No dia seguinte à S&P;, siderúrgicas seguram o Ibovespa

Publicado em 12/01/2018 por Valor Online

SÃO PAULO - Em um dia recheado de justificativas para a realização de lucros, o Ibovespa consegue preservar o patamar dos 79 mil pontos. A visão de um ambiente de crescimento econômico sincronizado no mundo limita a reação das ações à decisão da S&P de cortar o rating soberano do Brasil, e também à queda dos preços das commodities, fatores que poderiam catalizar uma correção importante da bolsa, que acumula uma alta de 3,76% neste ano. Às 14h05, o Ibovespa caía 0,01%, aos 79.288 pontos. Logo na abertura, chegou a atingir a mínima de 78.861 pontos. Mas a queda dos preços acabou ajudando a atrair compradores. Essa visão benigna sobre o crescimento econômico está diretamente refletida no desempenho das ações de siderurgia e mineração. São papéis que ganharam o interesse dos investidores em um momento em que a demanda por aço ganha impulso com a retomada do crescimento americano, europeu, chinês e também brasileiro. "É um ciclo global particularmente benigno, uma melhora cíclica sincronizada como há tempos eu não via", afirma Marcelo Audi, sócio fundador da Cardinal Partners. "Um movimetno como esse é muito poderoso para as bolsas e não se reverte do dia para a noite." Desde o dia 19 de dezembro, quando começou o rali da bolsa, a CSN ON acumula alta de 44,5%, o melhor desempenho dentre as ações listadas no IBX. Na sessão de hoje, a sessão da siderúrgica também se destaca entre as maiores altas: Usiminas PNA avança 5,19%, Gerdau Metalúrgica sobe 4,34% e CSN ganha 3,32%. "É um movimento que pode estar exagerado, mas eu não vou ficar na frente dele", diz um gestor, que prefere não ser identificado. Vale ON também resiste no terreno positivo e, há instantes, ganhava 0,53%, assim como Petrobras (+0,88% a ON e +0,75% a PN). Quem contribui para manter o Ibovespa em queda são Localiza (-0,91%), Multiplan (-1,70%) e Lojas Americanas (-1,78%) Dólar O rebaixamento da nota de crédito do Brasil reforça a percepção do mercado sobre o delicado cenário político-econômico que o país enfrenta neste ano. O sinal de alerta, entretanto, não se traduz em projeções mais pessimistas ou reversão no preço dos ativos, que ainda são beneficiados pelos ventos favoráveis do exterior. O que "downgrade" evidencia, por outro lado, é a importância dada pelos investidores à corrida presidencial e, principalmente, os candidatos que participarão da disputa. O dia seguinte ao corte do rating brasileiro pela S&P Global conta com instabilidade no sinal dos ativos, mas sem refletir nervosismo dos agentes financeiros. às 14h10, o dólar comercial era negociado a R$ 3,220, em queda de 0,11% no começo da tarde desta sexta-feira, depois de oscilar de direção ao longo da manhã. O contrato futuro para fevereiro, por sua vez, recuava 0,07%, a R$ 3,2153. A resposta limitada nos ativos é atribuída ao fato de que a decisão da S&P Global já era esperada, principalmente diante da dificuldade do governo em avançar com a reforma da Previdência. O alerta da agência seria condizente com as expectativas já céticas sobre o ajuste fiscal em 2018. Em relatório, a equipe de pesquisa macro do Itaú Unibanco, chefiada pelo ex-diretor do Banco Central Mario Mesquita, lembra que a S&P justificou ontem o rebaixamento a partir da dificuldade no avanço do ajuste fiscal, incerteza que em 2017 já estava "elevada". Essa mesma incerteza é um dos fatores que embasam a perspectiva de câmbio mais depreciado em 2018, junto com os aumentos de juros nos Estados Unidos e o "consequente aperto" nas condições financeiras. Há alguma expectativa de que o rebaixamento aumente a pressão sobre a classe política pela aprovação da reforma da Previdência. No entanto, a proximidade da disputa eleitoral prejudica esse efeito. O que fica claro, entretanto, é que o corte do rating brasileiro aumenta a importância do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no final de janeiro. A expectativa ainda é de que o petista será condenado no TRF-4, dificultando sua candidatura para a Presidência. Uma decisão com placar dividido, no entanto, pode gerar agora mais volatilidade no mercado, uma vez que abre espaço para mais opções para se recorrer do julgamento. Juros Apesar do rebaixamento do rating brasileiro, o mercado voltou a reduzir o prêmio embutido ao longo da curva de juros futuros. Suscetíveis ao efeito de questões mais estruturais como o risco fiscal, os juros longos zeraram a ligeira alta do começo dia. A taxa projetada pelo DI janeiro de 2023 cai a 9,650% ante 9,690% no ajuste anterior. Já o DI janeiro de 2021 recua a 8,860% ante 8,880% no ajuste anterior. O movimento do mercado, por ora, não é tão negativo quanto se poderia esperar, de reversão de parte dos ganhos das últimas semanas. A reação é contida pelo fato de que o rebaixamento já era esperado, na leitura de profissionais de mercado ouvidos pelo Valor. A robustez das contas externas e os sinais de recuperação econômica também amenizam o impacto, assim como o ambiente externo ainda favorável a emergentes. O rebaixamento tende a deixar o Copom com uma postura mais cautelosa em relação a uma eventual extensão do ciclo de corte de juros para março. Com isso, é reforçada a leitura de que a flexibilização monetária deve terminar com corte de 0,25 ponto da Selic em fevereiro, com taxa de 6,75% ao ano. Olhando mais para frente, o economista-chefe para América Latina em Nova York, Gustavo Rangel, afirma que a tendência em 2019 é que haja aumento talvez menor do que o precificado no mercado agora. O cenário base do economista, de eleição de um candidato compromissado com o ajuste fiscal. "O que vai acontecer com a Selic depende muito da situação fiscal", diz.