Falta de rotação de culturas e danos ao solo preocupam

Publicado em 12/03/2018 por Jornal do Comércio - RS

Thiago Copetti, de Não-Me-Toque
A continuidade do plantio de soja nas mesmas áreas por diversos anos consecutivamente vem causando danos ao solo em diferentes propriedades. A repetição da cultura e os problemas que vem causando, como erosão e dificuldade na contenção de novas e antigas pragas e ervas daninhas preocupa diferentes entidades. A própria Cotrijal, organizadora da Expodireto, criou um programa, denominado Monitora, para tentar melhorar o cenário entre seus associados. O alerta, porém, serve para agricultores de todo o Estado.
Um dos pontos centras do problema, alerta Gelson Melo de Lima, superintendente de Produção Agropecuária da Cotrijal, é fazer o produtor pensar além do insumo como forma de aumentar a produtividade e refletir sobre necessidade de priorizar o aumento do teor de matéria orgânica no solo. "O produtor está pensando muito na química e esquecendo que a lavoura tem que ter solo e água como prioridade. Se não tiver palha não funciona a agricultura de precisão, nem os fertilizantes e nem a transgenia", sintetiza Lima.
Ao longo da Expodireto diferentes especialistas e debates destacaram que o plantio direto, que pressupõe um sistema completo e inclui a rotação de culturas, está sendo esquecido. "O produtor não vem fazendo isso. Alguns por necessidade, já que o milho tem dificuldade de comercialização, mas temos alternativas", diz Lima, que ressalta a importância de manter o solo permanentemente ocupado com plantas de cobertura quando não há produção de grãos.
É essa rotação que vai colocar solo plantas com sistema radicular e nutrientes diferentes, com raízes mais profundas e posteriormente palhada, que vão ativar a biologia do solo. Com isso, as forrageiras vão romper camadas de maior adensamento de solos e impedir que haja predomínio de uma praga ou doença, o que não ocorre se a terra abrigar sempre a mesma cultura, como está ocorrendo com a soja.
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Lima diz que produtor está pensando muito em química e esquecendo outras prioridades. Foto: Marco Quintana/JC
"A soja é importante para o agricultor e para o País, mas não vai se sustentar desta forma. A produtividade vai caindo, as invasoras serão sempre as mesmas", destaca Lima.
Entre os exemplos já visíveis dessa sobrecarga das terras com a soja e o empobrecimento do solo é a presença da buva na Região Norte. A erva daninha não é tradicional na lavoura de soja, mas foi se adaptado e hoje está mais presente na cultura e é de difícil controle. Lima alerta que essas pragas e malefícios da monocultura acabam gerando custo de produção maior. "A nossa proposta é de dar uma parada enquanto se tem condições. A erosão do solo, que muitos jovens nem conheciam, está começando a ocorrer novamente, com frequência", afirma Lima.
Entre as alternativas que a Cotrijal está recomendo ao revisitar os dogmas do plantio direto (como não deixar o solo descoberto) é ocupar os espaços com plantas como capim sudão, trigo morisco e nabo forrageiro. Atualmente, segundo a cooperativa, não chega a 50% o número de produtores que faz o trabalho correto de manejo do solo.
Tem muita gente plantando sem movimentar o mínimo e necessário o solo. Mas se o produtor, por questões econômicas, não tem como plantar 30% da área com milho, como é o ideal na rotação, ele tem que pensar em como minimizar os danos com outro plantio. A Cotrijal chegou a ter 30% da área cooperativa plantada com milho, hoje não chega a 10%. "A rotação de culturas não é algo para ser pensado em um ano, mas ao longo de vários anos. Não existe nenhum negócio no mundo que se sustente sem um mínimo de planejamento, e isso vale para a agricultura", destaca Lima.
A grande preocupação do agricultor, hoje, diz o engenheiro agrônomo José Álvaro Pacheco, consultor do Senar na área de solos, é contar com o último lançamento, a nova semente, o insumo novo e o fungicida de última geração. Com toda a mecanização e valorização da tecnologia, avalia o engenheiro agrônomo, o produtor perdeu muito do contato com o solo e precisa resgatar o plantio direto.
"Temos de dar um passo para trás. Ele está muito baseado nos insumos, nos químicos. Mas tudo isso é ferramenta, a base é o solo, que está ficando para trás. Quando mostramos isso em cursos, há um choque por parte do produtor. Ele percebe que está errado. O difícil é transformar o impacto em atitude", reflete Pacheco.