Brasil: após recessão, rumo ao grau de investimento

Publicado em 08/02/2018 por Valor Online

O Brasil passou por um grande trauma entre 2015 e 2016, com queda do PIB acumulada em mais de 8% - talvez a nossa pior crise dos últimos 50 anos. Muitas são as explicações para tamanho tombo, mas a melhor delas, para mim, tem o seguinte enredo: o país passou por uma forte expansão de crédito e alavancagem entre 2003 e 2013. O consumo, os salários e os preços se expandiram muito. A economia chegou no pleno emprego, o déficit em conta corrente bateu 4% do PIB com a moeda brasileira valendo bem mais do que deveria valer. As políticas fiscal e monetária seguiam expansionistas desde 2009. Na tentativa de prolongar um ciclo de expansão de crédito e consumo já insustentável, o governo Dilma Rousseff desonerou bens de consumo e represou preços públicos para tentar manter a inflação na meta. Não funcionou. O país não voltou a crescer e a inflação ficou no teto da meta. Após a reeleição, a equipe econômica aplicou um cavalo de pau no país, soltando preços públicos de maneira abrupta, contraindo gastos públicos e levando a taxa Selic de 7,25%, ainda antes da eleição, a 14,25%. O golpe monetário numa economia que vinha de um ciclo de aumento de endividamento de mais de dez anos foi fatal para empresas e consumidores. A explosão dos preços administrados, aliada a uma explosão de incertezas e grande desvalorização cambial, levaram o IPCA a 10%. O derretimento do preço internacional das commodities em 2015 agravou esse movimento. A implosão da arrecadação tributária somada à rigidez de gastos trouxe enorme déficit público primário que, aliás, já começava a dar sinais de vida ainda em 2014 com a política de desoneração tributária. O caos político de 2015 e 2016 só agravou uma situação que já estava para lá de dramática. O Brasil perdeu o grau de investimento, os ativos derreteram e o resto é história. Essa breve explicação do trauma que nos acometeu é importante para entender o que ocorre hoje e o que virá nos próximos anos. Ainda em 2016, o trauma começou a ser revertido, mesmo que de maneira lenta. Os quatro indicadores chave desse momento dramático foram inflação a 10%, câmbio a R$ 4, déficit primário acima de R$ 150 bilhões e PIB caindo 4%. O que tem ocorrido desde então? A exata reversão desse movimento traumático. A inflação cedeu por conta de enorme recessão e desemprego, auxiliada pela apreciação cambial que surgiu com a sobra de dólares e a lenta recuperação do país. Só em importações, passamos a "economizar" US$ 100 bilhões por ano graças à atividade deprimida. A atividade econômica começou a se recuperar no início de 2017 com a retomada da confiança de consumidores e empresários. A arrecadação começou a dar sinais de melhora junto com a atividade, e a política fiscal contracionista do governo Michel Temer contribuiu para uma melhor perspectiva de contas públicas, mesmo sem a reforma da Previdência. O Banco Central derrubou a Selic, ainda que de maneira lenta, de 14,25% a 6,75%; a inflação despencou por conta da recessão, da apreciação cambial e da queda de preços de alimentos. Em 2018 temos chance de crescer 3%, com inflação abaixo 4% e câmbio comportado na casa dos R$ 3,20. As contas públicas seguirão melhorando graças, principalmente, ao aumento da atividade. Nosso CDS (credit default swap, medida de risco de crédito) acompanhou toda essa trajetória saindo de 150 pontos em 2013 para bater em 500 pontos em 2015 e agora voltar abaixo dos 150. A bolsa caiu a 39 mil pontos quando o câmbio foi a R$ 4,25 e os juros longos bateram 17%. As NTN-Bs longas foram a juros reais de 8%. Desde o pico do stress com a perda do grau de investimento, em 2015, o rali tem sido intenso. A bolsa voltou às máximas, os juros nominais e reais se aproximam das mínimas. O câmbio chegou a flertar com R$ 3. O Brasil volta aos poucos ao normal, o trauma passou. Quando todo o processo tiver finalmente se desenrolado, nossos preços de ativos estarão ainda maiores e recuperaremos o grau de investimento. A reforma da Previdência necessária pode adiantar ou atrasar esse processo, mas virá em alguma forma de qualquer maneira. Essa recuperação cíclica é o que é. Não resolve nossos problemas de pobreza produtiva estrutural e desindustrialização. Para nos desenvolvermos, de fato, precisamos de muito mais do que controlar as contas públicas. A boa notícia é que, pelo menos, estamos já próximos de uma normalidade, ainda que medíocre. Paulo Gala é economista e diretor-geral da FAR - Fator Administração de Recursos E-mail: pgala@fator.com.br Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.