Investimento baixo em novos projetos trava crescimento da economia

Publicado em 03/12/2017 por Correio Braziliense Online

Minervino Junior/CB/D.A Press
Para Robson Andrade, spreads bancários elevados inviabilizam boa parte dos negócios no setor industrial


O crescimento de 1,6% nos investimentos computado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas Contas Nacionais do terceiro trimestre deste ano surpreendeu positivamente o mercado, que esperava alta de 0,6% a 0,7% na comparação com os três meses anteriores. O resultado marcou o fim de um ciclo de 15 trimestres consecutivos de queda na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). O aumento dos investimentos é um dos fatores que estão levando analistas a prever que a economia deve crescer cerca de 1% neste ano e até 3,1% em 2018.
 
 
No entanto, as taxas brasileiras de investimento e de poupança são baixas em relação à média global.  Esses dois indicadores são essenciais para que qualquer economia tenha um crescimento sustentado. Segundo analistas, para conseguir avançar a um ritmo superior a 3% ao ano por um longo período, um país precisa ter investimento e poupança acima de 25% do PIB, o equivalente à média global. No caso do Brasil, a taxa de poupança registrada no terceiro trimestre deste ano foi de 15,2% do PIB, acima da registrada no mesmo período de 2016, de 14,9%. Já a taxa de investimento ficou em 16,1%, abaixo dos 16,3%, do mesmo período do ano passado, quando o país encolheu 3,5%, de acordo com o IBGE.

A título de comparação, na China, a taxa de investimento é de 44% e a de poupança, de 45%. O país asiático cresceu 6,8% no terceiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior, enquanto o PIB brasileiro avançou apenas 1,4% na mesma base de comparação, bem abaixo da média dos países do Brics, de 4,1%, conforme dados da Austin Rating. Para mudar esse quadro, segundo analistas, é necessário atacar os problemas estruturais que travam os investimentos.

Pelas estimativas da economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, apesar do crescimento no terceiro trimestre, este ano ainda será marcado por uma queda na taxa de investimento para 15,9% do PIB. Mas ela reconhece que o indicador poderá voltar a crescer de forma gradual, ficando acima de 20% do PIB em 2025. "O investimento no Brasil é baixo porque a poupança é baixa, principalmente a do governo, que não cresce devido aos deficits consecutivos das contas públicas", explica.

Renda

Se o país continuar crescendo pouco, a renda do brasileiro continuará encolhendo. Atualmente, o PIB per capita está em US$ 9,97 mil e, pelas estimativas da Tendências, só em 2023 voltará a ficar acima do recorde de US$ 12,36 mil alcançado em 2012, chegando a US$ 12,49 mil. "O boom das commodities fez o governo apostar as fichas apenas no estímulo ao consumo. Agora, a FBCF só deverá voltar a crescer quando as contas públicas deixarem de registrar deficits primários. Até lá, o país continuará na armadilha da renda média baixa porque privilegiou o consumo e não priorizou o investimento", resume Alessandra.

Para Sílvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), ainda vai demorar para que a contração de mais de 30% da taxa de investimentos, ocorrida nos últimos anos, seja revertida. "Estamos caminhando na esperança de que as coisas continuem com certa estabilidade política. O cenário mais otimista é possível, mas depende muito das reformas estruturais", afirma. Para ela, as mudanças precisam focar o aumento da produtividade e a recuperação das finanças públicas.

Apesar de arrecadar muito, o governo não consegue investir porque os gastos obrigatórios crescem muito acima da inflação, recorda Sílvia. "Além disso, o custo do capital no Brasil ainda é muito alto. No entanto, os juros elevados são consequências do desequilíbrio das contas públicas, ou seja, a má gestão do Estado consome a poupança das famílias em despesas que não dão retorno para o crescimento do país", lamenta.

Fôlego curto
Apenas em 2026, a Taxa da Formação Bruta de Capital Fixo deverá superar o pico de 2013 (em % do PIB)

» 2013 20,9
» 2014 19,9
» 2015 18,1
» 2016 16,4
» 2017* 15,9
» 2018* 16,4
» 2019* 17,2
» 2020* 17,9
» 2021* 18,5
» 2022* 19,0
» 2023* 19,5
» 2024* 19,9
» 2025* 20,4
» 2026* 21,1

*Previsão

Na rabeira
Taxa de crescimento no 3º trimestre de 2017 ante o mesmo período de 2016 (em %)

» Brasil 1,4
» Brics-Média 4,1
» Zona do Euro 2,5
» Média geral* 3,5

*Considerando 47 países que divulgaram dados
Fontes: IBGE, Tendências Consultoria, Austin Rating