Como a ideia de tempo profundo muda o jeito de olhar para a humanidade

Publicado em 07/02/2018 por Folha de S. Paulo Online

Pequena ilha no Panamá que está sendo aterrada com corais, madeiras e lixo. - Lalo de Almeida/Folhapress

Na madrugada de uma noite de verão em 1949, a arqueóloga britânica Jacquetta Hawkes saiu ao pequeno quintal de sua casa na zona norte de Londres e se deitou no chão. Sentiu o leito rochoso recoberto por uma camada fina de terra, o chão duro comprimindo sua carne contra seus ossos.

Brilhando entre as folhas, para além das linhas escuras das chaminés da casa vizinha, ela via as estrelas, faróis "cuja luz as deixou muito antes que houvesse olhos capazes de vê-las neste planeta", como ela mesma escreveria em "A Land" (uma terra, 1951), seu clássico livro de ensaios descritivos sobre a natureza.

Estamos acostumados à ideia de astronomia e geologia falando sobre os segredos do tempo profundo, o imenso arco de história não humana que deu forma ao mundo tal qual o percebemos. A lírica meditação de Hawkes combina o íntimo e o eterno, o biológico e o inanimado, o doméstico e um senso de tempo profundo muito apropriado à época dela.

O estado da camada superior do solo era uma preocupação genuína em um país desgastado pelo racionamento que durava desde a guerra, e a terra mesma estava se tornando foco de atenção em um momento no qual o Reino Unido começava a repensar seu lugar no mundo.

Mas, ao se deitar em seu quintal, Hawkes também estava deitada do lado de lá de uma fronteira fundamental. "A Land" foi escrito no final do Holoceno, e nós, do outro lado dessa divisa, já o lemos no Antropoceno.

O Antropoceno, ou a era do ser humano, denota a forma pela qual a civilização industrial mudou a Terra de forma comparável à dos processos do tempo profundo.

Os ciclos de carbono e nitrogênio do planeta, a química dos oceanos e a biodiversidade -cada qual, produto de milhões de anos de lenta evolução- foram radical e permanente desordenados pela atividade humana. O desenvolvimento da agricultura, 10 mil anos atrás, e a Revolução Industrial da metade do século 19 foram ambos propostos como datas iniciais para o Antropoceno.

No entanto, surgiu um consenso em torno da grande aceleração como marco inicial: o súbito e dramático salto no consumo iniciado por volta de 1950, seguido de grande aumento na população mundial e no uso de plásticos, bem como pelo colapso da diversidade agrícola.

TEMPO PROFUNDO

O conceito de tempo profundo foi descrito inicialmente em 1788 pelo geólogo escocês James Hutton, ainda que o termo que o designa só viesse a ser cunhado 200 anos mais tarde, pelo escritor americano John McPhee.

Segundo Hutton, os traços geológicos são determinados por ciclos de sedimentação e erosão, um processo que primeiro eleva e depois mói rochas, numa escala de tempo muito superior à prevalecente nas narrativas bíblicas. Essa estonteante virada, ao modo de Copérnico, pôs tanto Deus quanto o homem em questão.

A mente parecia se atordoar ao contemplar tão longe no abismo do tempo: foi como John Playfair, cientista que acompanhou Hutton em diversas expedições cruciais, descreveu a sensação de contemplar o penhasco estratificado de Siccar Point, na Escócia.

Mas as percepções de Hutton viriam realmente a ganhar força no romantismo do século 19. O registro afetivo do tempo profundo era o do terror e do deslumbramento, concebido para se enquadrar numa visão do sublime que transcendia a humanidade, mais ainda assim a afirmava.

O poeta Percy Bysshe Shelley se encantou com o poder implacável do Mont Blanc, a face nua da Terra, que contemplava nefastamente "todas as coisas que, com som e esforço, se movem e respiram/Nascem e perecem; revolvem-se, esvaziam-se e se expandem".

Mas existe grandeza nessa visão da vida, como escreveu Charles Darwin na conclusão de "A Origem das Espécies" (1859). A teoria da evolução que ele propôs se tornou concebível graças à janela que Hutton abriu para que pudéssemos contemplar esses novos e aterrorizantes panoramas temporais.

O tempo profundo representa um certo deslocamento do humano e do divino na história da criação. Contudo, no Antropoceno, nós humanos ironicamente nos tornamos a força sublime, os agentes de algo temível e muito maior do que nós mesmos.

Uma única mina na região das areias oleaginosas canadenses move 30 bilhões de toneladas de sedimento a cada ano, o dobro da quantidade movida por todos os rios do planeta somados. O peso da água fresca que redistribuímos desacelerou a rotação da Terra. A extinção em massa de espécies vegetais e animais não deve ser recuperada em menos de 10 milhões de anos.

Certamente sublime não é a maneira certa de caracterizar nossa resposta visceral a esses fenômenos. Estranha nos servirá melhor.

RADIOATIVIDADE

Um dos traços mais apavorantes do Antropoceno é a dispersão mundial de isótopos radiativos desde que testes com armas nucleares de destruição em massa foram iniciados, na metade do século 20: essa dispersão significa que todas as pessoas nascidas depois de 1963 têm material radiativo nos dentes.

A meia-vida do urânio exaurido (U-238) é de cerca de 4,5 bilhões de anos, mais ou menos a idade da Terra, enquanto a do plutônio do reator nuclear de Chernobyl é de 240 mil anos. Escalas de tempo como essas resistem à imaginação, mas estão ameaçadoramente presentes em nossa vida cotidiana.

Também há algo perturbadoramente banal no Antropoceno. Talvez seja nos encontros com os objetos, superfícies e texturas do dia a dia que extraímos o senso mais preciso de sua escala e escopo.

Cerca de 60 bilhões de galinhas são abatidas para consumo humano a cada ano; no futuro, ossos fossilizados dessas aves estarão presentes em todos os continentes como testemunho da intrusão dos desejos humanos no registro geológico.

Os plásticos, que começaram a ser produzidos em massa na metade do século 20, mostram o mundo tal como o Ocidente foi ensinado a vê-lo -maleável, imediatamente disponível e amaciado para nossa conveniência. Mas quase todos os plásticos já produzidos continuam a existir em alguma forma, e seus traços químicos estão cada vez mais presentes em nossos corpos.

É irônico que o cheiro de novo que caracteriza o PVC seja resultado da decomposição dos elementos instáveis presentes nesse material. Ainda que ostensivamente inertes, como os isótopos mortos-vivos de Chernobyl, os plásticos na verdade são intensamente vívidos e excretam produtos químicos que prejudicam o endócrino.

O plástico de uso único parece desaparecer quando o descarto, mas ele (e portanto eu) continuará a agir por milênios sobre ambientes nos quais persiste.

O Antropoceno é produto de nossas fantasias quanto a um mundo sem fricção e hiperconectado. Os seres humanos criaram 5 bilhões de gigabytes de informações digitais em 2003; em 2013, o mesmo volume de informação era produzido em apenas 10 minutos.

A despeito das conotações atraentes da nuvem, esses dados precisam ser armazenados em algum lugar. O Greenpeace estima que o consumo de energia de apenas uma das gigantescas centrais de processamento de dados da Apple equivalha ao consumo anual de 250 mil casas europeias.

Traços desses dados aparentemente efêmeros persistirão no tempo profundo do futuro, enquanto concentrações cada vez maiores de carbono esquentam a atmosfera.

A percepção central de Hutton foi a de que os seres humanos vivem imersos no tempo profundo, que imprime sua marca em nós enquanto conferimos a ele nossas ansiedades, invenções e desejos. A majestade de um mecanismo planetário que não tem vestígio de um começo e nem perspectiva de um fim, como Hutton descreveu, vem sendo perturbada pelas consequências cataclísmicas da modernidade.

A terra descrita por Jacquetta Hawkes havia sido moldada por uma combinação de processos geológicos, vida orgânica e atividade humana; nós alteramos decisivamente esse balanço.

A necessidade de imaginar o tempo profundo à luz de nossas atuais preocupações é maior do que nunca. O tempo profundo não é uma perspectiva distante e abstrata, mas uma presença espectral no cotidiano.

A ironia do Antropoceno é que estamos nos conjurando como fantasmas que assombrarão um futuro muito profundo.

 

David Farrier é pesquisador de literatura inglesa na Universidade de Edimburgo.

Texto publicado originalmente em aeon.com

Tradução de Paulo Migliacci