pessoas, no caminho do marketing holístico.

Tá Mark, belo discurso, mas todos sabemos que isso não é verdade. O próprio alcance orgânico das páginas teve uma queda brusca no último ano, fazendo com que as marcas precisassem aumentar mais e mais os investimentos para seguirem aparecendo nas timelines (inclusive dos que escolheram seguir a página).

As marcas certamente sentirão esta queda de alcance e terão que criar novas ideias para driblar mais este obstáculo. Mas para os veículos de comunicação a situação ainda é mais grave, afinal existe toda uma geração (pra não dizer algumas) que só lê notícias via Facebook.

Zuckerberg baseia sua decisão em estudos acadêmicos que mostram que estar conectados a amigos (via Facebook, claro) aumenta o nível de felicidade. E os mesmos estudos dizem que ler artigos ou ver vídeos de maneira passiva, mesmo que informativos, pode não ser bom. Não vou entrar aqui nesta questão, se ler notícias faz ou bem ou não, mas me parece um pouco incoerente restringir o acesso à informação dentro de um canal escolhido pelo próprio usuário.

Para minimizar esta percepção e aumentar a bolha em que vivemos, eles começaram uma seção chamada "Today In", que só funciona em algumas cidades do Estados Unidos e promete mostrar um mural com as principais notícias da mídia local e que possam ser de interesse público.

Veremos o que vem por aí. Por enquanto, vamos celebrar mais reclamações políticas e fotos felizes em nossos perfis.

* Fernanda Martinez é professora do MBA em Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas e diretora-executiva da agência Oitoeoito