Cinco lições para detectar a próxima crise financeira

Publicado em 09/02/2018 por Valor Online

A economia não foi feita para ser usada em previsões, e é por isso que, sempre que você pergunta aos economistas sobre a próxima crise financeira, eles abrem seus livros de histórico financeiro. Enquanto alguns especialistas já começam a prever a próxima crise, gostaríamos de definir sua natureza histórica e linha do tempo. Crises financeiras ocorrerão exatamente como aconteceram no passado, mas é improvável que enfrentemos em breve uma situação pior ou igual à de 2008. Quando a rainha Elisabeth perguntou "Por que ninguém percebeu?", referindo-se à crise financeira de 2008, um economista respondeu que as crises financeiras são tão difíceis de prever quanto os terremotos e as pandemias da gripe. Eles apenas acontecem. Claro que sismólogos sabem onde estão as zonas ativas e médicos podem conhecer a natureza do próximo tipo de vírus. Mas saber se um desses fatores crescerá a ponto de se destacar é difícil. O mesmo vale para os mercados financeiros. Para medir a gravidade e a duração das crises, utilizamos as flutuações de preços do S&P 500. A "curva de febre" do gráfico dá uma indicação de volatilidade. A mãe de todas as crises financeiras foi o colapso de 1929. E nada chegou perto dessas experiências traumáticas iniciais. Ainda assim, em seus momentos, algumas pequenas crises pareciam ser o fim do mundo. Lição 1: Mesmo crises pequenas para padrões históricos parecem ser o fim do mundo quando ocorrem. Parece haver um padrão para a frequência das crises. No gráfico, são 27 picos nos últimos 90 anos, o que faz o intervalo médio entre duas crises ser de cerca de três anos e quatro meses, mas mais da metade foram pequenas crises e choques. A alta dos juros nos Estados Unidos em 1994 e os subsequentes choques nos emergente (crise mexicana em 1995, asiática em 1997 e russa em 1998) são exemplos. Em termos de frequência, podemos notar outra lição: Lição 2: Investidores devem esperar crises financeiras com levemente mais frequência do que a cada três anos e meio. Juntando as piores crises, adicionamos três eventos aos dois que ocorreram na Grande Depressão: os choques de petróleo de 1970, o crash de 1987 e a grande crise financeira de 2008. Esses são icônicos e prevalecem na memória coletiva. Uma crise de tal gravidade ocorre aproximadamente a cada 20 anos, ou seja, cerca de uma vez em uma geração. Isso nos dá a nossa terceira lição: Lição 3: Toda geração passa por uma "grande" turbulência, ou seja, uma crise que molda sua memória coletiva. O que é o oposto de uma crise? Em 2017, a volatilidade atingiu as mínimas históricas do gráfico. Pessimistas poderiam apostar que "o único caminho seria para cima". "Não tão rápido", eu diria. Todo ponto de baixa volatilidade no passado foi seguido por um intervalo de dois anos antes do início da próxima crise. Assim, a menos que haja um forte choque inesperado, a probabilidade de irmos direto ao "modo crise" no início de 2018 parece bastante limitada. Assim: A Lição 4: Mercados calmos tendem historicamente a demorar algum tempo antes de virar para o "modo crise". Padrões à parte, é claro que existem razões fundamentalistas para a maioria das crises. No livro "This Time is Different" (Dessa vez é diferente), Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff identificam quatro fatores comuns subjacentes a todas as crises: bonanças de fluxo de capital, inovação financeira, booms de habitação e liberalização financeira. Lição 5: Os quatro ingredientes acima são fundamentais para crises financeiras. Então, onde estamos hoje e quando chega a próxima crise? A próxima crise financeira não deve chegar antes de 2019 (cerca de quatro anos após a crise das commodities em 2015 e 2016) e um choque geracional não deve ocorrer antes de 2025 (cerca de 18 anos após a grande crise financeira). Olhando para os quatro fatores identificados por Reinhart e Rogoff, vemos que apenas um deles se aplica (e apenas parcialmente). Você poderia realmente afirmar que vimos uma bonança de fluxo de capital, particularmente, em renda fixa. Mais extravagantemente, o surgimento das criptomoedas, com as bitcoins, aponta para excessos semelhantes. Quanto aos outros três fatores, lutamos para encontrá-los. Um olhar mais atento sobre padrões históricos e razões fundamentais não sugere um aumento nas chances de outra crise financeira. Isso não significa, é claro, que os mercados de ações não verão uma correção de (digamos) 5% este ano, ou que um choque externo sem precedentes não pode desencadear uma grande crise. Tudo o que queremos transmitir aos investidores é que os pessimistas habituais não têm um caso forte no momento e que suas afirmações chocantes devem ser tomadas com uma "pedra" de sal. A próxima crise financeira atingirá os mercados em algum momento - é o que a história nos diz. Mas é altamente duvidoso que isso ocorra nos próximos 12 a 24 meses. Christian Gattiker é estrategista-chefe do Julius Baer E-mail: info@juliusbaer.com Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.