Loetz: "O Brasil é igual a uma dona de casa que gasta mais do que ganha", diz liderança  de fundos globais 

Publicado em 04/12/2017 por Diário Catarinense

Giuliano De Marchi, a principal liderança da área de fundos globais da JP Morgan, fez, em Joinville, na última quinta-feira, palestra a clientes da Manchester Investimentos. Argumentou sobre as oportunidades de investimentos em fundos globais -  algo novo, ainda, para os brasileiros. E, mesmo evitando falar de cenário político-partidário, pontuou:

- O Brasil vive um dilema para 2018. As eleições serão um importante ponto de inflexão para o futuro. 

A seguir, os principais trechos de entrevista exclusiva com o executivo, feita no dia 30 de novembro.

Como o senhor percebe a economia brasileira?
Giuliano De Marchi -
O País tem um dilema para 2018. Refiro-me às eleições presidenciais de outubro. Elas, as eleições, serão um ponto de inflexão decisivo para o futuro. A polarização, se acontecer, trará muita volatilidade.

Quais são os embates?
De Marchi -
Vamos falar da crucial questão fiscal. Comparo: o Brasil é igual a uma dona de casa que gasta mais do que ganha. Para organizar as finanças, o melhor é ganhar mais. Então, no caso do governo, há dois caminhos para arrecadar mais. O primeiro: aumentar os impostos; e isso não é razoável nem a sociedade aceitaria. Segundo: emitir moeda, e isso causa mais inflação. E também não é razoável. Portanto, o caminho passa pela redução de despesas públicas.

Todos falam na imperiosa necessidade de se promover reformas estruturantes. Em especial, a da Previdência Social.
De Marchi -
As reformas são essenciais. Claro que a reforma da Previdência é a que está na ordem do dia. Certamente, não será fácil sua aprovação. Talvez não seja possível neste ano.

O senhor enxerga melhora na economia em 2018?
De Marchi -
Ah, sim. Teremos melhoras. Os investimentos globais virão. Há mais ânimo. 

No cenário global, China joga um jogo preponderante.
De Marchi -
A China cresceu via maciços investimentos em infraestrutura ao longo das últimas décadas. De agora em diante, vai crescer por meio dos estímulos ao consumo massivo. Para o Brasil, isso significa possibilidades crescentes de venda de produtos - principalmente commodities.

O mercado acionário sempre é volátil. Em ano eleitoral, como 2018, fica ainda mais. Como vê essa relação?
De Marchi -
Sem dúvida. E não são apenas as ações na Bolsa que oscilam. O câmbio também será afetado pelo fator eleições.

O que recomenda aos investidores?
De Marchi -
Lógico que sempre é importante diversificar. Nós, do JP Morgan, temos fundos de investimentos globais a oferecer aos interessados. O brasileiro não é só fechado e conservador. Ele também desconhece oportunidades de ganhar com aplicação com fundos em ativos internacionais, que permitem rentabilidade mais interessante.

Mas isso é apenas para clientes com mais recursos disponíveis.
De Marchi -
Sim. Isto vale para os chamados "investidores qualificados", aqueles que têm mais de R$ 1 milhão para aplicar. Há muito para o Brasil avançar nessa frente. Por exemplo: o Brasil representa 3% do PIB global; 2% das aplicações em renda fixa em todo o mundo e só 1% do total da capitalização em ações de todo o globo.

Qual é o tamanho desse mercado de "investidores qualificados"no Brasil?
De Marchi -
Esse mercado começou em 2015, no Brasil. Há, apenas, 50 mil pessoas com recursos aplicados nesta modalidade, que somam R$ 15 bilhões. A indústria de fundos tem só 30 anos.

O brasileiro é caracteristicamente conservador - até na hora de aplicar seu dinheiro. Isso atrapalha para conquistar clientes para fundos multimercados?
De Marchi -
O brasileiro aplica muito pouco em fundos globais. Os nossos produtos multimercados globais oferecem taxas mais baixas do que os fundos multimercados nacionais. Temos de nos acostumar com taxas de juros baixas, estruturalmente, pelos próximos dois anos, certamente.

Com juros mais baixos, vale a pena sair das aplicações de renda fixa?
De Marchi -
Até algum tempo atrás, aplicar em renda fixa pagando 15% ao ano, era um excelente negócio. Hoje, os juros estão em 7% e, no caso de investimentos milionários, a diferença de remuneração é enorme. Por isso, é fundamental olhar para diferentes alternativas.

O senhor viaja muito pela América Latina e tem contato com o mundo. Como avalia o cenário das economias dos países centrais e industrializados?
De Marchi -
O mundo está num momento bacana. Estamos muito otimistas para os próximos 12 a 18 meses. Nos Estados Unidos ainda haverá desemprego de 4%, mas com inflação baixa, o aumento da taxa de juros será lento. A Europa é, hoje, os Estados Unidos de três anos atrás. E tende a acelerar a expansão.

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