China cria empregos no Brasil

Publicado em 11/10/2017 por Valor Online

Não é de hoje que cabe à China o papel de vilão no relacionamento com a indústria brasileira. Em quase todas as discussões sobre o processo de desindustrialização pelo qual passa o Brasil, o país asiático sempre figura entre as principais, senão a principal causa deste fenômeno. O raciocínio que sustenta esta linha de argumentação se inicia com a competição desleal chinesa e termina nos impactos deletérios que esta traz para o mercado de trabalho brasileiro como um todo. No entanto, dois estudos empíricos lançados neste último ano trazem à tona uma narrativa mais ponderada sobre este tema. A evidência indica que nos últimos anos o comércio com a China foi positivo para a geração de empregos, porém negativo quando se considera a qualidade dos empregos gerados. Comecemos pelo estudo lançado pela Organização Internacional do Trabalho. Intitulado "Os efeitos da China na quantidade e qualidade do emprego na América Latina e Caribe", este trabalho indica que o Brasil foi o país da região onde o comércio com o China teve maior impacto positivo na geração de empregos. No período de 1995 a 2011, considerando a quantidade de empregos gerados e perdidos, os autores estimaram um saldo positivo de 1,35 milhão na geração de empregos em função do comércio do Brasil com a China. Isso representa 4,38% do total de empregos líquidos criados neste período. O comércio com a China foi positivo para a geração de empregos, mas negativo quando se avalia sua qualidade Ao desmembrar o impacto do comércio com a China por diferentes setores da economia, fica claro os motivos pelos quais há uma retórica tão negativa sobre este tema no Brasil. O estudo estima que 595 mil empregos foram perdidos na área da indústria, sendo os principais perdedores os setores de computadores (195 mil), calçados e têxteis (105 mil) e varejo (50 mil). No entanto, o volume perdido é facilmente ultrapassado pelo número de empregos criados em setores que fazem parte do complexo exportador brasileiro, responsável por um total de 1,95 milhão de empregos gerados. As exportações de soja e de produtos agrícolas contribuíram com 590 mil e as exportações de minério de ferro com 413 mil. Apesar de estes setores não empregarem tanto como a indústria, o crescimento deles durante o boom das commodities foi tão elevado que o impacto positivo na geração de emprego superou, e muito, as perdas da indústria. Já o relatório lançado pelo Atlantic Council, intitulado "Desenvolvimento Industrial na América Latina: Qual é o papel da China? ", que trata do papel da China no processo de desindustrialização na região latino-americana, traz outro ponto novo para esta discussão. O resultado do modelo de equilíbrio geral estimado para o tamanho da indústria local em um cenário de competição chinesa moderada indica que algumas indústrias foram capazes de se beneficiar da importação de partes e componentes chineses mais baratos para se manter no mercado. Se por um lado a competição chinesa foi fatal para produtores de partes e componentes, por outro ela foi positiva para as empresas mais acima na cadeia de valor que se beneficiaram destas importações com preços mais baixos. Não que isso seja positivo, porém tem o impacto de amortecer a perda total de empregos que a indústria teve. Em outras palavras, a indústria teria perdido ainda mais empregos caso este fenômeno não tivesse ocorrido. Isso é explicado pelo fato de que empresas que sairiam do mercado em função de altos custos de insumos, continuaram produzindo e como consequência mantiveram sua força de trabalho. Apesar do impacto positivo gerado no número de empregos, o mesmo não pode ser dito sobre a qualidade dos mesmos. Os empregos gerados pela China no complexo exportador brasileiro estão correlacionados com salários menores que os perdidos pela competição chinesa. De acordo com dados do IBGE, o salário médio em áreas de agricultura e da indústria de transformação varia entre dois e três salários mínimos por mês. Por outro lado, os salários em segmentos da indústria são maiores, como na produção de computadores (4,1 salários mínimos), na fabricação de máquinas e componentes elétricos (4 salários mínimos), e máquinas e equipamentos mecânicos (4,4 salários mínimos). Também vale notar que a indústria contrata mais trabalhadores com nível superior do que a agricultura. De acordo com dados do IBGE, a participação de trabalhadores com nível superior na indústria é mais que o dobro que na agricultura. Por exemplo, 10,5% do total dos trabalhadores no setor industrial possuem nível superior, enquanto apenas 4,4% no setor agrícola. Neste caso, também há um hiato entre valores, onde o salário para nível superior é de 5,5 salários mínimos e de apenas 1,5 para nível básico. Além disso, não se pode deixar de considerar a capacidade de inovação e diversificação para outros mercados que os empregos oriundos de uma indústria competitiva costumam gerar. Por fim, de porte destas evidências, uma narrativa mais equilibrada sobre o impacto da China no mercado de trabalho brasileiro deve ser considerada. Este ponto também é sustentado por uma análise de bem-estar social, onde, levando em conta o número de empregos gerados e perdidos e seus respectivos salários, verifica-se, à primeira vista, um balanço positivo. No entanto, estas novas evidências não apagam de todo os efeitos deletérios e, em certa parte, irreparáveis que a competição chinesa causou em alguns segmentos da economia. Só não devemos achar que o impacto da China no emprego foi somente, e de todo, negativo. André Soares é non-resident fellow do Adrianne Arnst Latin America Center do Atlantic Council e ex-coordenador de Pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China