Brasil trabalha para negociar sobretaxa ao aço

Publicado em 12/03/2018 por Jornal do Comércio - RS

Siderúrgicas brasileiras contrataram um escritório de lobby em Washington (EUA) para tentar convencer congressistas e autoridades do governo norte-americano a livrar o aço do Brasil das sobretaxas impostas pelo presidente Donald Trump. Nas negociações, o governo Michel Temer pode ser pressionado a colocar na mesa até o negócio entre Embraer e Boeing. Segundo maior fornecedor do produto para o mercado norte-americano (o primeiro é o Canadá, que ficou de fora da supertaxação), o Brasil exportou US$ 2,6 bilhões em aço para os EUA em 2017, o equivalente a um terço de toda a venda externa da matéria-prima local.
As autoridades brasileiras pretendem usar os próximos 15 dias para dissuadir os Estados Unidos das barreiras impostas ao insumo exportado. Para reverter a decisão de Trump, já começaram uma campanha de mobilização em favor do país no Congresso e de aproximação de empresários norte-americanos.
A ideia é evitar a palavra retaliação em um primeiro momento e tentar o caminho do diálogo para retirar o Brasil da lista de afetados. Nesta semana, o escritório de lobby começa em Washington a representar as siderúrgicas. Neste momento, serão dois os caminhos de atuação.
No primeiro, na USTr (agência de comércio americana, na sigla em inglês), o setor privado brasileiro vai pedir a compradores norte-americanos que defendam a exclusão de produtos "made in Brazil" da lista de Trump. Pelo decreto, os empresários norte-americanos podem apresentar ressalvas à medida de proteção, alegando que terão prejuízos com a sobretaxa.
Além das siderúrgicas que compram o produto fabricado no Brasil, empresários brasileiros estão em contato com os produtores de carvão norte-americano - o Brasil é o maior comprador de carvão dos EUA, combustível usado na produção de aço. Sem as exportações aos EUA, as compras de carvão deverão ser afetadas. O presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, afirma que o setor privado trabalha para mostrar aos empresários norte-americanos que o Brasil é um "parceiro diferente". "Os EUA sempre tiveram superávit no comércio siderúrgico com o Brasil, e, em segundo lugar, 80% do aço que vendemos é insumo para as siderúrgicas americanas."
O segundo caminho trilhado será por meio do Departamento de Comércio dos EUA, em uma negociação entre autoridades dos dois países. O ministro da Indústria e Comércio brasileiro, Marcos Jorge de Lima, já apresentou argumentos em defesa da exclusão do Brasil ao secretário norte-americano, Wilbur Ross, em reunião no início do mês em Washington. Na sexta-feira passada, ele disse que vai recorrer aos canais abertos pelo próprio governo Trump.
"Nós vamos recorrer dentro do processo nos EUA. Nosso primeiro recurso será no âmbito bilateral. Dito isso, caso necessário, não descartamos nenhuma possibilidade, até mesmo de recorrer no âmbito multilateral", afirmou.
Ao fixar tarifa extra de 25% a todo aço importado, Trump deu prazo de 15 dias para os países apresentarem sua defesa, o que abriu um balcão de negócios em Washington. Fonte ouvida pela reportagem, que participa da negociação, disse que todos os argumentos serão necessários em defesa do Brasil, desde as características do aço vendido até assuntos de interesse dos norte-americanos, como a possível venda da Embraer para a americana Boeing.
Congressistas e representantes de regiões carvoeiras já foram contatados. O argumento mais imediato em favor do Brasil é que o aço brasileiro fará falta. Entre os maiores fornecedores dos Estados Unidos, o Brasil é o único que vende o produto semiacabado, ou seja, placas de aço que ainda serão industrializadas em solo norte-americano.