Primazia de nações depende de domesticação de alimentos, diz autor

Publicado em 07/12/2017 por Folha de S. Paulo Online

A maior parte dos livros lançados passa quase despercebida; alguns provocam um deslumbramento momentâneo, mas logo caem no esquecimento; uma pequena minoria traz ideias que continuam sendo discutidas décadas depois de propostas.

Estes últimos são os candidatos a clássicos. "Armas, Germes e Aço", ou AGA, de Jared Diamond, está nessa categoria. Vinte anos após seu lançamento, o best seller geográfico, que recebeu o prêmio Pulitzer, ainda causa polêmica.

A tese central de AGA é que as diferenças de riqueza e poder entre as nações têm como causa remota principal a produção de alimentos, mais especificamente o número de espécies vegetais e animais que os povos domesticaram.

A agricultura, em que pese ter piorado a saúde dos primeiros grupos que a adotaram, permitiu que as populações se assentassem e multiplicassem.

Vieram, então, as cidades e os excedentes, com os quais foi possível sustentar reis, exércitos e trabalhadores especializados, que depois desembocaram em tecnologias como a escrita, siderurgia etc.

Por caprichos do acaso, o continente eurasiano não só proporcionou a seus habitantes um número muito maior de plantas e bestas domesticáveis como ainda, por apresentar um eixo longitudinal e relativamente poucas barreiras geográficas e ecológicas, facilitou enormemente a difusão das novas culturas.

Nas Américas e na África o eixo predominante é latitudinal e, como se sabe, o clima muda muito mais rapidamente quando se viaja de norte para sul ou vice-versa do que de leste para oeste ou vice versa. Isso faz uma grande diferença quando se tenta levar um tipo de planta ou animal para outra região.

O convívio próximo de grandes populações humanas e animais é causa das doenças epidêmicas. Patógenos em constante mutação sempre acabam dando um jeito de saltar a barreira das espécies.

IMUNIDADE

Os eurasianos, por terem domesticado muito mais animais e antes dos habitantes de outros continentes, foram os primeiros a sofrer com epidemias, mas também desenvolveram alguma imunidade contra várias dessas doenças.

Quando, milênios depois do desenvolvimento da agricultura, os europeus encontraram os povos de outros continentes, eles tinham a seu favor exércitos organizados com arcabuzes, cavalos e espadas, além de germes assassinos contra os quais os nativos não tinham nenhuma resistência. Foi um morticínio.

Diamond, que é uma espécie de polímata moderno, transitando com facilidade por campos tão diversos como biologia, medicina, geografia, história e linguística, conta essas histórias com riqueza de detalhes e com argumentos convincentes. Como ele também escreve muito bem, AGA é uma obra sedutora.

É claro, porém, que nem todo o mundo gostou. Os críticos de Diamond se agrupam em várias famílias distintas.

A acusação principal que pesa sobre a obra é a de determinismo. Ao conferir tanto peso a fatores biogeográficos, o autor diminui demais o espaço da ação humana e do papel das instituições na história, se é que não acaba com eles. Se os lugares reservados a cada nação moderna já estavam definidos mais de dez mil anos atrás, tudo o que ocorreu nesse meio tempo, isto é, a totalidade dos registros históricos, se torna algo de relevância marginal.

HISTÓRIA

Como conciliar as forças profundas da história que Diamond evoca (vale lembrar que Marx também recorria a esse tipo de explicação) com nossa experiência cotidiana com a causalidade, que assevera que pequenas ações e mesmo golpes do acaso podem ter grandes consequências? A história seria a mesma se Hitler tivesse morrido quando criança ou se Gavrilo Princip não tivesse assassinado o arquiduque Francisco Ferdinando?

O problema aqui provavelmente está na concepção humana de causalidade, que, pelo menos desde David Hume, sabemos ser problemática. A melhor forma de pacificar a aporia é conceder que existem diferentes níveis de explicação que não se excluem. Às vezes, até se complementam.

O próprio Diamond faz um exercício que caminha nessa linha nas páginas finais do livro e, principalmente, no posfácio que escreveu este ano para as novas edições de AGA (ele foi incluído na edição comemorativa da obra lançada pela Record).

Sem citar nomes, ele responde às críticas feitas por Daron Acemoglu e James Robinson no excelente "Por Que Nações Fracassam" e muito apropriadamente lembra a armadilha em que caem muitos autores que tentam explicar sistemas complexos: "tomar um único fator que explica parte dos resultados e alegar que ele explica todos".

É inevitável perguntar se o próprio Diamond também não caiu em alguma versão dessa armadilha em AGA.

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Armas, germes e aço - os destinos das sociedades humanas

Autor Jared Diamond
Coleção Edição Comemorativa - 20 Anos de Publicação
Editora Record
Preço R$ 57,50 (476 págs.)